Com sal, com amor

“- Mãe, quando a gente voltar pra nossa casa, você faz a sopa de batata pra mim?”
Faz quatro meses agora que o meu filho foi passar uma temporada na cidade onde eu cresci, porque as coisas ficaram difíceis de administrar na megalópole onde eu escolhi viver. Faltam três semanas para que ele volte, a passagem já está comprada, os queridos avisados, os arranjos feitos… vejamos então se será possível para mim falar.

Desde o início eu sabia que ele voltaria, mas eu tenho acordado todos os dias nesses quatro meses, como aquele poema da Wislawa: tudo o que eu sei é que eu tenho um filho, o resto eu ignoro. Sinto como se eu não soubesse que ele vai voltar, como se o tivesse perdido nas teias da vida, como se não estivesse nas minhas mãos decidir…

Há culpa, evidentemente. Como uma mãe pode abdicar de conviver diariamente com seu filho por quatro meses? Mas há um tanto grande demais de amor. O mesmo que as minhas mãos emanam sobre a sopa de batatas – baroa – que virou o prato preferido do moleque… esse mesmo que cresceu às minhas vistas, e ainda assim me surpreende que não seja mais um bebê: escolhe a sopa e a toma sozinho. Com o estímulo certo, até recolhe o pratinho à pia ao final da refeição.

E eu que gosto tanto de batata baroa, há quatro meses não cozinho a sopa. Não há inverno que a faça ter sentido. E como toda sanidade tem suas fronteiras, eu acabaria temperando-a com lágrimas.

Mas deixo a receita, sem quantidades exatas, e você vai experimentando quando for fazer… Como é a vida, e como é o único jeito que eu sei cozinhar:

Refogue cebola, alho e alho poró em azeite. Junte batatas baroas cortadas, e mais um menos um quarto dessa quantidade de batatas normais. Adicione uma folha de louro, um ramo de alecrim, moa um pouco de pimenta, e jogue um tico de sal. Junte água, apenas o suficiente para cobrir os legumes. Tampe e deixe cozinhar. Quando estiver tudo molinho, tire a folha de louro e o ramo de alecrim e coloque o restante no liquidificador. Bata com um pouco de leite de coco, e caldo de legumes caseiro, se você tiver em casa. Equilibre os líquidos e sólidos para que a mistura resulte num creme e volte à panela para finalizar com o sal que for preciso e noz moscada ralada. Se a ocasião for especial, ou o mês estiver em seus primeiros dias gordos, gorgonzola em pedacinhos na hora de servir.

E não se deixe enganar por esse post: esta é uma receita absolutamente feliz. E vai voltar às minhas panelas, assim que ele também voltar.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

É “mãe solteira”, por favor

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Você já deve ter lido em algum lugar da internet que não é mais adequado se referir às mães que tiveram seus filhos fora de uma relação estável como mães solteiras. Agora, nós as chamamos de mães solo.

Por favor, não faça isso comigo.

A principal intenção dessa mudança é retirar o estigma das mulheres que tiveram filhos, apesar de não terem cumprido com o percurso de se casarem antes, o que ainda é considerado correto. E o principal argumento é que as coisas não precisam estar entrelaçadas, e são muitos os casos em que não estão, o que demonstra que a maternidade se refere a um processo envolvendo a mulher e seu filho, não a mulher e seu estado civil.

Mas deixa eu te falar uma coisa sobre esse estigma. O termo mães solo, por definição, deve englobar ainda mulheres que tiveram filhos sem um companheiro por opção, e mulheres que se divorciaram após terem filho. E o que acontece com toda a gama de especificidades de nós mulheres que nunca tivemos nossa maternidade legitimada por uma decisão vanguardista ou um casamento?

Há no Brasil pelo menos 20 milhões de mães solteiras, de acordo com dados do IBGE. Sim, isso é um quinto das mulheres do país. Eu sou uma delas. Conheço pelo menos cem mulheres que também são uma delas e sabe o que todas as mulheres mães solteiras que eu conheço temos em comum? Um fazer materno dificultado de maneira absurda e desnecessária porque somos solteiras. Dificultado pela sociedade, pelo Estado e suas instituições, pelos nosso familiares, pelos nossos empregadores e principalmente pelos pais dos nossos filhos.

Desde o primeiro instante.

