A sensação de fracasso é comumente descrita como uma bola de espinhos pressionada contra o peito desnudo quando se está deitado, mas a verdade é que às vezes ela se parece com um bola de algodão doce, etérea, brilhante e coloridamente irresistível, que a gente só quer colocar na boca, sentir derreter sobre a língua, engolir seu açúcar pungente e aí sim, sentir ela se transformar em um bola de espinhos no peito dentro da gente.

Eu não sei de onde nasce exatamente essa vontade de carregar todas as culpas, mas eu a tenho. E mesmo nesta situação em que qualquer ouvinte me classificaria como vítima – do ladrão de celulares que me levou o aparelho no sábado, do mal respiratório que me acometeu no domingo, de você ter ido embora novamente na segunda – eu quero pegar alguma coisa pra mim e por na boca. Salivar. Mastigar. Deglutir. Intuo que carregar parte da culpa amenize a sensação de estar à mercê quando tudo o que se deseja é estar no controle.

Venhamos e convenhamos, fevereiro foi um verdadeiro furacão. E eu girei, girei, girei e mal contive minhas saias esvoaçantes.

E da mesma forma que as coisas me apareceram como bolas de algodão doce, com sua pequena notinha de dinheiro falso apregoado, verdadeiras promessas de uma delícia quase criminosa em meio à desgraça geral e irrestrita, agora que eu as peguei e comi, sinto gosto de fracasso. A sensação empapuçante sequer esperou o menor mês do ano acabar para se instalar.

Nós que comemos fracasso, geralmente vivemos a vislumbrar o fracasso, esperar por ele, como a criança que sabe que se o vendedor de algodão doce sempre passa às cinco horas, é esperado que às cinco horas ele apareça. Certa vez eu te confessei que temia torcer pelo fracasso, pelo simples fato de que estava acostumada a ter a sensação empapuçante procedindo cada bola de algodão deglutida, de tal forma que eu talvez não saberia o que fazer se após o ato de engolir me viesse um vazio de pura esperança e frescor.

E como quero muito comer esta bola rósea de fracasso que pende do tronco à minha frente, começo a imaginar que talvez eu tenho ansiado tanto por ela, que eu mesma a tenha produzido, de alguma forma, só para me satisfazer. Você, vê, por mais que discorde a platéia, não tem culpa alguma.

Seja como for, da forma como eu temia, vislumbrei ou pari, cá estou eu com toda esta glicose na boca.

E agora me ocorre quão curioso é eu ter escolhido justo o algodão doce como metáfora, coadjuvante de uma das minhas mais singelas lembranças pueris.

Me recordo de andar com minha mãe pelo bairro onde morávamos e de não ter mais do que cinco anos. Cruzávamos sempre com o vendedor de algodão doce e para me comprar o item tão desejado, minha mãe me instigava a repetir nossa brincadeira mais íntima.

Ela dizia:

– Nenem, você me ama?

E eu respondia:

– Amo!

Ela retrucava:

– Mentira!

E então eu a abraçava pelo pescoço e finalizava:

– Amei!

Será esse o germen da minha necessidade lancinante de confirmar que sou mesmo amada, admirada, desejada, por quem se propõe a entabular um jogo comigo? Oh Freud, a confirmação jocosa de minha abnegada mãezinha?

Vejam!

Vocês estão a presenciar a formação quase mágica de mais uma bola de algodão de culpa e fracasso, ao simples girar de uma vareta no tambor dos meus sentimentos. Não se ofendam, mas esta é minha. Vou pegar um copo de água pra engolir mais fácil.