Passageiros

Você foi atropelado por um trem chamado Verdade e ainda assim eu estou de pé ao lado dos trilhos olhando para os pedaços ensanguentados que sobraram e tentando te recompor. Mesmo sabendo que este atropelamento aconteceu em tempos imemoráveis e seus restos mortais são apenas uma lembrança embaçada, porque o que era realidade já se tornou poeira que o vento úmido do litoral carregou.

Você foi atropelado por um trem: não foi morte natural. E eu sei que este trem se chamava Verdade, porque eu estava lá, quando ele deixou a estação. Eu vi seu nome e sabia seu destino e ainda assim eu embarquei neste trem, escolhi minha poltrona e esvaziei todos os meus bolsos em troca desta viagem.

Você foi atropelado por um trem. E para esquecer que eu sabia o que me esperava, eu passei todo o percurso me distraindo com um livro que eu mesma escrevi. No entanto, não foram poucos os solavancos, arremessando o livro das minhas mãos para o chão, me forçando a olhar para fora e ver a paisagem ora lírica, ora nefasta que se sucedia.

Você foi atropelado por um trem e eu sempre soube que você estava nos trilhos porque eu fui avisada por todos os apitos, sinais gráficos e trabalhadores ferroviários. Mas eu ignorava… ah, eu ignorava. Eu baixava os meus olhos e esperava em prece que o trem pararia para que você embarcasse, sentasse na poltrona ao meu lado, lesse meu livro e escrevesse as últimas páginas.

Você foi atropelado por um trem. E não é que eu não tenha tentado sair desse trem. Eu me joguei incontáveis vezes pra fora da janela, aproveitando alguns desses solavancos. Mas eu sempre era colocada de volta, sobre a maca, ferida, porque o trem era meu, e não me era permitido abandonar.

Você foi atropelado por um trem e eu fui forçada por mim mesma a estar neste trem e assistir.

Você foi atropelado por um trem e ele se chamava Verdade. E agora que o trem passou e você foi atropelado, destruído, devassado, eu olho para os restos mortais sobre trilhos – ou para a minha memória fabricada deles – e me pergunto se este trem e esta morte e você realmente existiram.

Você foi. Já foi. Atropelado por um trem.

Mas eu ainda ouço o barulho, ainda sinto o vapor. E o trem ainda corre e ainda atropela o que estiver pela frente nos trilhos dentro de mim.

Casa

A Rosie que me olha da parede oposta, presente de um ex-amor, me lembra que eu já me permiti.

A Frida em relógio, ainda que parado, me lembra que eu não deixei de tentar.

O Almodóvar em trio me lembra que eu nunca me esqueci.

A estante muito boa de longe, nem tão boa de perto, me lembra que eu arrisquei e não me importei de falhar.

O porta retrato com quatro fotos da criança ainda em bebê me lembra que tudo passa. Seja bom ou ruim.

A planta já morta me lembra que muita coisa, ainda que muito importe, um dia acaba.

E aquela que ainda vive me lembra que muito do que importa, ainda que em condições adversas, resiste.

O cigarro me lembra que certos crimes compensam.

O rosé me lembra que a gente precisa, às vezes, que ao menos uma coisa seja doce.

O vizinho pendurando roupas me lembra que o mundo existe a despeito de mim.

A almofada bordada me lembra que as pessoas também existem a despeito de mim, mas algumas delas existem também para mim. Voluntariamente.

O sofá outrora muito bege me lembra que há desejo; a vitrola, que há ousadia; o disco dos Doces Bárbaros, inconsequência. E tudo se paga.

Caetano me lembra de tudo. Sempre. Neste momento: que é doce também morrer… nesse mar de lembrar.

A Casa me lembra que é minha. Assim como eu também sou.

 

Imã

Essa fresta na parede. Vê? Eu fui fazendo para o sol poder entrar. Primeiro eu fiz um furo, tão pequeno que ninguém além de mim podia ver. Mas cada dia eu me levanto, passo um café, ando até a parede e cutuco pra arrancar mais um pedacinho. Agora olha só: já passa um dedo inteiro e nem precisa ser um dos mindinhos.

