Se isso fosse uma série dramática, eu seria capaz de dizer em voz alta, muito alta. Em um ritmo acelerado, de quem quer encaixar o maior numero possível de palavras em um só fôlego, porque antes da próxima tomada de ar é provável que um irresistível desejo de desistência apareça e as frases acabem incompletas, interrompidas pela porta que bate.

Se isso fosse uma série dramática eu gesticularia amplamente, muito amplamente. Andaria de um lado para o outro na sala, como se a torrente de palavras precisasse da força cinética produzida pelas pernas para brotar pela boca e, ao mesmo tempo, como se a força cinética transformasse a torrente de palavras em seu produto inevitável, incontrolável e não deliberado, a respeito do qual não se pode determinar culpa.

Se isso fosse uma série dramática, eu me sentiria liberta, muito liberta. Afinal de contas, o esforço obstinado do meu interlocutor a princípio me provocaria incômodo, em um segundo momento me despertaria ira, para em seguida fazer nascer em mim estoicismo, mas ao final, ambos exaustos, a represa finalmente romperia, inicialmente violenta, e depois se recompondo em um remanso de compreensão.

Mas isso não é uma série dramática. E ainda que a resposta tenha vindo mentalmente imediata, ainda que a sala seja um consultório psicológico, ainda que os 120 reais semanais sejam pagos para que eu fale… Eu me calo e, dissimulada, ainda digo coisas outras, apenas para esconder o óbvio.

“Por que você não consegue se decidir?”

Eu não consigo porque sou incapaz. Eu sou incapaz porque sou sozinha. E sendo sozinha, carrego em mim todo o peso do meu próprio mundo e não há ninguém que sinta essa mesma espécie mui específica de comiseração e medo.

Eu me calo sobre isso porque tenho asco de que este pensamento me ocorra. Sozinha? O que poderia isto significar? Não enfrentaremos todos sozinhos a hora derradeira? O limite que a nossa pele impõe a respeito do que é a gente e do que é o mundo não garante que sejamos todos uno, portanto, sozinhos? Como outro alguém poderia dividir ou mesmo entender o peso do meu mundo? Como um outro alguém que não está apartado do mundo pela minha pele e pelo conteúdo que ela estofa poderia sentir a minha espécie mui específica de medo e comiseração?

Metafísicas, ontologias…

Não é isso que você quer, não é? Aplico palavras que nem sei se corretas clamando para que você veja meu fundo, que eu nem sei se tenho. São tantas as banalidades a serem pensadas e resolvidas por duodécimo de dia que às vezes me vejo medíocre. Quê tempo para metafísicas e ontologias? Não consigo decidir sequer em qual destas searas é que a vida realmente acontece. Misturam-se ou revezam-se? Intercalam-se entremeadas? Em qual proporção?

Shh… Aquiete-se! De mais a mais, até que pensei, mas não o disse. Por dentro pão bolorento pulsando estuporado. Por fora, dê-me a viola, duas cordas de nylon, saída fácil: “Não sei por quê. Só sei que não o faço”.

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