Quando você não possui um relacionamento estável com o pai do seu filho são grandes as chances de ele questionar sua participação naquela concepção. E como se não fosse contraditório, também são grandes as chances de ele te acusar de ter engravidado de propósito, para prendê-lo em um relacionamento ou drenar o seu dinheiro. Frequentemente, assim que o bebe nasce, ou até antes, há a realização de um exame de DNA, mesmo que não exista indícios que demonstrem essa necessidade. Todas as mães solteiras que eu conheço tiveram que ir à Justiça para garantir que os filhos recebessem pensão ou que esta chegasse a um valor justo, sempre questionadas pelos pais, porque não é possível que a criança realmente precise daquela quantia de dinheiro, ou que a mãe realmente a esteja investindo em seu bem estar.

A mãe solteira é uma mentirosa.

Quando você não possui um relacionamento estável com o pai do seu filho é muito provável que ele se aliene de toda a gestação e de suas demandas práticas e emocionais, afinal de contas ele possui um vínculo com aquela criança, mas não possui nenhum compromisso com você. A mãe solteira peregrina por médicos, salas de exame, lojas de produtos para bebês sempre completamente sozinha, sempre envergonhada pelas perguntas dos conhecidos, sempre sob olhares de comiseração e reprimenda: “E o pai? Tadinha. Mas porque não se cuidou?”

A mãe solteira é uma coitada irresponsável.

Quando você não possui um relacionamento estável com o pai do seu filho, você geralmente se vê tomando todas as decisões completamente sozinha. E empreendendo sozinha todas as decisões que tomar. Não por opção e não que isso te proteja de ser questionada após a ação já ter sido feita. Afinal de contas, a vida prática da criança acontece de segunda a sexta, quando ela geralmente está com você. Vai para a escola? Qual? E nas férias escolares, o que ela vai fazer? Precisa de médico? Qual é melhor? Evidentemente isso acontece também com muitas mães em relacionamento estável e vai continuar acontecendo em todos os arranjos até que a gente obtenha uma coletivização dos cuidados com crianças. Mas dizem por aí que um “novo pai” está se formando e algo me faz suspeitar de que ele vai chegar com atraso para as mães solteiras. Experimente, por exemplo, reclamar. Logo alguém aparece para te lembrar de agradecer, afinal de contar o pai do seu filho é um ser de luz que o vê religiosamente de 15 em 15 dias e está até pagando pensão em dia.

A mãe solteira aprende na marra que suas expectativas de companheirismo devem ser ainda menores do que a média.

Quando você não possui um relacionamento estável com o pai do seu filho, você às vezes ainda almeja ter um relacionamento com alguém. Mas pelo experimento desta mãe com o Tinder, já é possível perceber o que as pessoas acham de mães solteiras abertas a experiências sexuais ou amorosas. Eu comecei a namorar alguns meses depois do nascimento do meu filho, e por muitas vezes o meu namorado foi questionado pelos amigos por tomar essa decisão louca de ficar com uma mulher que claramente só queria um idiota para posar de pai postiço do seu filho. Mais recentemente, um ficante ao ouvir essa historia perguntou: “mas o cara teve coragem de ir morar com você, mesmo você tendo um filho?”. Cruel, mas bastante honesto. E é claro que você vira uma engravidadora em potencial, afinal de contas se já “fez” com um, o que garante que não vai engravidar de novo de todos os caras com quem ficar? Além de ser o contatinho promíscuo certo: se teve um filho é porque dá pra qualquer um, logo não vai “fazer charminho” com ninguém. Acredite, eu já ouvi essa também.

A mãe solteira ou é promíscua ou se protege desse julgamento permanecendo sozinha.

Quando você não tem um relacionamento estável com o pai do seu filho, e precisa comunicar isso em escolas, unidades de saúde, ou outros serviços que esteja buscando para ele, a investigação sobre a sua conduta será muito mais rigorosa. Afinal de contas, se você foi irresponsável o suficiente para ter uma gravidez indesejada, quais as garantias de que se esforça para cuidar bem daquela criança?

A mãe solteira é um perigo em potencial.

Quando você não tem um relacionamento estável com o pai do seu filho, os empregadores sabem que você é uma pessoa sobrecarregada, e já pressupõem que não será uma boa profissional, por não conseguir colocar o seu trabalho como sua maior prioridade, ou por ter sempre outras demandas, que te cansam ou desconcentram.