Hoje, eu futuquei um pouco mais do que nos outros dias, confesso. Eu tentava trocar olhares com o sol e consegui. Nossas íris se eriçaram diante de telas. Cada par de um lado. E ele, claro, nem sabia que era visto por mim, porque mentir?

Mas que importa? Foram dois segundos – se tanto! – e três movimentos de suas chamas – belíssimos – e meu coração se aqueceu. Agora ele repousa morno – suponho -, ali, do outro lado da fresta – é o lógico -, e eu aumento, cada dia um pouquinho – religiosamente! – essa fresta, porque a vontade é de andar pra fora da casa, comprar um balão, e voar até ele.

Pra não me consumir em fogo, eu olho. Eu o sei. E me basto.

 

 

 

 

 

 

Diários de uma ansiedade 6 – A megalomania

“But maybe it’s a false alarme. And every answers sounds the same. Just colours bleeding into one. It hasn´t got a name. Maybe I can’t see. Maybe it’s just me.”

Tudo o que a gente quer é que seja um alarme falso. Que seja só um dia ruim. Só uma indisposição. Só o estresse do trabalho, só os rumos da política nacional, só a falta de uma boa noite de sono, uma boa garrafa de vinho, uma boa trepada.

E pode ser. Mas pode não ser. E se você for de alguma forma uma pessoa neuroatípica você jamais poderá se dar ao luxo de sentar e esperar pelo melhor.

Eu queria ter essa boa notícia para te dar, mas eu já internei dois pacientes com transtorno bipolar severo, tenho um sem números de amigos com depressão e convivo com a ansiedade desde que eu me entendo por gente (apesar de só ter compreendido isso há um ano) e nenhuma dessas coisas vai embora pra sempre quando você se estabiliza de uma crise. Abrace a sua condição, tome quantos cafés seja preciso na companhia dela, até que você a conheça de cima a baixo. Procure saber suas motivações, seus gatilhos, seus limites, de quem ela gosta e de quem ela não gosta, porque assim talvez você consiga evitar que ela faça entradas triunfais e constrangedoras naquele momento em que você menos precisa.

E não ignore sinais.

Há algumas semanas, eu comecei a experimentar uma estranha sensação de vazio que não era a exaustão característica do esgotamento que a ansiedade provoca em mim de tempos em tempos. Era outra coisa. Coincidentemente, os sintomas começaram a aparecer justamente na semana em que eu comecei a tomar um composto fitoterápico receitado por uma nutricionista. Como eu estava atenta, da suspeita à ação, não se passou uma semana e com o remédio suspenso, o vazio desapareceu. O que teria acontecido se eu tivesse ignorado a minha intuição?

Eu bebo, fumo um cigarro ocasionalmente, adoro uma festa e não pretendo abandonar nenhuma dessas coisas, já que até o momento, eu não pareço precisar de uma mudança radical. Mas eu sei que dias seguidos de alcool e noites mal dormida desregulam completamente o meu controle da impulsividade e nos dias seguintes à farra eu estarei comendo mais, gastando mais dinheiro, tomando atitudes impensadas, procrastinando obrigações, roendo as unhas…

Saber não necessariamente vai te ajudar a evitar. Nossas mentes são danadinhas nessa brincadeira de arrumar subterfúgios. Mas é essencial para que a gente consiga controlar danos, evitar problemas maiores, e o mais importante: não se desesperar.

Condições mentais têm uma fome voraz por desespero. E culpa. E taí um combustível que a gente costuma ter de sobra pra queimar. De repente você está bem, e no dia seguinte não está mais. E você deseja tanto tanto tanto nunca mais passar pelos piores momentos da sua condição que você se desespera, apenas por contemplar a possibilidade de se afogar naquela lama de novo. Mas abandonar o pouco de racionalidade preservada não parece uma boa coisa pra quem tem depressão ou ansiedade, certo?

