É uma encruzilhada este lugar onde eu estou.

Não que existam esquinas, já que muitas léguas ao redor há apenas terra devastada.

Mas eu olho para baixo e vejo uma cruz, feita com fita vermelha, como as cruzes dos desenhos animados, colocadas sobre a terra para demarcar o lugar onde um pirata enterrou seu tesouro.

Talvez eu seja o tesouro.

E como numa brincadeira de opostos, aqui de pé sobre esta cruz, estou tão exposta e insegura, quanto nenhum tesouro poderia estar.

Além disso, estou imóvel. Mais precisamente: imobilizada. Estou sobre a cruz e sei que ela é um ponto de encontro entre muitos caminhos. Mas por forças estranhas não consigo mover meus pés para nenhuma direção, ainda que a minha boca anseie pela água que deve existir depois da aridez.

Talvez a cruz nunca tenha sinalizado um tesouro, mas sim uma mina. E a força que me mantém imóvel seja o meu próprio medo de que qualquer ação vá me explodir em pedaços.

Eu fecho os olhos, respiro fundo e então consigo ouvir um farfalhar de folhas muito, muito longe. E quando abro os meus olhos, consigo ver os baobás que me cercam muito, muito longe. Como uma promessa de sombra, de descanso. Uma provocação dos deleites que eu nunca terei, porque permanecerei aqui imóvel sobre a cruz escarlate: exposta, insegura e aterrorizada.

Misturando minha substância à da terra devastada.