TPM com um T bem grande pra você

Na primeira dentada na fatia de mamão, veio junto um pedaço de casca e eu quis estraçalhar a fatia toda e escrever SATÃ ESTEVE AQUI com o sumo na parede do elevador.

Na próxima dentada, houve um pequeno espirro que acertou bem a minha bochecha esquerda e eu quis dar uma de Hannibal e cortar a bochecha fora e dar pro cachorro comer.

Nos primeiros passos que eu dei na calçada, um toc-toc diferente anunciava que o salto do sapato perdeu a proteção, e eu quis tirar o sapato, colocar uma bomba atômica dentro e jogar pro alto, extinguindo a humanidade.

Ao chegar ao banco, três pessoas aguardavam para usar o caixa eletrônico e eu quis comprar um enorme despertador, que não apenas produz um barulho ensurdecedor, mas também ativa um taco de beisebol que acerta bem em cheio a cabeça do indivíduo adormecido, e instalar na casa de cada uma delas, acordando-as no susto às cinco da manhã, pra garantir que elas cheguem bem antes de mim no banco, ao invés de me obrigar a esperar.

Quando chegou a minha vez, a máquina não leu o meu cartão imediatamente, e eu fiquei na dúvida se gostaria primeiro de chutar a máquina por duas horas seguidas, ou até quebrar o pé, o que acontecesse primeiro, ou quebrar o cartão em mil pedacinhos e comer.

Então a máquina pediu a senha de letras e números e eu precisei fazer um mini exercício de respiração para controle da ansiedade, para conter o impulso de escrever A PuTa QuE PaRiU Te LeVe PaRa O InFeRNo.

Ao subir no ônibus, o motorista andou dez metros e brecou, andou dez metros e brecou, e eu fui pra frente e para trás, antes de conseguir sentar, enquanto me imaginava voltando para estapeá-lo cinco vezes em cada lado da cara.

Cheguei ao trabalho sã, salva, sem agredir nem ao menos verbalmente ninguém, e se vocês estão aqui lendo isso é porque eu tampouco extingui a humanidade (peço desculpas por isso).

Mas eu não posso mentir pros meus três leitores e meio: como eu quis…

 

 

 

Quantas arrobas pesa o querer?

Na encruzilhada, cruzei com um despacho. Enquanto seguia para o trabalho. Era um coração de boi, eu suponho, dentro de uma pequena tigela, completamente amarrado em fitas vermelhas.

Confesso ter fitado diretamente por muito pouco tempo o despacho. E senti como se abrisse secretíssimo diário.

Por alguns segundos eu vi não somente o desejo mais profundo de alguém, como uma das coisas que ela é capaz de fazer para saciá-lo. E não se trata apenas de matar um boi ou comprar o coração de um no açougue mais próximo. Tampouco de procurar alguém que aceite dinheiro, presentes ou gratidão, para amarrá-lo em feitiços. Esta pessoa desconhecida, dona do despacho na encruzilhada com o qual eu cruzei, está disposta a produzir submissão.

Que fardo!

Quão desesperador deve ser esse desejo!

Para que essa pessoa tenha saído de casa; matado um boi ou comprado o coração de um no açougue mais próximo; procurado alguém que aceite dinheiro, presentes ou gratidão para amarrá-lo em feitiços; caminhado pelas ruas da Lapa durante a madrugada alta, levando seu coração cruzado em muitas voltas por fita vermelha; despachado na encruzilhada por onde eu passei enquanto ia para o trabalho. E depois tenha voltado para casa para cumprir com o restante de seu ritual e esperar. Não que o objeto de seu desejo se apresente por vontade própria com intenções de amá-la para o resto da vida, mas que chegue trazido à mão pelo inexplicável. Talvez, quem sabe, atordoado. Sem entender de onde saiu vontade tão irresoluta e irracional.

Como há beleza nas coincidências, o amor que essa pessoa espera conquistar, caso adentre sua vida, irá fazê-lo… como gado.

 

Mais quente que o inferno

Os sites de astrologia dizem que a sua Vênus te faz alguém de conquista lenta que precisa confiar muito para se entregar; a taróloga disse você tem medo de perder o controle das coisas, então precisa que eu te passe segurança para você conseguir continuar; meu coração não me diz nada com clareza.