Mas nada disso é uma garantia vitalícia completamente a prova de desgraças. Simplesmente porque a gente vive no mundo real. Que pra maioria das pessoas não é nenhum bolinho Pullman.

No meio dessa bagunça você vai fazer alguma coisa eventualmente (ou muitas coisas com considerável frequência) que é o exato oposto do que você gostaria. Mas saiba que mesmo que você pudesse voltar no tempo e modificar isso, você provavelmente apenas criaria uma realidade paralela, e essa versão de você que você está detestando nesse exato momento continuaria existindo e fazendo merda nessa linha temporal onde estamos. O que significa que você tem razões científicas pra não se deixar consumir pela culpa. Ou pelo menos tentar. Porque literalmente nada pode ser feito.

Pode parecer meio megalomaníaco uma pessoa ferrada como eu aparecer aqui te dando conselhos. Ou talvez eu esteja escrevendo esse texto uma hora da manhã, enquanto tomo um Campari, depois de ter passado um dia inteiro sem conseguir botar o pé pra fora de casa enxergando tudo cinza.

Mas pelo menos eu sei que é estranho. Ó como eu já evoluí.

 

 

 

 

 

 

 

 

Bate, e dói dói

Eu te amo.

Mas eu preciso me afastar de você.

Por uma noite. Talvez dois dias, talvez três semanas inteiras. Sentindo a ausência e o desejo, mas nenhum sofrimento. E você talvez não entenda, mas eu consigo ver… Você também precisa se afastar de mim. Você precisa de uma noite, dois dias, três semanas para ser todas as coisas que você não é na minha presença. Porque juntos somos aquela entidade impalpável. Imutável. Inescapável. Juntos a gente se engole. Você e eu, tornados elementos de uma mesma oração, viramos aquela coisa que se supõe acima de todas as outras, antes mesmo que eu ou você tivéssemos nascido. Para muito além do dia em que eu e você tivermos desaparecido.

Juntos a gente se excede.

Dia desses você olhou para mim e falou mais alto, ríspido. Olhos crispando, daquela raiva e incompreensão pueril. Outro dia, fui eu que gritei e você se encolheu com medo. Embolado no canto do sofá, como se eu tivesse dois metros e meio, além dos meus um metro e sessenta. Mas isso, posto que é fagulha e não chama, em um momento mais breve do que se possa supor, passa. E a gente volta reconfortados pra nossa existência de pedra sob o fogo, tranquila e morna.

É quase um rigor ritualístico. Nos últimos instantes do dia, lado a lado na cama que fica encostada na última parede do ultimo quarto, do nosso apartamento que é o último no canto direito do primeiro andar, a gente põe os pingos sobre os “is” e todas as outras letras. Eu no canto do meu travesseiro mais próximo ao seu, você no canto do seu travesseiro mais próximo ao meu, falamos sobre as expectativas frustradas – não são, de alguma maneira, todas? -, e sentimentos sufocantes – há algum, sob algum prisma, que não é? -. Amalgamados, tanto pressionam até espocar num estampido. Viram gritos, que eu não queria e você não pôde evitar. Com bem quereres e carícias, colocamos o indesejado em sua caixa, pronto para ser arquivado no armário de todas as coisas que não deveriam ter acontecido. Mas isso, posto que é clique em meio a ruído, também passa. E decorridas algumas horas, a gente volta a se exasperar.

Basta um pó de coisas, um copo, uma veste, um olhar. Basta que eu tenha chegado com disposição melancólica. Tenha te encontrado repleto de mimos não satisfeitos. Que estejamos ambos assim-assim ou assado-assado. No instante anterior à ação é quase possível tocar o fluido do que ainda está para acontecer. Premente. Crescendo nesse encrispando raivoso. Até que…

A onda que passa deixa na areia essa figura metade tomada pela culpa, metade pela confirmação da clarividência. Dividida como um círculo: um terço de segurança, um terço de abominação, um terço de indecisão: não sei se escondo ou não uma das partes anteriores com a outra. E qual das duas faz o papel de faca. E quando.

