Gentes estranhas

Tem essas pessoas.

Que. Ao contrário de mim.

Não se distraem durante nenhuma atividade importante. Nem indo à cozinha para buscar a décima xícara de café no dia. Nem pensando na catástrofe no Oriente Médio. Nem encarando as pontas duplas no cabelo e calculando quando poderá ser feito um novo corte. Nem planejando a janta de mais tarde. Nem abrindo uma nova aba do navegador sabe-se Deus para quê. Nem digitando inevitavelmente o endereço http://www.facebook.com para ver as últimas notificações. Nem conferindo se aquele telefone que nem é necessário foi mesmo anotado naquela folha minutos antes só porque sim. Nem ouvindo aquela música que o cérebro cantarola de vinte em vinte minutos desde às sete da manhã. Nem comentando a última fofoca da firma com a amiga. Nem apoiando a cabeça sobre as mãos para encarar profundas questões existenciais. Nem verificando se cada unha está com o mesmo tamanho da sua equivalente da mão oposta. Nem trocando a fita crepe que segura uma pequena parte pendente ao resto do fone de ouvido do celular. Nem se entregando à propaganda da Avon que está passando na televisão. Nem se abandonando à tentativa de lembrar daquele poema lido na noite anterior. Nem pesquisando no google onde vai o “z” de Nietzsche porque a gente sempre esquece e vai que é preciso escrever. Nem planejando irrealidades pra viagem que ainda demora quinze dias para acontecer. Nem sentindo culpa por ignorar aquela ligação no celular. Nem roendo o cantinhos das unhas. Nem desejando todos os doces do mundo. Nem relendo mais ou menos quinze vezes o que se escreveu para ter certeza de que não é preciso mudar nada. Nem refletindo sobre si mesma elucubrando sobre si mesma sem entender quase nada de si mesma.

Tem essas pessoas, né.

Ao contrário de mim.

 

Escrevo porque preciso, me calo porque canso

Eu queria escrever até as digitais ficarem gastas e me brotarem sangue dos dedos. Escrever sempre me pareceu uma saída, um refúgio, um alento. Eu queria escrever até ver os viventes virarem pó, até sentir as décadas descerrarem, até me olhar no espelho e não me reconhecer.

Eu queria escrever livros, contos e poemas. Letras de música sem melodias. Bulas de remédio ou receitas de bolo.”Coloque duas gotas de ilusão – e não duzentas! – e mexa”. “Tome dois comprimidos por hora, até o fim da vida. Não adiantará”.

Eu queria escrever até que o coração acalmasse, a cabeça aquietasse. Até que eu estivesse finalmente…vazia. Eu queria escrever. Mas o quê? Sinto, preementemente, que não há nada. Ainda assim o peito – caetanamente – me parece farto: de ausência.

Eu queria escrever porque escrevo para sobreviver. Em muitos sentidos figurados. Porque a escrita me faz volátil, absorvível, intranhável. Não mesclo cores, ou moldo formas, só o que sei é juntar palavras. E, prosaicamente, somente ao teclado.

Eu queria…

 

Provoca maremoto

Eu queria ter sido aquela que não dançou ao seu embalo;

se dançou, somente o fez para sua própria satisfação;

quando satisfeita, foi embora sem olhar pra trás;

passada a euforia, só teria lembranças muito ocasionais e algo divertidas.

Eu queria ter sido aquela inabalável. Aquela dos filmes, de bota, sobretudo e cigarro na boca. Drink de assinatura, carreira meteórica. Humor cortante e conhecimentos triviais fascinantes. Eu queria ser aquela, que se mantém distante por inevitabilidade. Porque não é preciso esforço para se afastar do que não atrai. Porque mal se lembra.”Faz uma semana? Parecem anos!” “Ricardo ou Rodrigo? Com certeza começa com R”.