Ocorre que eu não faço ideia de como se faz uma coisa dessas. Como mostrar para alguém que você gosta que essa pessoa pode gostar de você? Que você enrolaria o coração dela em algodão e guardaria numa caixa no fundo da prateleira mais alta, pra resguardar do risco de alguém bulinar demais e quebrar?

E pra piorar eu acho que eu sempre fui uma pessoa muito amada apesar de.

De ser espalhafatosa e não me incomodar por chamar a atenção. De ser sensual e gostar muito disso. De parecer que posso ir embora a qualquer momento, porque eu me acho melhor do que qualquer outra coisa que exista. De dar ordens mesmo quando não intenciono, e de torcer argumentos a meu favor, mesmo quando prefiro perder a discussão.

Mas verdade seja dita: todas as pessoas muito seguras só souberam criar muros muito altos para as suas muito grandes vulnerabilidades.

Então eu tentei te contar sobre alguns dos meus medos. Mas não quis ir demais, porque você gosta muito das minhas gargalhadas, e não sabemos o que pensa da parte de mim onde elas não habitam.

Então, eu tentei deixar o meu romantismo dramático correr solto. Mas depois pedi desculpas, por talvez perder a medida entre o que diverte e o que assusta.

Então eu quis te dizer que eu não sinto vontade alguma de ir embora de você. Que eu sou mais sensual pra você. Que as minhas ordens são carinhos… Um pouco mandões. Então eu me senti patética, por querer tanto aparecer inteira para alguém que provavelmente não quer ver nenhuma parte.

Então, eu teci teorias terríveis mas confortáveis que eu não consegui confirmar; então, eu sentei e esperei o universo te dar vontade de aparecer voluntariamente e me dizer o que fazer; por fim, eu tentei me conformar e virar a cabeça para o outro lado, o vasto lado da vida em que você não está. Ao inferno com o sol e a força juntos me dizendo: “persevere!” Quem em sã consciência acredita em coisas profetizadas por uma mulher carioca que se manifesta por mensagens de whatsapp?

Mas então eu vou dormir todas as noites, evitando tocar naquela peça de roupa emprestada que ainda guarda o seu cheiro – eu juro que guarda – mas pensando que eu fugiria para Shangri-la com você.

Pateticamente eu confesso que fugiria. Eu fugiria sim, para Shangri-la. Com você.

Você só precisa empacotar o violão.

E querer.

Gentes estranhas

Tem essas pessoas.

Que. Ao contrário de mim.

Não se distraem durante nenhuma atividade importante. Nem indo à cozinha para buscar a décima xícara de café no dia. Nem pensando na catástrofe no Oriente Médio. Nem encarando as pontas duplas no cabelo e calculando quando poderá ser feito um novo corte. Nem planejando a janta de mais tarde. Nem abrindo uma nova aba do navegador sabe-se Deus para quê. Nem digitando inevitavelmente o endereço http://www.facebook.com para ver as últimas notificações. Nem conferindo se aquele telefone que nem é necessário foi mesmo anotado naquela folha minutos antes só porque sim. Nem ouvindo aquela música que o cérebro cantarola de vinte em vinte minutos desde às sete da manhã. Nem comentando a última fofoca da firma com a amiga. Nem apoiando a cabeça sobre as mãos para encarar profundas questões existenciais. Nem verificando se cada unha está com o mesmo tamanho da sua equivalente da mão oposta. Nem trocando a fita crepe que segura uma pequena parte pendente ao resto do fone de ouvido do celular. Nem se entregando à propaganda da Avon que está passando na televisão. Nem se abandonando à tentativa de lembrar daquele poema lido na noite anterior. Nem pesquisando no google onde vai o “z” de Nietzsche porque a gente sempre esquece e vai que é preciso escrever. Nem planejando irrealidades pra viagem que ainda demora quinze dias para acontecer. Nem sentindo culpa por ignorar aquela ligação no celular. Nem roendo o cantinhos das unhas. Nem desejando todos os doces do mundo. Nem relendo mais ou menos quinze vezes o que se escreveu para ter certeza de que não é preciso mudar nada. Nem refletindo sobre si mesma elucubrando sobre si mesma sem entender quase nada de si mesma.

Tem essas pessoas, né.

Ao contrário de mim.

 

Escrevo porque preciso, me calo porque canso

Eu queria escrever até as digitais ficarem gastas e me brotarem sangue dos dedos. Escrever sempre me pareceu uma saída, um refúgio, um alento. Eu queria escrever até ver os viventes virarem pó, até sentir as décadas descerrarem, até me olhar no espelho e não me reconhecer.

