A revolução do sertão

Acabo de ler a reportagem O Bolsa Família e a revolução feminista no sertão, publicada no site da revista Marie Claire. E de me emocionar com ela. O start para a reportagem é uma pesquisa elaborada por uma antropóloga da Unicamp, sobre os impactos que o Bolsa Família está causando na realidade de mulheres do sertão do Brasil. Como a maioria de nós deve saber, há uma diretriz do Governo Federal para que as titulares do Bolsa-Família sejam a mãe, a mulher responsável pela família. Vi em algum lugar que não me lembro onde – portanto, há risco de equívoco, mas arrisco-me em dizer mesmo assim – que esta decisão é para evitar que o dinheiro seja usado para outras coisas, e não para o sustento da família. É que os homens poderiam gastá-lo com bebida, por exemplo, ao invés de colocar comida na mesa dos filhos. Já com as mulheres esse risco é muito pequeno, pois a maioria delas, até por um fator cultural eu faço questão de acrescentar, coloca as necessidades dos filhos em primeiro lugar.

Eu já ouvi discussões em grupos feministas sobre o fato de essa decisão – a de colocar a mãe como responsável pelo benefício – acabar endossando o senso-comum de que a função de cuidar da família e dos filhos deve ser majoritariamente feminina. Ao fazer isso, o Governo estaria dizendo para essas mães que é papel delas, e delas exclusivamente, zelar pelo sustento de suas crias, já que o pai, naturalmente alguém que se dedica menos a elas, poderia botar o dinheiro fora com vícios e outros supérfluos somente de seu interesse. Eu discordo bastante disso, e a matéria me emocionou também por apresentar dados que vão justamente ao encontro do que eu penso.

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Como uma das mulheres que participou da pesquisa enfatiza: “Há mais liberdade no dinheiro”. E quem pode discordar? A luta feminista hoje é, na maioria dos grupos, para que todas as mulheres possam escolher que forma de vida irão levar, o que significa, num exemplo que se aplica ao assunto, que a mulher deve poder escolher se irá se dedicar a sua vida profissional apenas, se irá cuidar dos filhos apenas, ou se irá mesclar essas duas funções. E que deverá contar com o apoio do suposto parceiro, caso decida ter um parceiro e ser mãe, e este deverá dividir com ela, com a igualdade que a realidade de ambos permitir, o cuidado com a casa e com os filhos.

Mas, todos sabemos que se a realidade não é assim hoje - as mulheres ainda são responsáveis por quase todo o trabalho doméstico, mesmo quando trabalham fora -, há algumas décadas, a realidade urgia para que a luta feminista fosse para que as mulheres pudessem e optassem pelo trabalho remunerado, justamente porque a inexistência desse dinheiro era um dos principais fatores que mantinham mulheres em casamentos infelizes e abusivos, vítimas inertes da violência doméstica. Com filhos, sem trabalho e sem formação, como enfrentar a cultura que apregoava que a mulher digna era a mulher casada, e abandonar o casamento? Como sobreviver sem o marido?

Acontece que muitas vezes nós nos esquecemos que o Brasil possui rincões em que a realidade descrita acima pouco ou nada mudou. Nesses lugares, como a matéria assinala, “o mercado de trabalho é exíguo para os homens. O que esperar, então, de vagas para mulheres.”? Além disso, a estrutura ainda é mais intensamente patriarcal e religiosa. “A mulher está sempre sob o jugo do pai, do marido ou do padre/pastor.” Literalmente sob o jugo, não apenas com as amarras simbólicas que nos prendem a esses atores masculinos nos nossos centros urbanos.

Imagine, então, que diferença não faz, para essa mulher, passar a ter em suas mãos o dinheiro para o seu sustento e para o sustento de seus filhos, sem que ela precise contar com a boa vontade de seu homem. Sem que ela precise suportar agressões e maus-tratos, porque é deste homem que todo o dinheiro provém.

Para essas mulheres, o cuidado com os filhos já é sua função exclusiva. Não há escolha, não há saída à vista, nesses lugares onde “as mulheres são treinadas desde crianças não apenas para servir aos homens, maridos e pais, mas para desejar servi-los” com muito mais intensidade do que acontece nas nossas realidades urbanas. A diferença é que o dinheiro necessário para esse cuidado, agora repousa em suas mãos. Assim como o poder de decisão sobre ele e sobre sua própria vida, por consequência.  Não é mesmo uma linda revolução feminista?