A mãe solteira não é confiável.

Quando você não tem um relacionamento estável com o pai do seu filho, muitas pessoas concluíram que a solidão e a exaustão são um preço justo a se pagar para que você consiga expiar pelo pecado do sexo que resultou em uma gravidez. E será preciso coragem extra para vencer a culpa internalizada e as pressões externas, para fazer coisas simples como deixar seu filho com amigos para se divertir sozinha ou ter um encontro. O que ocorre em alguma medida com todas as mães, mas de maneira ainda mais pungente com aquelas que “não deveriam ser”. Mesmo dentro da sua própria casa, você pode ser acusada por familiares de negligência ou desamor, por “terceirizar” funções que deveriam ser suas e sempre suas. Ainda que muitas mães solteiras, como eu, contem com a ajuda de pessoas próximas – especialmente mães, tias, irmãs – há uma expectativa geral de que você passe a viver para o seu filho, e somente para as coisas relacionadas ao desenvolvimento e bem estar dele, assumindo-o como seu grande e único companheiro, e embevecendo-se somente da satisfação que ele pode te proporcionar.

A mãe solteira, se não for uma abnegada, é uma encostada.

Me digam: não são muitas – e em certa medida muito específicas – as situações em que os questionamentos sobre a sexualidade das mães se alia aos questionamentos sobre a honestidade de mulheres sem companheiros? Todas as mulheres em algum momento da vida serão vagabundas. Mas as mães solteiras parecem ter um talento especial pra carregar a alcunha. E carregam. Desde a fundação da nossa sociedade sobre a pedra da família nuclear monogâmica.

Eu compreendo o esforço de rejeição e quebra de todos os muitos rótulos identitários que nos normatizam e contêm, mas se ainda precisamos especificar essa categoria de mães na qual me encaixo – e eu acredito que precisamos, dada que vejo uma categoria aparte de dificuldades e opressões – eu prefiro ficar com a versão tradicional.Também compreendo, obviamente, que a modificação da linguagem é essencial para modificação das relações, mas já que as palavras que compõem o termo “mãe solteira” são apenas descritivas, e não carregam teor ofensivo em si, reitero: prefiro essa versão tradicional.

Afinal de contas, não são poucas as vezes em que preciso dizer meu status e eu quero que as pessoas tenham a exata dimensão do desafio que isso representa, desde o início. Na minha experiência, ser mãe solteira significa ter sempre menos do que as outras pessoas igualadas a mim por fatores como raça, identidade de gênero, classe social e ausência de deficiências. Menos tempo, menos dinheiro, menos disposição e disponibilidade, menos mobilidade e por outro lado mais trabalho, muito mais trabalho. Sabe aquela história da palavra “guerreira”, geralmente usado como atenuante de valorização para se falar de tantas mães sobrecarregadas? Eu sempre respondo que não sou nenhuma guerreira, só uma pessoa vivendo a vida que tem. Se a gente prefere a verdade crua e nua neste caso, porque deveríamos dourar a pílula na premissa?

 

Se fosse…

Se isso fosse uma série dramática, eu seria capaz de dizer em voz alta, muito alta. Em um ritmo acelerado, de quem quer encaixar o maior numero possível de palavras em um só fôlego, porque antes da próxima tomada de ar é provável que um irresistível desejo de desistência apareça e as frases acabem incompletas, interrompidas pela porta que bate.

Se isso fosse uma série dramática eu gesticularia amplamente, muito amplamente. Andaria de um lado para o outro na sala, como se a torrente de palavras precisasse da força cinética produzida pelas pernas para brotar pela boca e, ao mesmo tempo, como se a força cinética transformasse a torrente de palavras em seu produto inevitável, incontrolável e não deliberado, a respeito do qual não se pode determinar culpa.

Se isso fosse uma série dramática, eu me sentiria liberta, muito liberta. Afinal de contas, o esforço obstinado do meu interlocutor a princípio me provocaria incômodo, em um segundo momento me despertaria ira, para em seguida fazer nascer em mim estoicismo, mas ao final, ambos exaustos, a represa finalmente romperia, inicialmente violenta, e depois se recompondo em um remanso de compreensão.