Eu queria escrever livros, contos e poemas. Letras de música sem melodias. Bulas de remédio ou receitas de bolo.”Coloque duas gotas de ilusão – e não duzentas! – e mexa”. “Tome dois comprimidos por hora, até o fim da vida. Não adiantará”.

Eu queria escrever até que o coração acalmasse, a cabeça aquietasse. Até que eu estivesse finalmente…vazia. Eu queria escrever. Mas o quê? Sinto, preementemente, que não há nada. Ainda assim o peito – caetanamente – me parece farto: de ausência.

Eu queria escrever porque escrevo para sobreviver. Em muitos sentidos figurados. Porque a escrita me faz volátil, absorvível, intranhável. Não mesclo cores, ou moldo formas, só o que sei é juntar palavras. E, prosaicamente, somente ao teclado.

Eu queria…

 

Provoca maremoto

Eu queria ter sido aquela que não dançou ao seu embalo;

se dançou, somente o fez para sua própria satisfação;

quando satisfeita, foi embora sem olhar pra trás;

passada a euforia, só teria lembranças muito ocasionais e algo divertidas.

Eu queria ter sido aquela inabalável. Aquela dos filmes, de bota, sobretudo e cigarro na boca. Drink de assinatura, carreira meteórica. Humor cortante e conhecimentos triviais fascinantes. Eu queria ser aquela, que se mantém distante por inevitabilidade. Porque não é preciso esforço para se afastar do que não atrai. Porque mal se lembra.”Faz uma semana? Parecem anos!” “Ricardo ou Rodrigo? Com certeza começa com R”.

Eu queria não precisar do seu reforço. E nem do dele. E nem daquele outro. Muito menos daquele que não ficou sequer um dia. O que importa qual personagem escreveria pra mim se escritor fosse? A inesquecível ou a banal pouco lembrada? Que importa ser esquecível posto que de tanta gente se esquece? Que importa ser uma apenas entre tanta gente?

Eu queria me bastar do muito que já sei sobre o que sou. E me bastar do muito mais que faço no espaço-tempo que você não habita. Eu queria me sentir absolutamente e despropositalmente preenchida. Ao invés de buscar confirmações, como quem caça borboletas. Avança em seu habitat, como quem batalha, não como quem flana. Até que as encontra e se admira. Apenas para capturá-las e organizá-las em um quadro. Mortas. Despidas de toda e qualquer utilidade prática ou lírica.

E então para sempre polindo o vidro do quadro. Vigiando a integridade de sua madeira. Acompanhando a mudança de cor das asas das borboletas. E torcendo, de maneira inconfessa, que alguma tenha sobrevivido: à caça, ao cárcere, à vigília. E se apodere. E de uma forma estranha, improvável, certamente inexplicável, revele que sempre foi, na verdade, celacanto. Nunca borboleta.

 

 

 

 

 

 

Você precisa de nós

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Como eu sou uma pessoa que advoga pela responsabilização coletiva do cuidado de crianças, eu vou dizer isso de uma forma bem direta:

PAREM COM AS RECLAMAÇÕES IDIOTAS SOBRE OS INCÔMODOS CAUSADOS A VOCÊS POR MÃES E SUAS CRIANÇAS E COMECEM A NOS AGRADECER PORQUE VOCÊS NOS DEVEM.

Sim, nos devem. Primeiro porque sem nossos úteros, sequer existiria humanidade. Segundo porque as mães – aquelas que geraram seus filhos e as que não geraram – fazem, ainda quase que exclusivamente, um trabalho que a sociedade inteira deveria estar fazendo: ajudar um ser humano em formação a se tornar uma pessoa.

Infelizmente, poucas pessoas são tocadas pelo senso de comunidade, que faz com que nós nos consideremos responsáveis por outros seres humanos, apenas porque dividimos com eles uma cidade, um país, o planeta Terra. Mas eu confio que ainda vai chegar o dia em que a gente não precise mais falar em vantagens e obrigações para sermos convencidos a pensar uns nos outros. Enquanto este dia não chega, sigamos.

Eu gostaria de precisar dizer apenas que nossas crianças são seres humanos, cidadãos brasileiros, entes de uma série de direitos constitucionais e coligados, e que a sociedade inteira deve garantir que isso se efetive, também de acordo com uma série de deveres constitucionais e coligados.