Além de tudo é um tapa na cara daqueles que insistem em dizer que o Bolsa-Família não passa de um programa assistencialista e eleitoreiro que não muda realidade nenhuma e “apenas dá o peixe, ao invés de ensinar a pescar”. Esta matéria é a prova de que 200 reais por mês promovem sim revoluções não somente na vida pessoal dos beneficiários, mas em cidades inteiras. E se o fator humano não é capaz de comover, essa matéria aqui explica como o benefício transformou a economia de pequenos municípios.

Eu sempre achei o argumento de que o programa diminuiu de 12 para 4,8% a faixa da população em extrema pobreza do Brasil bastante suficiente para que eu o apoiasse incondicionalmente. Tirar gente da extrema pobreza significa evitar que pessoas morram de fome. Tirar mais de 7% da população brasileira da extrema pobreza significa, mais precisamente, evitar que uns 12 milhões de brasileiros corram o risco de morrer de fome. Pra mim, isso é mais do que bom. Agora que eu confirmei que, além disso, ele está mudando a vida de uma porção de mulheres, que antes viviam sem qualquer perspectiva de autonomia e independência, não há deus nesse mundo que me faça deixar de amá-lo.

Deseducando meninos

Noite de reveillon. Eu passo maquiagem no quarto, enquanto Miguel brinca com alguma coisa qualquer, ao meu redor. De repente, ele acha sua pomada contra assaduras, abre e começa a enfiar seu dedinho gordinho na abertura e passar o conteúdo pela cara.

- Miguel, pelo amor de Deus, o que você tá fazendo? Vai irritar seu olho! Pára com isso!

E daí eu observo que ele estava tentando passar a pomada na pálpebra, imitando exatamente o que eu estava fazendo: passando sombra nas minhas pálpebras. Ele estava brincando de passar maquiagem.

Vejam bem: Miguel não recebeu este nome à toa. Assim como praticamente todos os integrantes da raça humana dotados de pênis, ele foi designado arbitrariamente, antes mesmo de nascer, como um exemplar masculino da raça. Um menino. E, desta maneira, passou a ser identificado com um nome correspondente. Um nome de homem, de menino: Miguel.

Além de ter um pênis, Miguel não sofre de qualquer alteração genética ou nos seus órgãos internos. Ele também tem saco escrotal, testículos o que indica uma enorme probabilidade de que ele tenha mesmo a configuração XY no seu DNA. Por que, então, ele, um menino, um menino legítimo, estava brincando de passar maquiagem? Esta ação exclusiva das integrantes femininas da raça, adorada, inclusive, por todas nós mulheres (quem não gosta tem que ter algum problema!)? Será que o meu filho não é um homem, assim, com H maiúsculo? Será que a sua sexualidade desviada está mostrando indícios desde a mais tenra idade? Será meu filho UM GAY? (Ouço as cornetas do apocalipse).

Respondo com a continuação da história: ao perceber qual era a sua brincadeira, eu tirei a pomada das suas mãos, limpei seu rosto (acho que foi o Bruno que limpou, na verdade) e dei, então, um pincel limpo, igual ao que eu estava usando, para que ele pudesse brincar sem o risco de passar algum produto nos olhos, ou de ter alguma irritação na pele. Não, eu não briguei com ele. Não fiz questão de frisar que essa era uma brincadeira de menina, nem substituí a pomada por um carrinho ou bonequinho de luta. Eu não ensinei, assim como não pretendo ensinar nunca, que a nossa sociedade possui papéis de gênero imutáveis, aos quais ele precisa se adequar desde bem novo, a fim de levar uma vida normal e correta.

E ele, apesar de ser um legítimo exemplar masculino da raça, brincou com o pincel alegremente (por cinco segundos, porque aí ele cansou e foi procurar outra coisa, daí em cinco segundos ele cansou também e foi procurar outra coisa, e assim por diante). Mas a aversão dos homens por coisas de mulheres não deveria ser natural? O cromossomo Y não deveria fazer com que Miguel automaticamente rejeitasse tudo o que não é másculo e viril? Os papéis de gênero não são parte integrante da nossa natureza, uma coisa intuitiva, à qual todos as pessoas normais se encaixam sem maiores percalços, exceto os degenerados?

Pois bem, pleno 2013 (Feliz ano novo pra todo mundo, a propósito) e a gente tendo que dizer que não. Que isso tudo é CULTURAL, não natural. E usar os nossos próprios filhos como exemplo. O que vocês acham que aconteceria se Miguel pudesse crescer, sem que ninguém dissesse para ele de que forma ele deve se comportar, para que suas ações sejam condizentes com o órgão sexual que ele traz entre as pernas? Pois muitas pessoas, ao ver Miguel brincando de passar maquiagem nos olhos, prontamente o reprimiriam, dizendo que isso não é coisa de menino. Diferentemente, é claro, se Miguel fosse Maria. Aí, essa minha filha hipotética, ao me imitar passando maquiagem, seria encorajada, como a minha sobrinha é, por exemplo, e, aos 3 anos, já adora passar esmaltes nas unhas.