Eu queria não precisar do seu reforço. E nem do dele. E nem daquele outro. Muito menos daquele que não ficou sequer um dia. O que importa qual personagem escreveria pra mim se escritor fosse? A inesquecível ou a banal pouco lembrada? Que importa ser esquecível posto que de tanta gente se esquece? Que importa ser uma apenas entre tanta gente?

Eu queria me bastar do muito que já sei sobre o que sou. E me bastar do muito mais que faço no espaço-tempo que você não habita. Eu queria me sentir absolutamente e despropositalmente preenchida. Ao invés de buscar confirmações, como quem caça borboletas. Avança em seu habitat, como quem batalha, não como quem flana. Até que as encontra e se admira. Apenas para capturá-las e organizá-las em um quadro. Mortas. Despidas de toda e qualquer utilidade prática ou lírica.

E então para sempre polindo o vidro do quadro. Vigiando a integridade de sua madeira. Acompanhando a mudança de cor das asas das borboletas. E torcendo, de maneira inconfessa, que alguma tenha sobrevivido: à caça, ao cárcere, à vigília. E se apodere. E de uma forma estranha, improvável, certamente inexplicável, revele que sempre foi, na verdade, celacanto. Nunca borboleta.

 

 

 

 

 

 

Você precisa de nós

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Como eu sou uma pessoa que advoga pela responsabilização coletiva do cuidado de crianças, eu vou dizer isso de uma forma bem direta:

PAREM COM AS RECLAMAÇÕES IDIOTAS SOBRE OS INCÔMODOS CAUSADOS A VOCÊS POR MÃES E SUAS CRIANÇAS E COMECEM A NOS AGRADECER PORQUE VOCÊS NOS DEVEM.

Sim, nos devem. Primeiro porque sem nossos úteros, sequer existiria humanidade. Segundo porque as mães – aquelas que geraram seus filhos e as que não geraram – fazem, ainda quase que exclusivamente, um trabalho que a sociedade inteira deveria estar fazendo: ajudar um ser humano em formação a se tornar uma pessoa.

Infelizmente, poucas pessoas são tocadas pelo senso de comunidade, que faz com que nós nos consideremos responsáveis por outros seres humanos, apenas porque dividimos com eles uma cidade, um país, o planeta Terra. Mas eu confio que ainda vai chegar o dia em que a gente não precise mais falar em vantagens e obrigações para sermos convencidos a pensar uns nos outros. Enquanto este dia não chega, sigamos.

Eu gostaria de precisar dizer apenas que nossas crianças são seres humanos, cidadãos brasileiros, entes de uma série de direitos constitucionais e coligados, e que a sociedade inteira deve garantir que isso se efetive, também de acordo com uma série de deveres constitucionais e coligados.

Mas eu não acho que isso seja suficiente para sensibilizar as pessoas mais egoístas, nem para fazê-las enxergar que para se apoiar uma criança é preciso apoiar as mulheres ainda sem filhos que um dia pretendem tê-los, as gestantes, e as que já são efetivamente mães. E que é preciso conscientizar os homens sem filhos que um dia pretendem tê-los, e cobrar os companheiros de gestantes e aqueles que já são efetivamente pais. E que é preciso ainda demolir essa ideia de que quem deve balançar Mateus é quem o pariu, porque Mateus assim que vem ao mundo se torna parte de uma sociedade, e não conseguiremos alcançar um “todo” equilibrado, se não garantirmos, coletivamente, as condições para que as partes se desenvolvam igualitariamente.

Então eu vou pontuar algumas outras coisas:

Você que hoje tem 40 anos e odeia crianças, daqui a 30 anos terá 70, bem a tempo de topar com a minha criança sendo um adulto formado e produtivo em algum lugar do mundo. O meu filho, que você odeia simplesmente por ser uma criança, poderá ser o motorista do ônibus que você pega, o médico do seu posto de saúde, o músico que compôs seu álbum favorito, o gênio que idealizou a mais recente inovação tecnológica de impacto global, ou exercer qualquer outra atividade laboral que exista no futuro. Além disso, vai ser o trabalho do meu filho que vai bancar a sua previdência, para que você possa gozar a sua aposentadoria.

