Eu escrevia poemas quando era criança. Usava palavras que nem eu conhecia, impressionava professores e familiares, e algumas pessoas diziam que eles eram genuinamente bons.

O auge da minha verve poética foi entre os seis e os nove anos, mas aos doze eu ainda escrevia poemas espaçados, quando a minha família teve que se mudar da cidade onde a gente sempre viveu, após a primeira crise do meu pai.

A bipolaridade o tinha levado a consumir o que a gente tinha e o que não tinha. A cantilena diária dos credores era insuportável e era preciso arrumar novo emprego, num lugar onde fôssemos novos o suficiente para conseguir depois de tudo, e tentar repor o que fosse possível da dignidade balançada.

Eu não me lembro se rasguei ou se queimei todos os meu poemas, mas nessa nova casa temporária, eu os destruí e depois disso a poesia se foi de mim: ainda que eu tenha tentado, jamais consegui escrever um poema sequer que fosse bom.

Enquanto eu penso nisso, minha mente traz em segundo plano uma lembrança recente muito doce do menino. No exato momento em que meu cérebro a fabricava, eu já sabia que seria uma daquelas lembranças que a gente guarda na gaveta das sinapses definitivas, aquelas tão preciosas que nem o Alzheimer ou a demência ousam tocar.

Ele pediu que eu colocasse sua música preferida do momento para tocar no celular, deu a mão pra mim como sempre fizemos, e me tirou para dançar. De mãos dadas, sincronizamos um balanço, e ele intercalava sorrisos com tentativas de cantar a música francesa com arremedos tirados do seu português infantil.

Hoje por alguma razão eu acordei pensando: qual das suas inocências ou potencialidades eu e a vida vamos extirpar?

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