É possível que mesmo sem essa repressão, Miguel, ao perceber que os outros humanos com pênis ao seu redor agem diferente dos humanos com vagina, “aprenda”, por identificação, que essa atividade “não é para ele”. Apesar de eu ainda sonhar com um dia em que essas influências não sejam tão uniformes, é preciso encarar a realidade e reconhecer que a sociedade ainda é bastante binária e nós reproduzimos esse padrão diariamente, ainda que, muitas vezes, sem nem perceber. Mas, justamente por sonhar com esse mundo, é que eu faço questão de não reproduzir esse binarismo, pelo menos não no meu discurso oficial com o meu filho. Ele pode até querer só brincar com carrinhos, ao ver que esse é o brinquedo preferido de todos os seus amiguinhos. Mas ao entrar em uma loja de brinquedos, jamais será repreendido se quiser comprar uma barbie. Ou brincar de passar maquiagem, ou colocar uma roupa rosa. O mundo já repreende tantos dos nossos desejos, ninguém precisa de uma mãe que também faça isso.

Em tempo: o que define se uma pessoa é homossexual é o desejo sexual/afetivo por outra pessoa que tem a mesma identidade sexual. Resumindo: se alguém que se identifica com o gênero masculino sente atração somente por pessoas que também se identificam com o mesmo gênero, ela será homossexual. Nada além disso. “Ser homem” e ter a voz fina não configura. “Ser mulher” e não gostar de maquiagem não configura. É um conceito muito simples pra tantas pessoas escorregarem tanto, né. Além disso, somente a própria pessoa tem o direito de se identificar como qualquer coisa. Como homossexual, inclusive. Fazer isso por ela já é uma agressão.

“Amar o próprio corpo.” Tem pra vender?

O tamanho único não cabe mais em mim. Eu já desconfiava disso há algum tempo, mas foi no sábado, quando precisei trocar um presente que eu ganhei, que a realidade bateu com força na minha cara. A loja tinha dezenas de opções de um estilo de roupa na qual, até alguns anos, eu sempre me senti super confortável: decotadas, curtas, justas, coloridas, com brilhos etc. Um combo piriguete glam que sempre me vestiu como uma luva.

Mas a moda diz que você não pode celebrar o seu corpo se não estiver dentro do peso. Não pode exibir as pernas, o espaço entre os seios, marcar as curvas, atrair os olhares. E ela faz isso nas suas inúmeras propagandas povoadas por sílfides. E, claro, vendendo roupas “chamativas” num tamanho único, que obviamente não chega nem perto do G. Até porque, qual a gorda que vai querer evidenciar sua feiura? O certo é se esconder atrás de roupas largas, pretas, sem modelagem. Sem vida, sem graça.

Eu olhava para as roupas na arara e mesmo sem vestir já sabia que elas não passariam nesse quadrilizinho que mamãe, papai, e anos de junk food me deram de presente. Por um momendo, senti vontade de não existir. E hoje eu posso dizer: era mais fácil ser contra o padrão de beleza, quando eu estava dentro dele. Era mais fácil me solidarizar do que viver com essa voz interna que praticamente te acusa de um crime, quando bate a vontade de repetir o prato.

Ainda estou tentando lidar com esse sentimento. Não me lembro, nunca, na minha vida, de viver qualquer problema de auto-estima. Sempre me achei linda, divina, sensacional. Até quando eu estava grávida, e com uma penca de questões emocionais para resolver, eu cultuava a minha barriga, me achava poderosa. Mesmo naquelas exaustivas primeiras semanas depois de parir, assim que eu consegui ganhar as ruas portando a minha calça jeans, me senti sambando com toda a minha beleza na cara da sociedade. Agora, não sei mais.

Olho para as fotos e vejo um braço roliço que não deveria estar ali. Olho no espelho e me deparo com uma barriga que eu não sei daonde surgiu. Meu quadril está deixando o manequim 42 para trá e eu tenho medo de experimentar roupas novas e ter que admitir que 44 é o meu número agora e não tem choro nem vela. Tenho medo do sutien que marca no ombro. Da dobrinha que salta por cima do cós. Das assaduras no meio das coxas quando se usa vestidos. Essas coisas que as mulheres “tamanho único” não têm. Mas eu sim.

