Criar um filho sozinha é como usar um vestido curto e muito decotado no meio de um vendaval.

Se você levar as mãos ao seios, sua bunda inevitavelmente aparece; se abaixar os braços e puxar o vestido para tapar as partes pudicas, acaba mostrando os mamilos.

E para tentar controlar seus cabelos, e ver mais claramente o que te rodeia, precisa abrir mão de que qualquer outra coisa abaixo do pescoço permaneça no lugar.

E, claro: eu só tenho um vestido porque tenho muitos, muitos privilégios. Quando olho pro lado, vejo um sem número de mulheres nuas, tentando tapar suas vergonhas com as próprias mãos.

As pessoas frequentemente perguntam porque eu não relaxo e não desisto de certos pudores, ciente que sou de que o vendaval não vai parar. Mas quem é que se sente confortável, girando perdida em um redemoinho caótico, com as partes expostas pra todo mundo ver?

Além do mais, faz muito frio dentro desse vendaval.

Eu já disse pra muitas meninas, prestes a entrar neste vestido, para enfrentar o mesmo vendaval: “você consegue”. Mas geralmente eu me furto de complementar: “…porque não há mais o que se fazer”. Você consegue, de peito desnudo, nós nos cabelos e pés doloridos pelo esforço de permanecer de pé sobre o mesmo lugar.

O vendaval quase nunca dá intervalos e não há casa nessa alegoria, onde você possa entrar, tomar um banho e pinçar do guarda-roupa uma veste mais apropriada para o clima. Às vezes alguma pessoa se interpõe entre você e a ventania, oferecendo alguns momentos de paz para que você se recomponha, e quem sabe consiga até prender os cabelos.

Mas costuma ser bem raro aparecer aquela pessoa que pode e quer e consegue entrar no vendaval, pra te colocar um casaco.