Argumentos à mesa, me diga: a gente não precisa se afastar um tantinho que seja?

E voltar com as nossas almas aradas e férteis. Aguardando a semeadura de novos embalos. Regados com o re-conhecimento sem esses ressaltos de agora. Uma novidade aqui, uma permanência acolá… Fluindo como seiva em dia quente. Porque, você sabe: eu te amo numa medida que minha colher medidora, ou régua ou trena não são capazes de mensurar. E ainda que impreciso em sua gigantesa, isso é o suficiente para eu vaticinar que a gente volta. A gente sempre volta. Porque a gente sabe antes mesmo de desconfiar que somos as rodas. E amores intermináveis, posto que ciclos, precisam de suas rodas pra recomeçar.

O que podem querer as crianças

Eu costumo participar da campanha de Natal dos Correios, e sempre ouvi pessoas reclamarem na hora de buscar suas cartas, sobre como as crianças cada vez mais pediam coisas caras, como bicicletas e computadores, e muitas vezes, por isso, acabavam sem presentes. Era perceptível o tom de acusação: “como crianças tão pobres ousam pedir coisas tão inatingíveis, ao invés de se contentarem com aquilo que lhes é permitido sonhar?”

Eu nunca cheguei a dizer algo assim publicamente, mas confesso que me programava para ir até alguma agência tão logo a campanha começasse, e não correr o risco de encontrar apenas cartinhas pedindo coisas mais caras e acabar no meio de uma berlinda.

Até que eu tornei mãe.

E me lembrei que em meio ao frenesi da descoberta do gênero de Miguel, me permiti gastar 150 reais na sua primeira roupinha, verde água, toda de veludo, que foi usada na maternidade e está guardada comigo até hoje. À época, 150 reais era 10% do meu orçamento mensal. Nem pensei: “parcela aí em três vezes”.

Hoje, Miguel com cinco anos, eu não saberia nem dizer quantas vezes estiquei a corda do meu orçamento, para comprá-lo algo mais caro, mas muito desejado; para levá-lo em algum passeio mais sofisticado; para atender a um pedido fora de hora. A gente faz concessões o tempo todo para os nossos filhos queridos e merecedores, mas achamos um absurdo quando a mesma inocência do desejo acomete crianças de classe sociais menos abastadas que a nossa. Como ousam querer o mesmo que nossos filhos querem?

Lembrei dessa história de novo, ao ver no perfil de amigos do Facebook, que a Rede Record estava transmitindo uma matéria sobre uma menina de 11 anos, que fazia unhas em troca de sete reais para ajudar a família. Um explícito exemplo de trabalho infantil, que já havia sido romantizado nas redes sociais, e estava sendo romantizado novamente. Segundo o programa, a história “emocionou a internet”.

Na época em que a história da menina foi postada no Facebook, por uma pessoa “bem intencionada” que queria apenas divulgar o trabalho dela, para que ela tivesse mais serviço e pudesse ganhar mais dinheiro, houve uma enxurrada de comentários parabenizando-a pela iniciativa de ajudar a família. Houve quem lembrou que aquilo era trabalho infantil, mas as críticas logo foram abafadas por novos comentários a favor: o que a gente preferiria? Que a criança, ao invés de trabalhar, estivesse passando fome, se prostituindo ou roubando?

Taí um dilema que jamais será imposto ao meu filho, quando ele completar seus onze anos. Miguel naturalmente estará na escola, possivelmente fazendo alguma atividade extraclasse de sua escolha, certamente começará a pedir privacidade para curtir a vida com seus amigos, e é esperado também que comece a estabelecer algumas barreiras na nossa relação, já que, com um pé na adolescência, iniciará seu caminho como indivíduo plenamente autônomo. Trabalho, para o Miguel, será o que é hoje: ajudar com as tarefas domésticas, de acordo com suas capacidades, cuidar do seu próprio espaço e rotina.