Só que hoje eu resolvi parte do problema de uma forma que eu não recomendo. Entrei numa loja para passar o tempo. Só que a tal loja tinha tamanho G. E tinha brilhos no tamanho G, e decotes, e transparências. Eu não precisava comprar roupas, precisava sim era amar meu próprio corpo, mas isso não tinha, só tinha roupas para vender. E daí eu comprei, gastei os tubos, mandei parcelar e vou passar o reveillon de piriguete-glam-mãe de família. Quando voltei, ainda mandei para dentro uns salgadinhos de camarão que estavam dando sopa na cozinha do trabalho. Porque eram salgadinhos de camarão, e minha religião determina que eu não rejeite nunca. E enquanto eu comia, e me desesperava, pensando em como eu vou fazer para pagar as benditas das roupas, eu resolvi assumir que agora eu sou gorda e que essa porcaria desse padrão que vá pro inferno. Eu ainda não amo essa moça gorda que resolveu aparecer na minha vida. Mas tem amores que são assim: precisa de tempo pra apurar.

P.S.: Justamente quando eu estava pensando nesses assuntos, alguém na minha timeline me indicou essa matéria excelente da TPM: Eu não visto 38. E daí? Vale a pena.

A via crúcis da creche pública

Miguel vai para a creche no ano que vem. Uma mistura de necessidade com escolha. Necessidade porque eu preciso trabalhar e, consequentemente, preciso ter onde deixá-lo. Escolha porque ainda que eu não precisasse, é provável que eu estaria trabalhando mesmo assim, e porque diante das opções que tenho, eu escolhi a creche pública. Me parece a mais adequada.

Mas não há vagas para todas as crianças. Você sabia disso? No meu caso, precisei inscrevê-lo em quatro escolinhas diferentes, que colocaram o nome dele numa urna, e encaminharam para o sorteio. Isso mesmo: sorteio. A escola convoca os responsáveis pela criança para comparecerem em tal dia e tal horário, e vai tirando os nomes da urna, um a um, definindo assim quais os sortudos que terão vaga, e quais os menos sortudos que precisarão aguardar o ocasional surgimento de uma na lista de espera.

No primeiro sorteio que fui, Miguel ficou na 89ª posição da lista de espera. Na segunda escola demos sorte: depois que a diretora reservou um determinado número de vagas para as crianças que moram no bairro em que a escola está localizada, ainda sobraram algumas e, desta vez, o nome de Miguel foi chamado logo. Ainda assim, fui a um terceiro sorteio, no meu bairro. E nesta, apesar do papelzinho que me entregaram trazer o número 62, nem a posição na lista de espera sei ao certo. Da quarta eu desisti, pela dificuldade que teria ao levá-lo e porque ele já tinha uma vaga garantida.

Ainda que existam esses ajustes – muitos pais como eu, para ter mais chances, inscrevem os filhos nas escolas do seu bairro e na de bairros vizinhos, mas querem apenas uma vaga -, obviamente, se existe sorteio é porque não há vagas para todo mundo. E porque, num passado recente, muitas mães dormiam nas portas das escolas por vários dias, antes da data marcada para a matrícula, para garantir a vaga, já que o sistema privilegiava quem chegasse primeiro. Digo mães, porque é esta a lembrança que tenho: mulheres – mães, tias ou avós – dormindo em barracas, às vezes até acompanhadas das crianças, por noites e noites seguidas.

Nos sorteios, a realidade também não foi tão diferentes. Nos dois que fui durante a semana – um logo no início da manhã, outro no final da tarde – a presença de mulheres era avassaladora. Em nenhum dos dois havia menos de 100 pessoas e, dentre essas, não era possível contar nem 10 homens. Já no sábado, dia do último sorteio, a situação era completamente diferente: mesmo sem contar, poderíamos dizer com segurança que a proporção estava perto do 50-50. É que no sábado, suponho eu, muitas pessoas não trabalham. Já nos outros sorteios, certamente houve quem precisou chegar atrasada ao trabalho, ou sair mais cedo, ou mesmo perder um dia de serviço, para garantir a creche do filho. E se sacrificar pelas crias é uma obrigação materna, correto? Não é a gente que padece no paraíso?

Até porque esse negócio de precisar de creche começou com essa ideia mutcho loca que algumas mulheres tiveram de que o seu espaço produtivo não deveria ser somente o doméstico. Que nós deveríamos ter condições de escolher, e que, por necessidade financeira ou por prazer, se decidíssemos trabalhar, deveríamos ter suporte do Estado, com políticas que incluem locais onde deixar nossos filhos, mesmo que eles ainda não estejam em idade escolar.