Você vai precisar do meu filho. E quem está garantindo que ele permaneça vivo e se esforçando para que ele seja uma boa pessoa até lá, sou eu. Assim como a minha existência foi garantida pela minha mãe. E eu posso dizer, sem grandes chances de erro, que a sua mãe também foi a protagonista do processo que te possibilitou chegar à vida adulta.

As crianças que nós criamos vão manter o mundo girando, quando estivermos cansados demais para isso.  E mais do que isso: vão definir que mundo será esse. Seremos mais igualitários ou iremos recrudescer nas questões humanitárias? Teremos mais justiça social ou caminharemos de vez para o individualismo meritocrático? Seremos mais democráticos ou ficaremos a mercê de déspotas? Populações ainda vão passar fome, ainda que se desperdice toneladas e toneladas de comida, simplesmente porque isso interessa à ganância capitalista?

E essas pessoas não brotarão do solo um belo dia, com ideais e modos de agir automáticos. Elas estão sendo formadas agora. Nas nossas casas! Você não acha que deveria ajudar?

Se você é realmente incapaz de cuidar de uma criança e dividir essa responsabilidade com uma mãe, ao menos não seja esse babaca, que se sente prejudicado pela gestante que toma “seu lugar” no ônibus; que se sente ofendido pela criança cansada chorando no supermercado; que se sente ultrajado pela mãe que ousa levar seus filhos a um museu.

Detestar crianças não é aceitável. Excluir crianças e seus cuidadores do convívio público não é aceitável. Pretender um ambiente público child free é uma manifestação de discriminação e ódio.

Desconstruam suas irritações mesquinhas e se isso não for possível, escondam-nas. Vocês não são as crianças aqui.

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Mixed feelings materno

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Na escola de Miguel tem muitos aniversários. E a gente recebe convites deles, pro caso de querer enviar um presente. Ocorre que são muitos aniversários e com isso vocês já devem saber onde eu quero chegar.

Mas desta vez o Miguel insistiu em levar alguma coisa. “Mãe, você vai comprar?” “Não, meu filho. Já é amanhã, nem dá tempo mais” “Então eu vou dar pra ele um dos meus brinquedos”.

Foi no quarto e voltou com um máscara do Homem Aranha riscada e um jacaré de madeira, faltando um dos pés. Pegou uma caixa de cápsulas de café, botou os dois brinquedos dentro e fechou com uma fita adesiva. “É que o Gabriel gosta muito dos meus brinquedos”.”Mas você tem certeza que vai dar o Jack?” “Eu não brinco mais com ele e você disse que eu tenho que dar pra outras crianças os brinquedos que eu não uso mais”.

Yeah. Eu disse. Ponto pras meninas.

“Como escreve Gabriel?” “G, igual tem no seu nome. A. B, aquele que tem duas barriguinhas. R, que tem uma barriguinha e um tracinho inclinado. I. E. L.” Colou um papel com o nome em cima da caixa. Tava pronto o presente.

Mas eu realmente achei que ele ia desistir no outro dia de manhã. Só que não. Nos arrumamos, arrumei a mochila. Sai com ele na mão e ele com a caixa.

“Miguel você sabia que a mamãe te deu o Jack quando você era bebezinho?”

“Uhum. Por isso que agora eu não brinco mais. Eu não sou mais bebê”

Damn it.

“Pois é. A gente ainda morava com a vovó. Aí a mamãe veio aqui no Rio de Janeiro pra ver se a gente podia mudar pra cá. E eu levei o Jack de presente pra você”

“Humrum. O Gabriel ainda é pequeno. Ele vai gostar”

Damn it 2.