Como é possível que a gente naturalize tanto que as únicas escolhas para uma criança pobre sejam: 1) trabalhar 2) se prostituir 3) entrar para a criminalidade? Mas que ousadia pensar que ela deveria apenas estudar e brincar, como qualquer outra criança de onze anos, como a minha criança! Ela é pobre! Não pode sonhar tão alto assim!

Entre as milhares de pessoas emocionadas com a doçura da menina, que aceita deixar de brincar porque sabe que a família precisa de ajuda financeira, não houve ninguém que pensasse em ajudar a família; não houve ninguém que questionasse que situação de trabalho é essa a qual está submetida esta mãe, que ainda que se esforce, não consegue prover o básico; mas foram muitas as possíveis clientes, algumas, inclusive, cogitando pagar mais do que os sete reais cobrados, e se disponibilizando a doar materiais de manicure para que ela pudesse continuar trabalhando.

Não por acaso, muitas pessoas que são contra políticas que promovem igualdade social, são pessoas caridosas, que adoram ajudar alguém em necessidade. Não é que elas gostem que crianças trabalhem para não morrer de fome, mas é que é bom saber que a diferença existe: nós aqui, bem nascidos e generosos, eles lá, desgraçados e necessitados das migalhas que a gente quiser oferecer.

 

 

Diários de uma ansiedade 5 – O dia em que o meu cérebro olhou para mim e me escreveu um poema ruim

Então, gatinha                                                                                     O que vai ser?
Você vai ficar
Ou você vai correr?
Vai se esgueirar pelas brechas
Vai andar pé ante pé
Na corda bamba
Sobre o precipício?
Vai se render ao suplício
Ou vai erguer a mão
Encher o pulmão
E gritar
“Help me, help me, lord!”?
Cê sabe, gatinha
Quando ela arrebenta
Você só se arrebenta
Porque não sabe pular

Então, gatinha
Não me diga – nem baixinho!
Que você vai vacilar
Vai arquear
Vai desesperar
Cadê a vara que enverga
Mas espada não corta?
Cadê, gatinha?
Bora lá!
Tem muitas facas pra você esmurrar…
Segura, gatinha
Não pode soltar
Tampouco surtar
Nem mesmo assustar
Cê já tá afeitada, gatinha
Ou não tá?

Então, gatinha
Você pediu uma mão
Eu apareci com mais de dez mil!
Pra te enforcar…
E você ainda reclama, gatinha
Sozinha
Tão sozinha
Pobrezinha
Qual o que há!
Eu nunca vou te deixar, gatinha
Pode contar
Nós somos amálgama, gatinha
Diamante bruto
Você não quebra
Não nulifica                                                                                         Pode – no máximo! – dilapidar

“Eu tenho direito de não gostar de criança” é a fralda cagada do meu filho na sua cara

Já começo pedindo desculpas pela exaltação.

Ontem, antes de dormir eu tinha planejado começar esse texto comentando que já xinguei muito no Twitter, já tretei muito no Facebook, portanto, no blog, eu seria polida.

Mas não vai estar sendo possível.

Então antes de mais nada, aí vão os trigger warnings:

  • ESSE TEXTO FALA SOBRE CRIANÇAS
  • ESSE TEXTO FALA SOBRE MÃES
  • ESSE TEXTO FALA SOBRE UMA MÃE MUITO ESPECÍFICA E MUITO EMPUTECIDA COM AS MERDAS QUE VOCÊS ANDAM FALANDO SOBRE CRIANÇAS E MÃES

Achei conveniente alertar porque essas três coisas andam ofendendo muitíssimo as pessoas esclarecidas da internet ultimamente. Se você é uma delas, fique à vontade para se retirar, ou continue conforme suas próprias intenções. Eu não sou do tipo que bota plaquinhas com proibições por aí. Sigamos.