Ainda que, hoje, o trabalho feminino seja uma realidade consolidada na maioria das famílias (falo aqui de famílias “tradicionais”, casal heterossexual com filhos, não porque as considero um modelo, mas porque é nessa realidade que a crítica cabe, ok?), mostrando que as mulheres atuam em outros espaços, além do doméstico, isso não significa dizer que houve a mesma caminhada no outro sentido: a gente ainda usa o termo “ajudar” para descrever a contribuição dos homens nas tarefas de casa, o que significa que eles definitivamente não ocuparam com a mesma intensidade o ambiente doméstico. E, se os cuidados com esse ambiente incluem os cuidados básicos com os filhos, incluem obviamente os cuidados com sua rotina na escola ou na creche. Exemplos paupáveis: qual a proporção de pais e mães nas reuniões de escola do seu filho? Quem normalmente confere para saber se a professora mandou algum recado? Quem passa o estresse de perambular papelarias em busca de materiais no início de cada ano?

Não há vagas porque como diz a minha mãe: “nenhuma mulher hoje quer mais depender de marido e ficar em casa cuidando das crianças” (Inshalá!). Mas não há vagas, realmente, porque o Estado não se adequou na mesma velocidade para atender a nós, essas mulheres. Até porque também não são somente as famílias miseráveis que desejam uma vaga numa creche pública. Além da economia que isso representa (peguei, por curiosidade, um panfleto de uma creche particular com algumas atividades mais diferentes e o custo mensal é de absurdos 980,00 por meio período), todas as escolas mantidas pela Prefeitura que visitei parecem excelentes. A escola na qual matriculei Miguel oferece, inclusive, aula de libras aos alunos – uma diferença que me fez torcer duplamente para que ele fosse sorteado justamente ali.

Confesso que por algum tempo eu ponderei se não seria mais “justo”, eu, que com alguns ajustes teria condições de contratar uma babá ou até matriculá-lo em uma escola particular, desistir dos sorteios, deixar a vaga para alguma família que necessite mais. Só que eu estudei em escola pública toda a minha vida. E desde sempre me imaginei enviando meus filhos para as mesmas instituições. Convivendo com as diferenças, com realidades menos abastadas, aprendendo a brigar por um direito, e não apenas pela entrega eficaz de um serviço. Acho, inclusive, as escolas particulares uma aberração, no meu modo socialista de ver a vida. Aberrações necessárias num determinado contexto atual, mas, ainda assim, aberrações que não teriam o porquê de existir em tão larga escala no meu mundo ideal, em que as escolas públicas têm boa estrutura, os professores são valorizados, a comunidade se empenha em discutir evoluções no currículo escolar e, claro, há vagas para todos. Enquanto esse mundo ideal ainda não chega, a gente se degladia civilizadamente nos sorteios.

Ou nem tão civilizadamente assim: quando uma criança que tem irmãos é sorteada, conquista a vaga para si e para os outros também, automaticamente. Uma decisão muito sensata para impedir que mães tenham que deixar filhos em várias escolas diferentes. Num dos sorteios, a diretora pegou o nome de uma criança, que tinha outros dois irmãos gêmeos, totalizando três vagas. Não foram poucos os gritos para que a vaga fosse dada para apenas um deles (o que não aconteceu, claro.) É horrível, eu sei, mas é o que o desespero faz com as pessoas às vezes.

Até o fim

Hoje, alguém que eu não conheço me deixou uma mensagem no Facebook, com um link para um vídeo no Youtube. Quando eu abro, me deparo com a seguinte mensagem: “Este vídeo foi removido por violar a política do Youtube que proíbe a apologia ao ódio.” Ando vivendo dias de Lola, desde que publiquei este texto em resposta às reclamações mais recorrentes dos brancos de classe média, estudantes de escola particular, com relação às cotas nas universidades. Na época de sua publicação, o texto teve uma repercussão enorme para o tamanho deste blog. Foram mais de 30 mil visualização únicas num dia, e incontáveis recomendações em outros blogs e nas redes sociais. Recentemente, o texto teve uma outra rodada de divulgação, depois de ter sido utilizado lindamente, com algumas adaptações, pela galera que fez este vídeo.

Obviamente, quando você faz um texto denunciando os privilégios que as pessoas têm e defendendo uma política que estremeça esses privilégios, em nome da igualdade real de oportunidades, espera-se que as reações sejam virulentas. Mas eu não podia contar que seriam tantas, nem tão virulentas. Não sei se os produtores do vídeo já esperavam por isso. Talvez por fazerem parte de um coletivo negro, e, portanto, por sofrerem com o racismo diariamente, a previsão deles tenha sido mais aproximada da triste realidade do que a minha.