Mas eu não acho que isso seja suficiente para sensibilizar as pessoas mais egoístas, nem para fazê-las enxergar que para se apoiar uma criança é preciso apoiar as mulheres ainda sem filhos que um dia pretendem tê-los, as gestantes, e as que já são efetivamente mães. E que é preciso conscientizar os homens sem filhos que um dia pretendem tê-los, e cobrar os companheiros de gestantes e aqueles que já são efetivamente pais. E que é preciso ainda demolir essa ideia de que quem deve balançar Mateus é quem o pariu, porque Mateus assim que vem ao mundo se torna parte de uma sociedade, e não conseguiremos alcançar um “todo” equilibrado, se não garantirmos, coletivamente, as condições para que as partes se desenvolvam igualitariamente.

Então eu vou pontuar algumas outras coisas:

Você que hoje tem 40 anos e odeia crianças, daqui a 30 anos terá 70, bem a tempo de topar com a minha criança sendo um adulto formado e produtivo em algum lugar do mundo. O meu filho, que você odeia simplesmente por ser uma criança, poderá ser o motorista do ônibus que você pega, o médico do seu posto de saúde, o músico que compôs seu álbum favorito, o gênio que idealizou a mais recente inovação tecnológica de impacto global, ou exercer qualquer outra atividade laboral que exista no futuro. Além disso, vai ser o trabalho do meu filho que vai bancar a sua previdência, para que você possa gozar a sua aposentadoria.

Você vai precisar do meu filho. E quem está garantindo que ele permaneça vivo e se esforçando para que ele seja uma boa pessoa até lá, sou eu. Assim como a minha existência foi garantida pela minha mãe. E eu posso dizer, sem grandes chances de erro, que a sua mãe também foi a protagonista do processo que te possibilitou chegar à vida adulta.

As crianças que nós criamos vão manter o mundo girando, quando estivermos cansados demais para isso.  E mais do que isso: vão definir que mundo será esse. Seremos mais igualitários ou iremos recrudescer nas questões humanitárias? Teremos mais justiça social ou caminharemos de vez para o individualismo meritocrático? Seremos mais democráticos ou ficaremos a mercê de déspotas? Populações ainda vão passar fome, ainda que se desperdice toneladas e toneladas de comida, simplesmente porque isso interessa à ganância capitalista?

E essas pessoas não brotarão do solo um belo dia, com ideais e modos de agir automáticos. Elas estão sendo formadas agora. Nas nossas casas! Você não acha que deveria ajudar?

Se você é realmente incapaz de cuidar de uma criança e dividir essa responsabilidade com uma mãe, ao menos não seja esse babaca, que se sente prejudicado pela gestante que toma “seu lugar” no ônibus; que se sente ofendido pela criança cansada chorando no supermercado; que se sente ultrajado pela mãe que ousa levar seus filhos a um museu.

Detestar crianças não é aceitável. Excluir crianças e seus cuidadores do convívio público não é aceitável. Pretender um ambiente público child free é uma manifestação de discriminação e ódio.

Desconstruam suas irritações mesquinhas e se isso não for possível, escondam-nas. Vocês não são as crianças aqui.

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Mixed feelings materno

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Na escola de Miguel tem muitos aniversários. E a gente recebe convites deles, pro caso de querer enviar um presente. Ocorre que são muitos aniversários e com isso vocês já devem saber onde eu quero chegar.

Mas desta vez o Miguel insistiu em levar alguma coisa. “Mãe, você vai comprar?” “Não, meu filho. Já é amanhã, nem dá tempo mais” “Então eu vou dar pra ele um dos meus brinquedos”.

Foi no quarto e voltou com um máscara do Homem Aranha riscada e um jacaré de madeira, faltando um dos pés. Pegou uma caixa de cápsulas de café, botou os dois brinquedos dentro e fechou com uma fita adesiva. “É que o Gabriel gosta muito dos meus brinquedos”.”Mas você tem certeza que vai dar o Jack?” “Eu não brinco mais com ele e você disse que eu tenho que dar pra outras crianças os brinquedos que eu não uso mais”.

Yeah. Eu disse. Ponto pras meninas.

“Como escreve Gabriel?” “G, igual tem no seu nome. A. B, aquele que tem duas barriguinhas. R, que tem uma barriguinha e um tracinho inclinado. I. E. L.” Colou um papel com o nome em cima da caixa. Tava pronto o presente.