“O Jack é tão legal. A gente fez uma festa de aniversário pra ele no ano passado. Lembra?”

“É. Foi legal. Vou falar pro Gabriel fazer uma festa pra ele”

Damn it 3. Já posso pedir música no Fantástico. Quero “Você não me ensinou a te esquecer”, do Caetano Veloso.

E assim. Como se não fosse nada. Eu vi o Jack sair da minha vida.

Fiquei tão abalada que até esqueci que o meu filho estava levando dois brinquedos velhos, dentro de uma caixa de papelão, fechada com fita crepe, pra dar de presente de aniversário prum amiguinho da escola.

Diários de uma ansiedade 3 – Noites não tão incomuns

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São quatro e quinze da manhã e eu já estou acordada. Mas não posso dizer realmente que eu dormi. Deitei às nove e meia da noite, exausta, depois de uma jornada de trabalho de nove horas, e depois de: banhar criança, dar de comer, ler historinha, cobrar a escovação dos dentes, botar pra dormir. Banhar a mim mesma, jantar uma coisinha, camisola, cremes no rosto e nos pés, checar as mensagens no celular, botar o alarme. Eu tinha uma coisa pra fazer antes de ir trabalhar, iria acordar às cinco e essa expectativa já foi o suficiente.

Eu sequer sei dizer as mil e uma coisas que passaram pela minha cabeça e que me despertavam, logo depois do cansaço me levar pela mão ao mundo do sono. Chegaram a ser sonhos ou só uma sucessão de imagens mentais simbólicas porém desprovidas de significado quando vistas de maneira isolada? Só sei que em determinado momento, muitas dessas imagens traziam a minha mãe como figura principal, e aí, nessa ânsia enlouquecida de saber, saber, saber, eu comecei a me perguntar quais as razões mentais, espirituais ou mesmo esotéricas para isso.

Nesses momentos, costuma ocorrer o pensamento mais dramático e estúpido entre todos os pensamentos dramáticos e estúpidos que podem ocorrer.

“E se… Não, não é possível, para de pensar bobeira. Mas e se?.. Peloamor de Deus, Tâmara, você precisa dormir, essa é a última coisa que você precisa pensar agora. Mas é sério, isso pode acontecer, com todo mundo, a qualquer momento. E se for comigo? E se for agora?”

E aí a minha mente veio me lembrar, lá pras três e meia de uma manhã de segunda, sem qualquer razão que justifique, apenas de palhaçadinha, se posso ainda dizer, que o meu Top 3 de medos absolutamente paralisantes é: perder Miguel, perder minha mãe, enlouquecer. E eu parto do pressuposto de que a terceira coisa é um destino certo pra mim, caso as duas primeiras aconteçam.

Eu vi tudo: o momento em que alguém me ligaria para dar a notícia, minha ida ao Espírito Santo, o velório na mesma sala em que minha avó foi velada, o enterro no mesmo cemitério. Eu conseguiria voltar ao Rio pra trabalhar? Como iria dar a notícia ao Miguel? Como ficariam meus irmãos? Pra quem eu ligaria pra pedir socorro? Eu posso ligar pra terapeuta em momentos assim, não posso? E se eu ficasse muito ruim, quem cuidaria de mim? Mas eu não posso ficar muito ruim, porque, e o Miguel? Será que eu perderia até a vontade de comer? Será que eu ficaria fisicamente doente de tanto sofrer? Eu teria que procurar uma psicóloga pro Miguel. Quem será que teria uma boa indicação?

Então eu levantei. Bebi água, fui ao banheiro. Repassei algumas coisas que, essas sim, certamente vão acontecer amanhã. Beijinhos na criança adormecida. Beijinhos demais, ele está se mexendo e reclamando. Liguei o computador, fiz o que eu tinha que fazer e agora estou aqui.

Desculpa atrapalhar o sono de vocês.

