“- Mãe, quando a gente voltar pra nossa casa, você faz a sopa de batata pra mim?”
Faz quatro meses agora que o meu filho foi passar uma temporada na cidade onde eu cresci, porque as coisas ficaram difíceis de administrar na megalópole onde eu escolhi viver. Faltam três semanas para que ele volte, a passagem já está comprada, os queridos avisados, os arranjos feitos… vejamos então se será possível para mim falar.

Desde o início eu sabia que ele voltaria, mas eu tenho acordado todos os dias nesses quatro meses, como aquele poema da Wislawa: tudo o que eu sei é que eu tenho um filho, o resto eu ignoro. Sinto como se eu não soubesse que ele vai voltar, como se o tivesse perdido nas teias da vida, como se não estivesse nas minhas mãos decidir…

Há culpa, evidentemente. Como uma mãe pode abdicar de conviver diariamente com seu filho por quatro meses? Mas há um tanto grande demais de amor. O mesmo que as minhas mãos emanam sobre a sopa de batatas – baroa – que virou o prato preferido do moleque… esse mesmo que cresceu às minhas vistas, e ainda assim me surpreende que não seja mais um bebê: escolhe a sopa e a toma sozinho. Com o estímulo certo, até recolhe o pratinho à pia ao final da refeição.

E eu que gosto tanto de batata baroa, há quatro meses não cozinho a sopa. Não há inverno que a faça ter sentido. E como toda sanidade tem suas fronteiras, eu acabaria temperando-a com lágrimas.

Mas deixo a receita, sem quantidades exatas, e você vai experimentando quando for fazer… Como é a vida, e como é o único jeito que eu sei cozinhar:

Refogue cebola, alho e alho poró em azeite. Junte batatas baroas cortadas, e mais um menos um quarto dessa quantidade de batatas normais. Adicione uma folha de louro, um ramo de alecrim, moa um pouco de pimenta, e jogue um tico de sal. Junte água, apenas o suficiente para cobrir os legumes. Tampe e deixe cozinhar. Quando estiver tudo molinho, tire a folha de louro e o ramo de alecrim e coloque o restante no liquidificador. Bata com um pouco de leite de coco, e caldo de legumes caseiro, se você tiver em casa. Equilibre os líquidos e sólidos para que a mistura resulte num creme e volte à panela para finalizar com o sal que for preciso e noz moscada ralada. Se a ocasião for especial, ou o mês estiver em seus primeiros dias gordos, gorgonzola em pedacinhos na hora de servir.

E não se deixe enganar por esse post: esta é uma receita absolutamente feliz. E vai voltar às minhas panelas, assim que ele também voltar.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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