Desde que a treta sobre o restaurante proibindo a entrada de crianças explodiu há alguns dias, eu já li todo tipo de argumento em defesa da iniciativa: “os estabelecimentos têm direito de definir seu nicho de mercado”, “muitos pais não sabem educar seus filhos”, “há lugares apropriados para as crianças frequentarem”, “as pessoas têm direito de pagar para ter tranquilidade”, “ninguém é obrigado a aturar a birra do filho alheio”. E hoje eu descobri que quero ter a liberdade de escolher onde vou com meu filho porque não transo, e quero deixar o mundo todo enervado com a bagunça dele, por inveja, para que as outras pessoas não transem também. Puxado, né?

Me parece que todos giram ao redor de três pontos: 1) a responsabilidade exclusiva dos pais pelo que acontece a seus filhos 2) o direito de se isolar de grupos sociais que causem incômodo 3) o direito de pagar – e consequentemente de oferecer – por qualquer serviço demandado por alguém.

Então, eu vou propor que a gente extraia os conceitos que sustentam esses argumentos para saber se vocês continuam achando que eles são tão válidos assim.

1. Uma criança é responsabilidade exclusiva de seus pais.

É isso que você está dizendo quando defende que não é obrigada a aturar choro de uma criança que não é sua. É esse também o pensamento que sustenta a ideia de que os pais devem ficar em casa, para evitar que outros “sofram” com o comportamento de seus filhos, ou devem se limitar a lugares frequentados por outros pais ou outras crianças. Afinal de contas, apenas quem escolheu ter filhos deve lidar com as consequências absolutamente normais de existir uma criança em um espaço. Você está dizendo que só precisa conviver, se sensibilizar ou se responsabilizar pelas vulnerabilidades ou necessidades de outros seres humanos que tenham uma relação direta inalienável com você. Você está dizendo que só precisa suportar ou respeitar as reações normais de um outro ser humano se ele estiver sob sua responsabilidade legal. Você está dizendo que só é capaz de ter empatia em uma situação de conflito caso as pessoas envolvidas sejam semelhantes a você. É isso que você está dizendo?

2. As pessoas têm direito de se isolarem em locais onde não há crianças, porque se sentem incomodadas por elas

Quando alguém reivindica o direito de ter um jantar romântico, ou uma temporada tranquila em estabelecimentos que proíbam a entrada de crianças, essa pessoa está dizendo que tem o direito de se isolar em um local, onde todo um grupo social não é aceito. E não porque esse local é inadequado, ofensivo ou perigoso para crianças, mas para garantir o seu próprio conforto, já que o barulho ou a atividade de crianças podem incomodá-la em seu programa. Defende, portanto, que grupos sociais possam ser impedidos de frequentar e se comportar naturalmente em lugares, para preservar os outros frequentadores do que eles são e como agem. Normalmente, usa-se o argumento dos excessos, como se não fosse possível admoestá-los sem restringir a circulação de todo o grupo. Parece familiar? Você realmente acredita que pessoas de um determinado grupo devem ser banidas de espaços abertos ao público, só pela potencialidade que têm – construída em cima de generalizações e estereótipos – de incomodar outras pessoas?

3. As pessoas têm o direito de oferecer serviços discriminatórios e têm o direito de adquiri-los desde que possam pagar por isso

Restaurantes e hotéis não são serviços públicos, mas negócios privados. Quem oferece cobra para que os interessados tenham acesso. São, portanto, regidos pela lei do mercado, pelo lucro, e como qualquer empreendimento, têm seu público alvo e suas maneiras de atraí-lo. Você pode criar um menu exclusivo para casais românticos. Você pode estender seu horário de funcionamento e recomendar às pessoas que querem maior tranquilidade, quais os melhores horários pra isso. Você pode criar um ambiente mais intimista, que vai naturalmente repelir pessoas que precisem de espaço e luminosidade. Ou você pode simplesmente proibir as crianças de frequentá-lo. Parece muito claro para mim quem faz segmentação e quem faz discriminação. Sejam honestos: quantas vezes vocês foram a um restaurante chique, à noite, e o encontraram abarrotado de crianças barulhentas impedindo os clientes de terem seus momentos de intimidade? Agora a pergunta é para quem se considera de esquerda: vocês realmente acham válido esse argumento de que todo e qualquer serviço pode ser oferecido desde que exista alguém disposto a pagar por ele? De que os prestadores de serviço devem ter todo o poder de definir onde cada grupo pode transitar? De que a sociedade ideal se define pelo máximo possível de exclusividades relacionadas a desejos e repulsas particulares pelas quais se possa pagar?