 

 

Diários de uma ansiedade 2 -As pedras do caminho

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Eu já tentei algumas vezes organizar os acontecimentos cronologicamente, mas foram tantos, tão impactantes e surreais, durante tantos anos, que a esse ponto se tornou impossível. Quando é preciso, eu vou contando conforme me lembro, mas sempre tem alguma coisa que eu não sei onde situar.

Por exemplo: eu costumava pensar que a primeira crise do meu pai tinha sido aquela, em que ele largou seu emprego no banco, montou uma oficina mecânica, e comprou uma kombi pra levar a gente pra praia todo fim de semana, ainda que a gente não quisesse ir. Eu estava na sexta série, portanto, tinha 11 anos.

Mas aí tem a minha festa de 9 anos, a única festa de aniversário que eu tive na infância. Minha mãe e uma das minhas tias me fizeram um bolo de morango. Minha madrinha me deu dois soutiens de presente, e eu abri escondido porque estava com vergonha de ganhar soutiens. Pra bancar uma festa de aniversário, ainda que a mais simples do mundo, é claro que ele já estava em crise. Juntando as duas coisas, eu já não sei mais em quais das duas crises essa história da kombi aconteceu. Foi na primeira, quando eu tinha nove anos, ou foi mesmo quando eu tinha 11, portanto, na segunda?

Quando eu e meus quatro irmãos estamos juntos, e o assunto aparece (meio que sempre), um ajuda a colar as lembranças do outro. “Quando foi mesmo que ele foi preso?”, “e aquela vez que ele fugiu da clínica fazendo uma tereza?”, “e que mania de fazer racha na rua!” “meu deus do céu, não sei como ele não morreu”.

Meu pai tem distúrbio bipolar. Em um nível tão crítico, que foram necessárias internações anuais, durante um tempo considerável. Via de regra, ele ganhava algum dinheiro, começava a beber, se animava com algum projeto e cabum: algumas semanas depois, tinha feito mil empréstimos, comprado carros, tentado vender a casa, montado negócios malucos, sumido no mundo, se envolvido em algumas brigas, e eventualmente, comprado uma arma, sido preso, nos ameaçado de morte, até que a gente conseguia arranjar uma vaga na clínica pública, convencer a polícia a nos ajudar, encontrá-lo em alguma cidade do Espírito Santo, imobilizá-lo e enfim, interná-lo. Um a dois meses depois, ele voltava pra casa. Dopado, quando não deprimido. E a gente vivia o segundo lado da bipolaridade.

Era sempre uma grande aventura. Mas sendo honesta, eu participei da maioria delas como espectadora, ou como vítima das suas ameaças, gritarias, xingamentos, e tentativas de violência física e “sequestro”. (Aqui, cabe um esclarecimento: meu pai sempre foi um disciplinador clássico. Nós apanhávamos de maneira “normal” na infância, mas eu não me enxergo como vítima de violência. Essa agressividade exacerbada se manifestava mesmo durante as crises).  Como eu era criança ou adolescente, não tinha sequer permissão para entrar nas clínicas, ou resolver qualquer questão. Na idade adulta, até cheguei a liderar uma dessas missões de captura, mas não obtivemos sucesso, e felizmente, há uns 5 anos, ele está estabilizado e não temos mais problemas.

Eu sempre achei injusto com o meu pai e com o restante da minha vida achar que essa experiência me definiu mais do que qualquer outra que eu vivi. Mas é inegável que eu passei  metade da minha existência às voltas com eventos dramáticos, sobre os quais ou não tinha o menor controle, bem como é irresistível relacionar essa sensação, com a necessidade urgente que eu tenho tido, na qual se baseia a minha ansiedade, de controlar. Quando isso não é possível, ao menos, antecipar.

Perdoem o pessimismo, mas telefonemas na madrugada sempre anunciam mortes. Pessoas gritando no nosso portão nunca trazem declarações de amor. Uma conversa importante sempre será a chance de alguém te dizer o que você não quer ouvir. Acontecimentos improváveis não são impossíveis e o que é inesperado sempre aparece pra me sacudir.