Mas isso não é uma série dramática. E ainda que a resposta tenha vindo mentalmente imediata, ainda que a sala seja um consultório psicológico, ainda que os 120 reais semanais sejam pagos para que eu fale… Eu me calo e, dissimulada, ainda digo coisas outras, apenas para esconder o óbvio.

“Por que você não consegue se decidir?”

Eu não consigo porque sou incapaz. Eu sou incapaz porque sou sozinha. E sendo sozinha, carrego em mim todo o peso do meu próprio mundo e não há ninguém que sinta essa mesma espécie mui específica de comiseração e medo.

Eu me calo sobre isso porque tenho asco de que este pensamento me ocorra. Sozinha? O que poderia isto significar? Não enfrentaremos todos sozinhos a hora derradeira? O limite que a nossa pele impõe a respeito do que é a gente e do que é o mundo não garante que sejamos todos uno, portanto, sozinhos? Como outro alguém poderia dividir ou mesmo entender o peso do meu mundo? Como um outro alguém que não está apartado do mundo pela minha pele e pelo conteúdo que ela estofa poderia sentir a minha espécie mui específica de medo e comiseração?

Metafísicas, ontologias…

Não é isso que você quer, não é? Aplico palavras que nem sei se corretas clamando para que você veja meu fundo, que eu nem sei se tenho. São tantas as banalidades a serem pensadas e resolvidas por duodécimo de dia que às vezes me vejo medíocre. Quê tempo para metafísicas e ontologias? Não consigo decidir sequer em qual destas searas é que a vida realmente acontece. Misturam-se ou revezam-se? Intercalam-se entremeadas? Em qual proporção?

Shh… Aquiete-se! De mais a mais, até que pensei, mas não o disse. Por dentro pão bolorento pulsando estuporado. Por fora, dê-me a viola, duas cordas de nylon, saída fácil: “Não sei por quê. Só sei que não o faço”.

um, dois, mil cigarros

Então essa amiga que passa por momentos bem complicados na vida entra no elevador e traz um cigarro nas mãos.

E uma outra amiga que já estava no elevador, e não é uma desamiga enxerida, é amiga boa, com a melhor das intenções, interpela:

– Mas Fulana, você voltou a fumar? Não acredito!

A Fulana começou a fabricar uma feição de justificativa, mas antes que ela começasse a falar, eu interrompo:

– Fuma sim, Fulana! Fuma, enche a cara, faz o que você quiser. Porque a vida é difícil e a gente faz o que precisa pra continuar.

A gente tenta ser Joana D’arc e levar a vida na base da coragem e do estoicismo.

Mas às vezes a gente só precisa… fazer o que a gente precisa.

 

Jamais serei W.S.

Eu escrevia poemas quando era criança. Usava palavras que nem eu conhecia, impressionava professores e familiares, e algumas pessoas diziam que eles eram genuinamente bons.

O auge da minha verve poética foi entre os seis e os nove anos, mas aos doze eu ainda escrevia poemas espaçados, quando a minha família teve que se mudar da cidade onde a gente sempre viveu, após a primeira crise do meu pai.

A bipolaridade o tinha levado a consumir o que a gente tinha e o que não tinha. A cantilena diária dos credores era insuportável e era preciso arrumar novo emprego, num lugar onde fôssemos novos o suficiente para conseguir depois de tudo, e tentar repor o que fosse possível da dignidade balançada.

Eu não me lembro se rasguei ou se queimei todos os meu poemas, mas nessa nova casa temporária, eu os destruí e depois disso a poesia se foi de mim: ainda que eu tenha tentado, jamais consegui escrever um poema sequer que fosse bom.

Enquanto eu penso nisso, minha mente traz em segundo plano uma lembrança recente muito doce do menino. No exato momento em que meu cérebro a fabricava, eu já sabia que seria uma daquelas lembranças que a gente guarda na gaveta das sinapses definitivas, aquelas tão preciosas que nem o Alzheimer ou a demência ousam tocar.

Ele pediu que eu colocasse sua música preferida do momento para tocar no celular, deu a mão pra mim como sempre fizemos, e me tirou para dançar. De mãos dadas, sincronizamos um balanço, e ele intercalava sorrisos com tentativas de cantar a música francesa com arremedos tirados do seu português infantil.