O pior desses conceitos é que eles estão contribuindo para construir um mundo segmentado, cheio de pessoas ignorantes sobre o básico da interação social: todos nós dividimos um mundo com outras pessoas, que possuem suas próprias maneiras de viver, e elas algumas vezes são incômodas. É absurdo que estejamos discutindo a sério como se isolar ou restringir a circulação de todo um grupo social, por características perfeitamente naturais que ele manifesta, especialmente quando esse grupo é o que tem menor capacidade de mobilidade e poder de mobilização, e maior potencialidade de ser vítima de uma série de opressões e violências.

Sem contar o efeito nefasto que a construção social sobre as crianças, como seres eminentemente incômodos, chatos, carentes e ignorantes tem sobre as cuidadoras dessas crianças, condenadas a uma vida social restrita ou a serem julgadas publicamente por se insurgir

Eu sou avessa a carteiradas, mas vou abrir uma exceção porque o assunto merece: eu falo desta questão com bastante emotividade e interesse porque eu sou uma mãe solo. Que vive sozinha com seu filho, distante a muitos quilômetros do pai desta criança e de qualquer outro familiar. Eu faço compras com o meu filho, eu vou a museus com o meu filho, eu vou a restaurantes e a bares com o meu filho, e tento me restringir apenas pelas limitações impostas por ele mesmo e pelo meu julgamento a respeito do seu bem estar. Porque na maior parte do tempo, eu não posso fazer nenhuma dessas coisas, se ele não puder estar presente. Mas principalmente porque eu e o meu filho somos cidadãos dessa cidade e temos todo o direito de desfrutá-la.

No mais:

É SÓ A PORRA DE UM JANTAR NUM RESTAURANTE.

Se o grande problema da sua vida é não ter tido todo o silêncio desejado na sua tão sonhada estadia com o mozão em Jericoacoara, talvez eu deveria estar fazendo um texto sobre o conceito de “problema”.

 

 

 

 

 

 

 

Diários de uma ansiedade 4 – Não é porque você começa que dá pra ver o final

Talvez eu tenha que admitir que eu recaí. De novo.

Eu tendo a dizer que é porque eu tenho tomado o homeopático com alguma negligência; que é porque interrompi o ritual noturno, primeiro porque o chá calmante acabou, depois porque a bolsa de gel se rompeu; que é porque o trabalho está difícil como nunca e tem sido uma grande fonte de stress.

Mas o que eu quero realmente dizer é que eu estou bastante irritada e desolada, porque eu consegui estabelecer uma rotina e minha casa está sempre satisfatoriamente arrumada; eu consegui negociar comigo mesmo uma dieta que tem funcionado; eu consegui não gastar quase nenhum dinheiro com inutilidades. Eu consegui controlar três processos importantes, então eu posso realmente dizer que o tratamento não tem dado certo? Mas ainda assim eu caí diante da obsessão.

Começa com um acontecimento pequeno, como se interessar por uma pessoa. E então você começa a se preocupar sobre como vai agir diante dessa pessoa. Depois você começa a se preocupar com as ações que essa pessoa vai ter com você. E a partir daí cada movimento originalmente delicioso se torna, na verdade, uma tortura e você se esquece das reais razões pelas quais está fazendo aquilo. Tudo se torna reforço: você quer que ela te responda para cessar uma preocupação a respeito do que ela pensou sobre você;  você quer respondê-la para iniciar um novo ciclo, porque estamos falando de um processo obsessivo.

Então, a coisa obviamente não dá certo.