Mas eu realmente achei que ele ia desistir no outro dia de manhã. Só que não. Nos arrumamos, arrumei a mochila. Sai com ele na mão e ele com a caixa.

“Miguel você sabia que a mamãe te deu o Jack quando você era bebezinho?”

“Uhum. Por isso que agora eu não brinco mais. Eu não sou mais bebê”

Damn it.

“Pois é. A gente ainda morava com a vovó. Aí a mamãe veio aqui no Rio de Janeiro pra ver se a gente podia mudar pra cá. E eu levei o Jack de presente pra você”

“Humrum. O Gabriel ainda é pequeno. Ele vai gostar”

Damn it 2.

“O Jack é tão legal. A gente fez uma festa de aniversário pra ele no ano passado. Lembra?”

“É. Foi legal. Vou falar pro Gabriel fazer uma festa pra ele”

Damn it 3. Já posso pedir música no Fantástico. Quero “Você não me ensinou a te esquecer”, do Caetano Veloso.

E assim. Como se não fosse nada. Eu vi o Jack sair da minha vida.

Fiquei tão abalada que até esqueci que o meu filho estava levando dois brinquedos velhos, dentro de uma caixa de papelão, fechada com fita crepe, pra dar de presente de aniversário prum amiguinho da escola.

Diários de uma ansiedade 3 – Noites não tão incomuns

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São quatro e quinze da manhã e eu já estou acordada. Mas não posso dizer realmente que eu dormi. Deitei às nove e meia da noite, exausta, depois de uma jornada de trabalho de nove horas, e depois de: banhar criança, dar de comer, ler historinha, cobrar a escovação dos dentes, botar pra dormir. Banhar a mim mesma, jantar uma coisinha, camisola, cremes no rosto e nos pés, checar as mensagens no celular, botar o alarme. Eu tinha uma coisa pra fazer antes de ir trabalhar, iria acordar às cinco e essa expectativa já foi o suficiente.

Eu sequer sei dizer as mil e uma coisas que passaram pela minha cabeça e que me despertavam, logo depois do cansaço me levar pela mão ao mundo do sono. Chegaram a ser sonhos ou só uma sucessão de imagens mentais simbólicas porém desprovidas de significado quando vistas de maneira isolada? Só sei que em determinado momento, muitas dessas imagens traziam a minha mãe como figura principal, e aí, nessa ânsia enlouquecida de saber, saber, saber, eu comecei a me perguntar quais as razões mentais, espirituais ou mesmo esotéricas para isso.

Nesses momentos, costuma ocorrer o pensamento mais dramático e estúpido entre todos os pensamentos dramáticos e estúpidos que podem ocorrer.

“E se… Não, não é possível, para de pensar bobeira. Mas e se?.. Peloamor de Deus, Tâmara, você precisa dormir, essa é a última coisa que você precisa pensar agora. Mas é sério, isso pode acontecer, com todo mundo, a qualquer momento. E se for comigo? E se for agora?”

E aí a minha mente veio me lembrar, lá pras três e meia de uma manhã de segunda, sem qualquer razão que justifique, apenas de palhaçadinha, se posso ainda dizer, que o meu Top 3 de medos absolutamente paralisantes é: perder Miguel, perder minha mãe, enlouquecer. E eu parto do pressuposto de que a terceira coisa é um destino certo pra mim, caso as duas primeiras aconteçam.

Eu vi tudo: o momento em que alguém me ligaria para dar a notícia, minha ida ao Espírito Santo, o velório na mesma sala em que minha avó foi velada, o enterro no mesmo cemitério. Eu conseguiria voltar ao Rio pra trabalhar? Como iria dar a notícia ao Miguel? Como ficariam meus irmãos? Pra quem eu ligaria pra pedir socorro? Eu posso ligar pra terapeuta em momentos assim, não posso? E se eu ficasse muito ruim, quem cuidaria de mim? Mas eu não posso ficar muito ruim, porque, e o Miguel? Será que eu perderia até a vontade de comer? Será que eu ficaria fisicamente doente de tanto sofrer? Eu teria que procurar uma psicóloga pro Miguel. Quem será que teria uma boa indicação?

Então eu levantei. Bebi água, fui ao banheiro. Repassei algumas coisas que, essas sim, certamente vão acontecer amanhã. Beijinhos na criança adormecida. Beijinhos demais, ele está se mexendo e reclamando. Liguei o computador, fiz o que eu tinha que fazer e agora estou aqui.