Hoje por alguma razão eu acordei pensando: qual das suas inocências ou potencialidades eu e a vida vamos extirpar?

Passageiros

Você foi atropelado por um trem chamado Verdade e ainda assim eu estou de pé ao lado dos trilhos olhando para os pedaços ensanguentados que sobraram e tentando te recompor. Mesmo sabendo que este atropelamento aconteceu em tempos imemoráveis e seus restos mortais são apenas uma lembrança embaçada, porque o que era realidade já se tornou poeira que o vento úmido do litoral carregou.

Você foi atropelado por um trem: não foi morte natural. E eu sei que este trem se chamava Verdade, porque eu estava lá, quando ele deixou a estação. Eu vi seu nome e sabia seu destino e ainda assim eu embarquei neste trem, escolhi minha poltrona e esvaziei todos os meus bolsos em troca desta viagem.

Você foi atropelado por um trem. E para esquecer que eu sabia o que me esperava, eu passei todo o percurso me distraindo com um livro que eu mesma escrevi. No entanto, não foram poucos os solavancos, arremessando o livro das minhas mãos para o chão, me forçando a olhar para fora e ver a paisagem ora lírica, ora nefasta que se sucedia.

Você foi atropelado por um trem e eu sempre soube que você estava nos trilhos porque eu fui avisada por todos os apitos, sinais gráficos e trabalhadores ferroviários. Mas eu ignorava… ah, eu ignorava. Eu baixava os meus olhos e esperava em prece que o trem pararia para que você embarcasse, sentasse na poltrona ao meu lado, lesse meu livro e escrevesse as últimas páginas.

Você foi atropelado por um trem. E não é que eu não tenha tentado sair desse trem. Eu me joguei incontáveis vezes pra fora da janela, aproveitando alguns desses solavancos. Mas eu sempre era colocada de volta, sobre a maca, ferida, porque o trem era meu, e não me era permitido abandonar.

Você foi atropelado por um trem e eu fui forçada por mim mesma a estar neste trem e assistir.

Você foi atropelado por um trem e ele se chamava Verdade. E agora que o trem passou e você foi atropelado, destruído, devassado, eu olho para os restos mortais sobre trilhos – ou para a minha memória fabricada deles – e me pergunto se este trem e esta morte e você realmente existiram.

Você foi. Já foi. Atropelado por um trem.

Mas eu ainda ouço o barulho, ainda sinto o vapor. E o trem ainda corre e ainda atropela o que estiver pela frente nos trilhos dentro de mim.

Casa

A Rosie que me olha da parede oposta, presente de um ex-amor, me lembra que eu já me permiti.

A Frida em relógio, ainda que parado, me lembra que eu não deixei de tentar.

O Almodóvar em trio me lembra que eu nunca me esqueci.

A estante muito boa de longe, nem tão boa de perto, me lembra que eu arrisquei e não me importei de falhar.

O porta retrato com quatro fotos da criança ainda em bebê me lembra que tudo passa. Seja bom ou ruim.

A planta já morta me lembra que muita coisa, ainda que muito importe, um dia acaba.

E aquela que ainda vive me lembra que muito do que importa, ainda que em condições adversas, resiste.

O cigarro me lembra que certos crimes compensam.

O rosé me lembra que a gente precisa, às vezes, que ao menos uma coisa seja doce.

O vizinho pendurando roupas me lembra que o mundo existe a despeito de mim.

A almofada bordada me lembra que as pessoas também existem a despeito de mim, mas algumas delas existem também para mim. Voluntariamente.

O sofá outrora muito bege me lembra que há desejo; a vitrola, que há ousadia; o disco dos Doces Bárbaros, inconsequência. E tudo se paga.

Caetano me lembra de tudo. Sempre. Neste momento: que é doce também morrer… nesse mar de lembrar.

A Casa me lembra que é minha. Assim como eu também sou.

 

Imã

Essa fresta na parede. Vê? Eu fui fazendo para o sol poder entrar. Primeiro eu fiz um furo, tão pequeno que ninguém além de mim podia ver. Mas cada dia eu me levanto, passo um café, ando até a parede e cutuco pra arrancar mais um pedacinho. Agora olha só: já passa um dedo inteiro e nem precisa ser um dos mindinhos.