E você se pega, num domingo à tarde, enquanto lava as louças de uma festa que deu na noite anterior, fantasiando com ocasiões corriqueiras nas quais poderá cruzar com essa pessoa, para ter a oportunidade de mostrar como você realmente não se preocupa com ela, não foi atingida pelo que aconteceu, sequer se lembra exatamente do que houve… E aí você se dá conta da farsa que constrói continuamente, com todas as situações e todas as pessoas, porque afinal de contas você está num domingo à tarde, enquanto lava louças de uma festa que deu na noite anterior, fantasiando com ocasiões corriqueiras, apenas para ter a chance de mostrar a uma pessoa que você mal conhece que você não se importa com ela. O que é óbvio e não precisa ser apontado.

O pulo do gato é que nada importam as pessoas e as situações. E o mundo te oferece mil soluções fáceis relacionadas a determinadas pessoas e determinadas situações. Mas você sabe que isso não tem nada a ver com as pessoas e as situações. Se trata apenas do seu desejo mais íntimo de que essa ocasião ocorra, e ocorra com essa precisa nulidade de emoções, porque aí você saberá que o processo obsessivo se encerrou. É uma pequena bolinha branca recheada de paz num horizonte longínquo. E é irresistível fantasiar sobre ela, ainda que seja um sofrimento quase insuportável não saber quando ela estará ao alcance das mãos.

Talvez eu tenha mesmo que admitir que eu recaí. De novo.

E que me sinto pessoalmente ofendida pelo tanta de gente sã que existe no mundo e que jamais vai saber o que é isso, a ponto de me dizerem com toda propriedade: “Esqueça isso! Siga em frente! Não se preocupe!”

Não dá pra esquecer de si própria, seguir em frente deixando si mesma pra trás e eu me preocupo com todas as coisas, e todas as suas possibilidades, e todas as suas origens e consequências 24/7.

Já não peço nem desculpa para o acaso por chamá-lo necessidade. Muito menos à necessidade se ainda assim me engano. Eu estou no caminho, ao que parece, mas às vezes dando uns passos pra trás o que é absolutamente exaustivo. E sem saber exatamente pra que lado está a felicidade, que eu espero que não ofenda quando eu puder tomá-la como minha.

Quanto a vocês que são funcionas: durmam bem, seus filhos da puta.

Aquele adeus não pude dar 

Há uns quatro anos eu perdi uma pessoa muito amada.

Me lembrei dela hoje, enquanto preparava o café.

Essa pessoa muito amada tinha gastura de desorganização. Mas também tinha preguiça. Então, quando ela via uma pia com louças sujas amontoadas até o teto, ela arrumava tudo, juntando todos os copos num cantinho, colocando um prato dentro do outro, botando água dentro de uma vasilha e os talheres dentro…

Mas não lavava nada.

Virou piada lá em casa: “fulana arruma direitinho a bagunça. Ela continua lá, mas arrumadinha”

Então, já atrasada para ir ao trabalho (culpem o horário de verão), fui apenas recolhendo os pratos na bancada e os organizando dentro da pia. Quando essa memória me arrebatou.

Faz quatro anos que eu perdi essa pessoa amada. E até hoje eu não compreendo onde é que ela foi parar.

Não foi morte, mas um desaparecimento de gente presente. Que ainda se vê e com quem se mantém laços e alguma relação.

O rosto é o mesmo, mas com feições que desconheço. A capacidade de linguagem segue intacta, mas compondo mensagens que eu nunca ouvi. Estranho muitíssimo as decisões guiadas por essa nova personalidade, que eu não vi se formar, nem sei dizer a partir do quê.

E eu que conhecia tanto, amava tanto, me identificava tanto com a pessoa que eu conheci e perdi, confesso que não sei como lidar com esse novo ser humano que eu não reconheço.

Há coisas cruéis nesse mundo. E há certas doenças.

Que não escamoteiam os suspiros e nem levam nossas pessoas amadas para um outro plano ou para a inexistência.

Pelo contrário, deixam elas ali sem que consigam ser elas mesmas. Ou melhor: sendo elas mesmas mas sem que a gente consiga acompanhar esse “elas mesmas” se transformando numa outra coisa.