Eu na verdade, espero mesmo que eles sejam mais fortes do que eu, e recebam todo esse ódio sem tanta desolação. Até porque, curiosamente, os insultos que foram feitos a mim não se comparam nem de longe, aos feitos no Youtube contra a menina que narra o texto no vídeo. Curiosamente, ela é negra, e eu sou branca. Desta forma, as poucas pessoas que vieram aqui me dizer que eu deveria estudar ao invés de querer as coisas de mão beijada, foram as que pressuporam que eu era negra. No Youtube, podemos chamar isso de elogio, diante dos outros insultos. Ironicamente, as pessoas que a mandam pentear os cabelos, a chamam de coitada, a acusam de estar promovendo uma guerra racial, um racismo contra os brancos, com a intenção de se beneficiar injustamente disso, alegam que o fazem, justamente para denunciar o racismo. O racismo dela, que fique claro! Curiosamente, 98% (vou colocar assim, porque não tive estômago para ler todos os comentários) dos comentaristas que dizem tais coisas são brancos. Pois é.

Todo esse lixo sugou um bom tanto da minha energia nos últimos meses. Se antes eu supunha que seria difícil receber mensagens diárias de ódio, por causa do backlash que atinge tod@s que lutamos por um mundo menos desigual e violento, hoje eu sei o que isso significa e não desejo para ninguém. Desta forma, meu afastamento temporário das atividades blogueiras não foi à toa: eu pretendia esperar que a poeira contaminadora baixasse. Mas hoje, quando eu recebi esse link, eu percebi que não posso mais. Eventualmente, ainda que se passem anos, alguém poderá encontrar esse texto, me encontrar em meus muitos espaços, e destilar o seu veneno novamente. Porque os babacas são muitos. Mas nós, que queremos um mundo melhor para todos, somos mais fortes. E ainda que tenhamos o direito de nos recolher vez ou outra,  nos voltar para dentro, nos enchermos de um pouco de luz, se todo mundo fizer como eu fiz e sentar na calçada para esperar o ódio passar, talvez chegue um dia em que não seremos mais. E que todos os deuses nos livrem desse dia. Da minha parte, sigo firme aqui…

A CULPA NUNCA É DA VÍTIMA

Estou pensando em mandar fazer uns adesivos com a frase: A CULPA NUNCA É DA VÍTIMA e sair colando por aí.

Porque, de repente, o que está faltando é repetição, para ver se todo mundo aceita que A CULPA NUNCA É DA VÍTIMA.

E, de repente, eu também faça um cartaz para levantar toda vez que alguém vier discutir casos de estupro comigo.

“Ah, mas a mulher estava bêbada” a pessoa pode dizer. E daí eu nem preciso responder nada, só levanto a plaquinha com um A CULPA NUNCA É DA VÍTIMA em letras bem garrafais.

Talvez role também de mandar fazer uns carimbos pra sair marcando cada notícia de jornal em que as pessoas ousem discutir a postura de uma vítima de estupro.

Logo em cima da linha que disser: “a mulher usava roupas chamativas” eu carimbo um A CULPA NUNCA É DA VÍTIMA em uma tinta tão forte que talvez até suje o peixe que o jornal irá embrulhar no outro dia.

Porque eu prefiro acreditar que é por ignorância, e não por maldade, que as pessoas fiquem sabendo de uma notícia como a das duas meninas estupradas por 10 integrantes de uma banda na Bahia e tenham o despacho de dizer que elas provocaram os caras, que elas não deveriam ter ido ao show, que elas não deveriam ter ido ao ônibus tirar fotos com seus ídolos, que a relação foi consensual e elas estão mentindo pra conseguir fama, que elas são faladas na cidade, então não merecem crédito, ou qualquer outra babaquice que relativiza a culpa dos ÚNICOS culpados pelo crime: os estupradores.

Em casos de estupro, existem vítimas, as pessoas que foram estupradas, e existem agressores, as pessoas que as estupraram, e eu não entendo a dificuldade em se aceitar isso de forma definitiva. Você pode ser virgem ou não. Pode estar usando uma minissaia ou uma burca. Pode estar dentro de casa assistindo novela ou em uma festa bebendo com os amigos. Nenhuma dessas coisas é crime e qualquer pessoa tem o direito de fazê-las. Não é a sua conduta que determina se alguém irá te estuprar, mas sim a conduta dessa pessoa. Para que um estupro não aconteça, basta que ninguém estupre ninguém. E aí, a pessoas pode estar com a roupa que for, que a violência não vai acontecer. Então, o que determina o fato: a postura da vítima ou do agressor?

