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Você já deve ter lido em algum lugar da internet que não é mais adequado se referir às mães que tiveram seus filhos fora de uma relação estável como mães solteiras. Agora, nós as chamamos de mães solo.

Por favor, não faça isso comigo.

A principal intenção dessa mudança é retirar o estigma das mulheres que tiveram filhos, apesar de não terem cumprido com o percurso de se casarem antes, o que ainda é considerado correto. E o principal argumento é que as coisas não precisam estar entrelaçadas, e são muitos os casos em que não estão, o que demonstra que a maternidade se refere a um processo envolvendo a mulher e seu filho, não a mulher e seu estado civil.

Mas deixa eu te falar uma coisa sobre esse estigma. O termo mães solo, por definição, deve englobar ainda mulheres que tiveram filhos sem um companheiro por opção, e mulheres que se divorciaram após terem filho. E o que acontece com toda a gama de especificidades de nós mulheres que nunca tivemos nossa maternidade legitimada por uma decisão vanguardista ou um casamento?

Há no Brasil pelo menos 20 milhões de mães solteiras, de acordo com dados do IBGE. Sim, isso é um quinto das mulheres do país. Eu sou uma delas. Conheço pelo menos cem mulheres que também são uma delas e sabe o que todas as mulheres mães solteiras que eu conheço temos em comum? Um fazer materno dificultado de maneira absurda e desnecessária porque somos solteiras. Dificultado pela sociedade, pelo Estado e suas instituições, pelos nosso familiares, pelos nossos empregadores e principalmente pelos pais dos nossos filhos.

Desde o primeiro instante.

Quando você não possui um relacionamento estável com o pai do seu filho são grandes as chances de ele questionar sua participação naquela concepção. E como se não fosse contraditório, também são grandes as chances de ele te acusar de ter engravidado de propósito, para prendê-lo em um relacionamento ou drenar o seu dinheiro. Frequentemente, assim que o bebe nasce, ou até antes, há a realização de um exame de DNA, mesmo que não exista indícios que demonstrem essa necessidade. Todas as mães solteiras que eu conheço tiveram que ir à Justiça para garantir que os filhos recebessem pensão ou que esta chegasse a um valor justo, sempre questionadas pelos pais, porque não é possível que a criança realmente precise daquela quantia de dinheiro, ou que a mãe realmente a esteja investindo em seu bem estar.

A mãe solteira é uma mentirosa.

Quando você não possui um relacionamento estável com o pai do seu filho é muito provável que ele se aliene de toda a gestação e de suas demandas práticas e emocionais, afinal de contas ele possui um vínculo com aquela criança, mas não possui nenhum compromisso com você. A mãe solteira peregrina por médicos, salas de exame, lojas de produtos para bebês sempre completamente sozinha, sempre envergonhada pelas perguntas dos conhecidos, sempre sob olhares de comiseração e reprimenda: “E o pai? Tadinha. Mas porque não se cuidou?”

A mãe solteira é uma coitada irresponsável.

Quando você não possui um relacionamento estável com o pai do seu filho, você geralmente se vê tomando todas as decisões completamente sozinha. E empreendendo sozinha todas as decisões que tomar. Não por opção e não que isso te proteja de ser questionada após a ação já ter sido feita. Afinal de contas, a vida prática da criança acontece de segunda a sexta, quando ela geralmente está com você. Vai para a escola? Qual? E nas férias escolares, o que ela vai fazer? Precisa de médico? Qual é melhor? Evidentemente isso acontece também com muitas mães em relacionamento estável e vai continuar acontecendo em todos os arranjos até que a gente obtenha uma coletivização dos cuidados com crianças. Mas dizem por aí que um “novo pai” está se formando e algo me faz suspeitar de que ele vai chegar com atraso para as mães solteiras. Experimente, por exemplo, reclamar. Logo alguém aparece para te lembrar de agradecer, afinal de contar o pai do seu filho é um ser de luz que o vê religiosamente de 15 em 15 dias e está até pagando pensão em dia.

A mãe solteira aprende na marra que suas expectativas de companheirismo devem ser ainda menores do que a média.