Hoje, eu futuquei um pouco mais do que nos outros dias, confesso. Eu tentava trocar olhares com o sol e consegui. Nossas íris se eriçaram diante de telas. Cada par de um lado. E ele, claro, nem sabia que era visto por mim, porque mentir?

Mas que importa? Foram dois segundos – se tanto! – e três movimentos de suas chamas – belíssimos – e meu coração se aqueceu. Agora ele repousa morno – suponho -, ali, do outro lado da fresta – é o lógico -, e eu aumento, cada dia um pouquinho – religiosamente! – essa fresta, porque a vontade é de andar pra fora da casa, comprar um balão, e voar até ele.

Pra não me consumir em fogo, eu olho. Eu o sei. E me basto.

 

 

 

 

 

 

Diários de uma ansiedade 6 – A megalomania

“But maybe it’s a false alarme. And every answers sounds the same. Just colours bleeding into one. It hasn´t got a name. Maybe I can’t see. Maybe it’s just me.”

Tudo o que a gente quer é que seja um alarme falso. Que seja só um dia ruim. Só uma indisposição. Só o estresse do trabalho, só os rumos da política nacional, só a falta de uma boa noite de sono, uma boa garrafa de vinho, uma boa trepada.

E pode ser. Mas pode não ser. E se você for de alguma forma uma pessoa neuroatípica você jamais poderá se dar ao luxo de sentar e esperar pelo melhor.

Eu queria ter essa boa notícia para te dar, mas eu já internei dois pacientes com transtorno bipolar severo, tenho um sem números de amigos com depressão e convivo com a ansiedade desde que eu me entendo por gente (apesar de só ter compreendido isso há um ano) e nenhuma dessas coisas vai embora pra sempre quando você se estabiliza de uma crise. Abrace a sua condição, tome quantos cafés seja preciso na companhia dela, até que você a conheça de cima a baixo. Procure saber suas motivações, seus gatilhos, seus limites, de quem ela gosta e de quem ela não gosta, porque assim talvez você consiga evitar que ela faça entradas triunfais e constrangedoras naquele momento em que você menos precisa.

E não ignore sinais.

Há algumas semanas, eu comecei a experimentar uma estranha sensação de vazio que não era a exaustão característica do esgotamento que a ansiedade provoca em mim de tempos em tempos. Era outra coisa. Coincidentemente, os sintomas começaram a aparecer justamente na semana em que eu comecei a tomar um composto fitoterápico receitado por uma nutricionista. Como eu estava atenta, da suspeita à ação, não se passou uma semana e com o remédio suspenso, o vazio desapareceu. O que teria acontecido se eu tivesse ignorado a minha intuição?

Eu bebo, fumo um cigarro ocasionalmente, adoro uma festa e não pretendo abandonar nenhuma dessas coisas, já que até o momento, eu não pareço precisar de uma mudança radical. Mas eu sei que dias seguidos de alcool e noites mal dormida desregulam completamente o meu controle da impulsividade e nos dias seguintes à farra eu estarei comendo mais, gastando mais dinheiro, tomando atitudes impensadas, procrastinando obrigações, roendo as unhas…

Saber não necessariamente vai te ajudar a evitar. Nossas mentes são danadinhas nessa brincadeira de arrumar subterfúgios. Mas é essencial para que a gente consiga controlar danos, evitar problemas maiores, e o mais importante: não se desesperar.

Condições mentais têm uma fome voraz por desespero. E culpa. E taí um combustível que a gente costuma ter de sobra pra queimar. De repente você está bem, e no dia seguinte não está mais. E você deseja tanto tanto tanto nunca mais passar pelos piores momentos da sua condição que você se desespera, apenas por contemplar a possibilidade de se afogar naquela lama de novo. Mas abandonar o pouco de racionalidade preservada não parece uma boa coisa pra quem tem depressão ou ansiedade, certo?

Mas nada disso é uma garantia vitalícia completamente a prova de desgraças. Simplesmente porque a gente vive no mundo real. Que pra maioria das pessoas não é nenhum bolinho Pullman.

No meio dessa bagunça você vai fazer alguma coisa eventualmente (ou muitas coisas com considerável frequência) que é o exato oposto do que você gostaria. Mas saiba que mesmo que você pudesse voltar no tempo e modificar isso, você provavelmente apenas criaria uma realidade paralela, e essa versão de você que você está detestando nesse exato momento continuaria existindo e fazendo merda nessa linha temporal onde estamos. O que significa que você tem razões científicas pra não se deixar consumir pela culpa. Ou pelo menos tentar. Porque literalmente nada pode ser feito.