Desculpa atrapalhar o sono de vocês.

 

 

Diários de uma ansiedade 2 -As pedras do caminho

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Eu já tentei algumas vezes organizar os acontecimentos cronologicamente, mas foram tantos, tão impactantes e surreais, durante tantos anos, que a esse ponto se tornou impossível. Quando é preciso, eu vou contando conforme me lembro, mas sempre tem alguma coisa que eu não sei onde situar.

Por exemplo: eu costumava pensar que a primeira crise do meu pai tinha sido aquela, em que ele largou seu emprego no banco, montou uma oficina mecânica, e comprou uma kombi pra levar a gente pra praia todo fim de semana, ainda que a gente não quisesse ir. Eu estava na sexta série, portanto, tinha 11 anos.

Mas aí tem a minha festa de 9 anos, a única festa de aniversário que eu tive na infância. Minha mãe e uma das minhas tias me fizeram um bolo de morango. Minha madrinha me deu dois soutiens de presente, e eu abri escondido porque estava com vergonha de ganhar soutiens. Pra bancar uma festa de aniversário, ainda que a mais simples do mundo, é claro que ele já estava em crise. Juntando as duas coisas, eu já não sei mais em quais das duas crises essa história da kombi aconteceu. Foi na primeira, quando eu tinha nove anos, ou foi mesmo quando eu tinha 11, portanto, na segunda?

Quando eu e meus quatro irmãos estamos juntos, e o assunto aparece (meio que sempre), um ajuda a colar as lembranças do outro. “Quando foi mesmo que ele foi preso?”, “e aquela vez que ele fugiu da clínica fazendo uma tereza?”, “e que mania de fazer racha na rua!” “meu deus do céu, não sei como ele não morreu”.

Meu pai tem distúrbio bipolar. Em um nível tão crítico, que foram necessárias internações anuais, durante um tempo considerável. Via de regra, ele ganhava algum dinheiro, começava a beber, se animava com algum projeto e cabum: algumas semanas depois, tinha feito mil empréstimos, comprado carros, tentado vender a casa, montado negócios malucos, sumido no mundo, se envolvido em algumas brigas, e eventualmente, comprado uma arma, sido preso, nos ameaçado de morte, até que a gente conseguia arranjar uma vaga na clínica pública, convencer a polícia a nos ajudar, encontrá-lo em alguma cidade do Espírito Santo, imobilizá-lo e enfim, interná-lo. Um a dois meses depois, ele voltava pra casa. Dopado, quando não deprimido. E a gente vivia o segundo lado da bipolaridade.

Era sempre uma grande aventura. Mas sendo honesta, eu participei da maioria delas como espectadora, ou como vítima das suas ameaças, gritarias, xingamentos, e tentativas de violência física e “sequestro”. (Aqui, cabe um esclarecimento: meu pai sempre foi um disciplinador clássico. Nós apanhávamos de maneira “normal” na infância, mas eu não me enxergo como vítima de violência. Essa agressividade exacerbada se manifestava mesmo durante as crises).  Como eu era criança ou adolescente, não tinha sequer permissão para entrar nas clínicas, ou resolver qualquer questão. Na idade adulta, até cheguei a liderar uma dessas missões de captura, mas não obtivemos sucesso, e felizmente, há uns 5 anos, ele está estabilizado e não temos mais problemas.

Eu sempre achei injusto com o meu pai e com o restante da minha vida achar que essa experiência me definiu mais do que qualquer outra que eu vivi. Mas é inegável que eu passei  metade da minha existência às voltas com eventos dramáticos, sobre os quais ou não tinha o menor controle, bem como é irresistível relacionar essa sensação, com a necessidade urgente que eu tenho tido, na qual se baseia a minha ansiedade, de controlar. Quando isso não é possível, ao menos, antecipar.

Perdoem o pessimismo, mas telefonemas na madrugada sempre anunciam mortes. Pessoas gritando no nosso portão nunca trazem declarações de amor. Uma conversa importante sempre será a chance de alguém te dizer o que você não quer ouvir. Acontecimentos improváveis não são impossíveis e o que é inesperado sempre aparece pra me sacudir.

Pelo menos uma pessoa, pelo menos uma vez por semana, tem tentando me convencer de que o véu que cobre o futuro é feito de mágica e não de agonia. Até o momento, eu tenho respondido, com as duas mãos sobre o rosto: “eu só queria saber”.