Quando você não possui um relacionamento estável com o pai do seu filho, você às vezes ainda almeja ter um relacionamento com alguém. Mas pelo experimento desta mãe com o Tinder, já é possível perceber o que as pessoas acham de mães solteiras abertas a experiências sexuais ou amorosas. Eu comecei a namorar alguns meses depois do nascimento do meu filho, e por muitas vezes o meu namorado foi questionado pelos amigos por tomar essa decisão louca de ficar com uma mulher que claramente só queria um idiota para posar de pai postiço do seu filho. Mais recentemente, um ficante ao ouvir essa historia perguntou: “mas o cara teve coragem de ir morar com você, mesmo você tendo um filho?”. Cruel, mas bastante honesto. E é claro que você vira uma engravidadora em potencial, afinal de contas se já “fez” com um, o que garante que não vai engravidar de novo de todos os caras com quem ficar? Além de ser o contatinho promíscuo certo: se teve um filho é porque dá pra qualquer um, logo não vai “fazer charminho” com ninguém. Acredite, eu já ouvi essa também.

A mãe solteira ou é promíscua ou se protege desse julgamento permanecendo sozinha.

Quando você não tem um relacionamento estável com o pai do seu filho, e precisa comunicar isso em escolas, unidades de saúde, ou outros serviços que esteja buscando para ele, a investigação sobre a sua conduta será muito mais rigorosa. Afinal de contas, se você foi irresponsável o suficiente para ter uma gravidez indesejada, quais as garantias de que se esforça para cuidar bem daquela criança?

A mãe solteira é um perigo em potencial.

Quando você não tem um relacionamento estável com o pai do seu filho, os empregadores sabem que você é uma pessoa sobrecarregada, e já pressupõem que não será uma boa profissional, por não conseguir colocar o seu trabalho como sua maior prioridade, ou por ter sempre outras demandas, que te cansam ou desconcentram.

A mãe solteira não é confiável.

Quando você não tem um relacionamento estável com o pai do seu filho, muitas pessoas concluíram que a solidão e a exaustão são um preço justo a se pagar para que você consiga expiar pelo pecado do sexo que resultou em uma gravidez. E será preciso coragem extra para vencer a culpa internalizada e as pressões externas, para fazer coisas simples como deixar seu filho com amigos para se divertir sozinha ou ter um encontro. O que ocorre em alguma medida com todas as mães, mas de maneira ainda mais pungente com aquelas que “não deveriam ser”. Mesmo dentro da sua própria casa, você pode ser acusada por familiares de negligência ou desamor, por “terceirizar” funções que deveriam ser suas e sempre suas. Ainda que muitas mães solteiras, como eu, contem com a ajuda de pessoas próximas – especialmente mães, tias, irmãs – há uma expectativa geral de que você passe a viver para o seu filho, e somente para as coisas relacionadas ao desenvolvimento e bem estar dele, assumindo-o como seu grande e único companheiro, e embevecendo-se somente da satisfação que ele pode te proporcionar.

A mãe solteira, se não for uma abnegada, é uma encostada.

Me digam: não são muitas – e em certa medida muito específicas – as situações em que os questionamentos sobre a sexualidade das mães se alia aos questionamentos sobre a honestidade de mulheres sem companheiros? Todas as mulheres em algum momento da vida serão vagabundas. Mas as mães solteiras parecem ter um talento especial pra carregar a alcunha. E carregam. Desde a fundação da nossa sociedade sobre a pedra da família nuclear monogâmica.

Eu compreendo o esforço de rejeição e quebra de todos os muitos rótulos identitários que nos normatizam e contêm, mas se ainda precisamos especificar essa categoria de mães na qual me encaixo – e eu acredito que precisamos, dada que vejo uma categoria aparte de dificuldades e opressões – eu prefiro ficar com a versão tradicional.Também compreendo, obviamente, que a modificação da linguagem é essencial para modificação das relações, mas já que as palavras que compõem o termo “mãe solteira” são apenas descritivas, e não carregam teor ofensivo em si, reitero: prefiro essa versão tradicional.

Afinal de contas, não são poucas as vezes em que preciso dizer meu status e eu quero que as pessoas tenham a exata dimensão do desafio que isso representa, desde o início. Na minha experiência, ser mãe solteira significa ter sempre menos do que as outras pessoas igualadas a mim por fatores como raça, identidade de gênero, classe social e ausência de deficiências. Menos tempo, menos dinheiro, menos disposição e disponibilidade, menos mobilidade e por outro lado mais trabalho, muito mais trabalho. Sabe aquela história da palavra “guerreira”, geralmente usado como atenuante de valorização para se falar de tantas mães sobrecarregadas? Eu sempre respondo que não sou nenhuma guerreira, só uma pessoa vivendo a vida que tem. Se a gente prefere a verdade crua e nua neste caso, porque deveríamos dourar a pílula na premissa?

 

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