Pode parecer meio megalomaníaco uma pessoa ferrada como eu aparecer aqui te dando conselhos. Ou talvez eu esteja escrevendo esse texto uma hora da manhã, enquanto tomo um Campari, depois de ter passado um dia inteiro sem conseguir botar o pé pra fora de casa enxergando tudo cinza.

Mas pelo menos eu sei que é estranho. Ó como eu já evoluí.

 

 

 

 

 

 

 

 

Bate, e dói dói

Eu te amo.

Mas eu preciso me afastar de você.

Por uma noite. Talvez dois dias, talvez três semanas inteiras. Sentindo a ausência e o desejo, mas nenhum sofrimento. E você talvez não entenda, mas eu consigo ver… Você também precisa se afastar de mim. Você precisa de uma noite, dois dias, três semanas para ser todas as coisas que você não é na minha presença. Porque juntos somos aquela entidade impalpável. Imutável. Inescapável. Juntos a gente se engole. Você e eu, tornados elementos de uma mesma oração, viramos aquela coisa que se supõe acima de todas as outras, antes mesmo que eu ou você tivéssemos nascido. Para muito além do dia em que eu e você tivermos desaparecido.

Juntos a gente se excede.

Dia desses você olhou para mim e falou mais alto, ríspido. Olhos crispando, daquela raiva e incompreensão pueril. Outro dia, fui eu que gritei e você se encolheu com medo. Embolado no canto do sofá, como se eu tivesse dois metros e meio, além dos meus um metro e sessenta. Mas isso, posto que é fagulha e não chama, em um momento mais breve do que se possa supor, passa. E a gente volta reconfortados pra nossa existência de pedra sob o fogo, tranquila e morna.

É quase um rigor ritualístico. Nos últimos instantes do dia, lado a lado na cama que fica encostada na última parede do ultimo quarto, do nosso apartamento que é o último no canto direito do primeiro andar, a gente põe os pingos sobre os “is” e todas as outras letras. Eu no canto do meu travesseiro mais próximo ao seu, você no canto do seu travesseiro mais próximo ao meu, falamos sobre as expectativas frustradas – não são, de alguma maneira, todas? -, e sentimentos sufocantes – há algum, sob algum prisma, que não é? -. Amalgamados, tanto pressionam até espocar num estampido. Viram gritos, que eu não queria e você não pôde evitar. Com bem quereres e carícias, colocamos o indesejado em sua caixa, pronto para ser arquivado no armário de todas as coisas que não deveriam ter acontecido. Mas isso, posto que é clique em meio a ruído, também passa. E decorridas algumas horas, a gente volta a se exasperar.

Basta um pó de coisas, um copo, uma veste, um olhar. Basta que eu tenha chegado com disposição melancólica. Tenha te encontrado repleto de mimos não satisfeitos. Que estejamos ambos assim-assim ou assado-assado. No instante anterior à ação é quase possível tocar o fluido do que ainda está para acontecer. Premente. Crescendo nesse encrispando raivoso. Até que…

A onda que passa deixa na areia essa figura metade tomada pela culpa, metade pela confirmação da clarividência. Dividida como um círculo: um terço de segurança, um terço de abominação, um terço de indecisão: não sei se escondo ou não uma das partes anteriores com a outra. E qual das duas faz o papel de faca. E quando.

Argumentos à mesa, me diga: a gente não precisa se afastar um tantinho que seja?

E voltar com as nossas almas aradas e férteis. Aguardando a semeadura de novos embalos. Regados com o re-conhecimento sem esses ressaltos de agora. Uma novidade aqui, uma permanência acolá… Fluindo como seiva em dia quente. Porque, você sabe: eu te amo numa medida que minha colher medidora, ou régua ou trena não são capazes de mensurar. E ainda que impreciso em sua gigantesa, isso é o suficiente para eu vaticinar que a gente volta. A gente sempre volta. Porque a gente sabe antes mesmo de desconfiar que somos as rodas. E amores intermináveis, posto que ciclos, precisam de suas rodas pra recomeçar.