Pelo menos uma pessoa, pelo menos uma vez por semana, tem tentando me convencer de que o véu que cobre o futuro é feito de mágica e não de agonia. Até o momento, eu tenho respondido, com as duas mãos sobre o rosto: “eu só queria saber”.

 

 

 

 

 

Diários de uma ansiedade 1

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Então, o médico. Ele fez uma piada com Ruy Barbosa na hora de me cobrar a consulta. Eu teria achado mais divertido se não fosse 400 reais. Ele me passou lenços de papel no instante em que os meus olhos começaram a marejar. Achei tão automático que não me senti consolada de nenhuma maneira. Ele me perguntou coisas e 45 minutos depois, eu saí de lá com três receitas do tipo que precisam ficar retidas, remédio pra um mês. “Daí, em quatro semanas você volta” e eu já sabia que não.

E nem é por ele. Não quero voltar em médico nenhum.

“Semana passada, doutor, eu já tinha passado do meu horário no trabalho, e já tinha feito o que eu podia fazer. Mas logo depois, apareceu uma novidade. Na hora eu pensei: ‘vou comunicar a minha chefe né, que aí se for preciso ela pede pra alguém que ainda está trabalhando fazer’. E aí eu não consegui parar de pensar nisso. Véspera de feriado, mil outras coisas pra fazer e eu acordei umas cinco vezes durante a noite me perguntando: “será que eu devia ter feito?”

Foi isso e mais algumas histórias. Ganhei um CID pra chamar de meu: transtorno de ansiedade generalizada. A minha sorte é que eu tenho amigos muito inteligentes: “não deixa essa definição te sequestrar”.

Não deixo. Eu digo que tenho essa “cabeça louca”. Não tem CID pra isso. Desde que eu contei pra algumas pessoas que estava a ponto de surtar de ansiedade, elas têm me dito muitas coisas, me recomendado muitas leituras, que parecem definir o que eu sinto muito melhor do que eu sou capaz de concatenar. O que eu sei é que a minha cabeça não para. Que cada pequena coisa a ser resolvida inicia uma construção ininterrupta de cenários possíveis ou pouquíssimos prováveis. Às vezes tantos que eu não consigo sair do lugar.  Sei que eu repasso mentalmente cada coisa que eu disse, releio mais de uma vez cada conversa, penso em quais palavras eu deveria ter suprimido ou substituído, tento calcular quais efeitos elas tiveram. Sei que o meu pescoço vive constantemente tenso, minha cabeça constantemente dolorida, meu apetite constantemente alto, uma vontade de sumir constantemente constantemente.

Se eu fechar os olhos e tentar imaginar a minha mais doce fantasia, eu me verei parada, em algum lugar que é uma não-existência. E nada acontece. A terapeuta nem precisava me dizer que é uma fantasia impossível, porque eu sei muito bem que a vida acontece. E a gente anda pra frente porque não há muito o que se fazer.

De todo modo, o médico. Eu não queria tomar nenhuma pílula. Nem a que não vicia, nem a que não resolve. Muito menos a que resolve e vicia. E ele não conseguiu me convencer. Continuo não tomando e a receita no meu armário ao invés de me tranquilizar, me oprime. Era só o que faltava acontecer na minha vida: perder o controle até mesmo da minha própria cabeça e precisar que uma pílula diga a ela o que ela tem que fazer. Me recuso, simplesmente. Mas não é uma birra infantil.

Eu resolvi ouvir uma homeopata. E também uma amiga que trabalha com ayurveda. E tentar racionalizar como a minha terapeuta me im-plo-ra pra fazer. Dias desses, pensamentos a mil, liguei prum amigo que me disse: “você percebe que quando você me fala, você vê como os seus receios não fazem sentido?” Eu percebo.