Chega de impunidade. Chega de culpabilização da vítima. E, para aproveitar o post, chega de “piadas” com estupro também, não é mesmo? Certamente, pessoas como os cantores da Bahia acham elas muito engraçadas, mas não é o caso de quem tem consciência do grave problema que ainda é a violência sexual. E aí, fecha nesse pacto comigo?

Denise Leitão Rocha vai posar para a Playboy. E a gente com isso?

Quando eu vi a notícia de que a Denise Leitão Rocha – a assessora do Senado que teve um vídeo íntimo divulgado sem o seu consentimento e perdeu o emprego por causa disso  - vai ser capa da Playboy, senti um arrepio percorrer pela espinha.

É que, quando o caso todo estourou, eu escrevi sobre ela no Blogueiras Feministas, então imaginei, pelos comentários chegados na época, que muitos estariam se regozijando com a informação: seria a prova definitiva de que ela não era vítima coisa alguma, e estava, na verdade, muito feliz com a “fama” conquistada, até mesmo prolongando-a,  se é que não foi a própria que divulgou o vídeo por aí, começando com a história.

Acontece que não é de hoje que os fatos são torcidos, relativizados, quando temos uma mulher como vítima. Existe um fato que é a agressão sofrida por Denise, ao ter um vídeo íntimo seu divulgado sem o seu conhecimento. Mas até a validade da palavra da vítima é contestada, como é comum vermos em casos de estupro, por exemplo, e até mesmo de pedofilia. Levante a mão, quem nunca leu, ao abrir a caixa de comentários de uma notícia sobre estupro num grande portal, alguém aventar a possibilidade de que a mulher está mentindo, ou provocou o estupro de alguma forma. Isso é relativizar os fatos. Considerar que, pelas razões que sejam – normalmente ser mulher basta – a pessoa é considerada suspeita a priori. Isso é negar o que os fatos, em si, dizem: que aconteceu um estupro, um abuso, uma agressão.

Outra forma de relativizar os fatos é diminuir sua importância, devido a uma característica qualquer da vítima. Se uma mulher que for estuprada trabalhar como prostituta, por exemplo, grande parte das pessoas coloca a violência sofrida por ela em segunda instância, e passa a considerar que, por trabalhar com o sexo, o trauma sofrido não deve ser grande, afinal de contas se ela recebe para fazer sexo com desconhecidos, porque reclamar de uma relação sexual? Como se ali não houvesse um fato: o de que uma mulher foi obrigada, em determinado momento, a ter uma relação sexual com alguém. Como se sexo consensual tivesse algum ponto de encontro com o estupro. Como se a prostituição – ou estar bêbada, ou usar roupas curtas, ou estar sozinha em casa, ou ir a uma festa sem um homem do lado, a lista é imensa – tornasse alguma mulher menos cidadã, portanto, menos merecedora do direito inviolável à segurança do próprio corpo.

Voltando ao caso de Denise, desde o princípio sua agressão foi relativizada: questionavam o porquê de uma mulher se deixar ser filmada; questionavam se ela não estaria gostando da repercussão, visto que divulgava com frequência fotos sensuais na internet; questionavam até o porquê de ela “esculpir” tanto o seu corpo, se não objetivava ficar famosa com ele de alguma forma; e claro, aventavam a possibilidade de ela se aproveitar do caso para ganhar algum dinheiro com um ensaio para a Playboy, se é, é claro, que não foi a própria quem divulgou o vídeo, justamente para se beneficiar da repercussão que ele teve.

Na resposta a todos os comentários desse tipo que chegavam eu fazia questão de frisar – e quero repetir agora – que nada disso interessa, ou melhor, nada disso, deveria interessar. Porque esses questionamentos apenas jogam fumaça sobre o fato inegável de que um vídeo íntimo de Denise foi divulgado sem o seu consentimento, o que é uma agressão, um crime que precisa ter punição. Não interessa o que Denise fez ou fará da sua vida, qual a sua índole, sua intenção, ou quanto dinheiro ela pode ganhar agora que está “famosa”. Há um crime, há um vítima e, portanto, precisa haver um agressor, e precisa haver justiça, essa tal entidade que dinheiro nenhum ganho com ensaio na Playboy substitui.