Então, aí está esse diário. Porque eu percebo. Mas não custa lembrar.

O amor que um dia eu guardei pra você

Eu queria poder simplesmente dormir. Até o fim dos tempos. Até o fim dessa chuva. Até que eu não me lembre mais quem eu sou ou quem eu era quando estávamos juntos. Até os escafandristas me descobrirem submersa debaixo da água derretida das calotas polares por causa do aquecimento global. Como em uma das nossas músicas. Você se lembra? Mas eu não posso dormir. Então eu escrevo meio textos, tomada de meia vontade, chego atrasada para tudo, fico constantemente meio perdida, esperando dar nove e meia, para que eu possa deitar e dormir o tanto que me é permitido. Acordo com muito menos do que meia disposição já que o dia não traz mais você de volta pra mim. Você se lembra? Quando cada dia era um nova esperança? De conversas escandalosas e toques furtivos. De beijos escondidos e declarações absolutas. Da presença que colocaria a Terra de volta em seus eixos. Da simples existência que dava a tudo um sentido. Você se lembra? Você se lembra de mim? Porque eu me transformei numa foto antiga e meio apagada. De alguém que foi muito mas não existe mais. E tudo o que você pode fazer agora é lembrar. Enquanto eu me parto em pedaços tentando esquecer… E dormir.

Desilusão, desilusão…

Depois daquele episódio lamentável, eu disse a ele: “É que eu estou me sentindo absolutamente sozinha hoje”.

Ele não me disse que eu não estava sozinha. “Eu estou do seu lado” e essas coisas que amigos/amantes dizem quando a gente se sente jogada no vento. Talvez por saber que realmente não estava.

Semanas depois ocorreu aquele terrível único episódio em que eu me permiti ligar para quem estivesse ao meu alcance e pedir socorro. Liguei para ele antes. Não atendeu. Estava ocupado, não viu o telefone tocar a tempo.

Estar ocupado era mesmo uma constante.

Se eu fosse a minha psicóloga, talvez eu me perguntaria: “E porque você tem tanto medo de perder de vez uma coisa que nunca esteve mesmo ali?”

“Porque o que resta para se perder é a esperança, a fantasia, os sonhos…” eu responderia. “Se eu perco o impalpável, visto que o concreto nunca houve, o que me resta? Meses num caminho que não levou a lugar nenhum?”

Lembro-me dessas porque faz alguns dias que eu venho me sentindo novamente absolutamente sozinha. Dessa vez não disse a ele, ou mesmo a outro alguém.

Amigos – distantes e próximos – há muitos, apenas não me ocorre incomodá-los com amarguras da minha metafísica.  No caminho para casa, imagino os mais catastróficos cenários: Tiros, doenças, atropelamentos, só para chegar na derradeira pergunta: “e se algo dessa magnitude realmente acontecesse hoje, pra quem eu pediria socorro?”

A resposta é sempre a mesma: Não há ninguém.

Há pessoas e há bom grado nelas, eu sei. O que me falta é apenas sentir-me adequada para pedir.

E, claro, falta-me coragem.

Que os muitos amigos não se sintam ofendidos: Não são vocês que faltam, sou eu.

Talvez tudo se explique por estes dias de expectativa antes que eu volte a frequentar uma sala de aula.

Foram tantos os dias em que havia uma certeza tão fúnebre de que isso nunca mais iria se realizar. E agora tão perto há um medo ainda maior de que não se conclua. Que as coisas se assoberbem. Ou que eu me apequene.

Há mesmo muito medo, eu acho. Ponto final.

P.S.: Noite sim, outra não, o menino pede companhia por não querer dormir sozinho no seu quarto medianamente escuro. Quando a gente passa para essa condição – de acudir meninos e afastar seus medos – a gente ainda pode pedir companhia e colo pra enfrentar a mediana escuridão aqui dentro?

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