Denise há de ter suas razões para posar na Playboy – podemos discutir o quanto a revista contribui para o reforço da mesma cultura machista que designa Denise como puta, só por deixar-se filmar fazendo sexo, mas isso já são outros 500 – e definitivamente tem o seu direito: posar nua não é crime no Brasil, e sendo ela maior de idade, de posse de suas capacidades mentais, não vejo porque condená-la por usar sua liberdade sobre o seu próprio corpo da forma como bem entende. Ganhar dinheiro? Que seja. O que não pode é outra pessoas usar seu corpo seu permissão, usar sua imagem permissão, e isso ser colocado em segundo plano por causa de coisas que nem deveriam ser discutias. Divulgar imagens íntimas de outra pessoa sem o consentimento dela é crime e ponto final. Eu luto para que o agressor de Denise seja punido. O resto? Não é da minha conta. E nem da sua.

Sobre cotas (again)

Eu acho que já falei o suficiente sobre cotas nesses últimos dias, mas ficou faltando uma coisa, daí eu vou pedir licença pra Mary W e fazer uma republicação de um texto que tá no blog antigo dela. E que é genial demais e explica melhor do que qualquer coisa que eu poderia dizer a diferença entre cotas sociais e cotas raciais, por que ambas devem existir e por que as cotas sociais sozinhas não resolvem o problema. E com isso eu acho que posso encerrar os trabalhos sobre esse assunto, por enquanto. Respondo nos comentários o que der, mas please, leiam o que eu disse antes de vir dar paulada, só pra garantir se eu já não expliquei  o seu ponto discordante. Comentários são sempre bem-vindos, mas você chegar aqui pra dizer que eu sou racista porque disse que os brancos são privilegiados, ou esbravejar que a classe média é que carrega este país nas costas, não vai mudar meu ponto de vista, tampouco levar ninguém a lugar nenhum. E já existe um outro espaço em que você pode se sentir mais confortável. Enjoy it.

A obra de arte em forma de texto da Mary:

“Eu sei que eu escrevi mais de um artigo sobre política de cotas, mas nunca consigo achar nada no meio dos meus blogs espalhados pela web. O que me parece central nessa discussão é algo simples, mas que fica enevoado. Que a política de cotas visa combater o racismo. É uma medida que tem como objetivo diminuir as desigualdades raciais. Tem uma economista do IPEA que escreveu um texto muito bom sobre isso, explicando um pouco a confusão. Ela diz que num país que tem tanta desigualdade social, é difícil demais que as pessoas consigam pensar políticas públicas por QUALQUER outro viés que não seja o de diminuir a desigualdade social. Então a gente usa via torta pra legitimar e fazer passar as políticas públicas que nos interessam e acabamos alimentando a lógica. É assim que nós fazemos com o aborto, quando concordamos em colocá-lo na pauta da Saúde Pública. Nós sabemos que é uma questão de autonomia do sujeito. Mas fingimos que ele tem que ser liberado porque é uma questão social e que as ricas fazem enquanto as pobres morrem. É verdade isso. Mas não deveria ser o caminho da luta. Os fins justificam os meios, mas até chegar no fim as pessoas já estão bem burras. Então o racismo brasileiro. Que está entranhado e precisa ser combatido. Daí essas propostas todas. Que a gente chama de ação afirmativa. E que envolvem desde visibilidade dos negros na publicidade e história da África até política de cotas. São ações que a gente chama de engenharia social. Recebem esse nome porque pretendem transformar a estrutura*, que seria viciada. Você precisa dar uma paulada na estrutura, pra que ela comece a fluir diferente. Uma das coisas que está na estrutura da sociedade brasileira é o racismo. Com todas as consequências psicológicas, sociais e econômicas. Se mudarmos a estrutura, mudaremos as consequências. Veja bem. Maior igualdade social é uma consequência que teremos ao combater o racismo. O que estamos discutindo é essa estrutura que foi historicamente construída para colocar um grupo sempre à margem. E sofrendo as consequências psicológicas, sociais e econômicas de estar à margem. As cotas tem a finalidade específica de aumentar a classe média negra e com isso permitir que o imaginário seja substituído. E que a diversidade tome conta. Que as pessoas no escritório e na cozinha não tenham “cor”. É uma medida que se provou eficaz para a transformação da estrutura. Tanto que ela é pensada de forma provisória. Uma vez estabelecida a classe média negra, os filhos dela estudarão e assim por diante. O que, para mim, é o fundamental é perceber isso. Que não é uma política pública voltada para o combate à pobreza. É corretiva de uma estrutura que todos nós renegamos que tem origem no colonialismo e num dos episódios de maior barbárie da história universal. Aparecem problemas? Trocentos. Na sala tem aluna branca que conta que perdeu o PROUNI pra alguém só porque não era negra. Um colega de mestrado, que morreu de infarto com 30 anos, implementou uma cotas indiretas num morro carioca. Um cursinho de alta qualidade para estudantes negros. E ele, que também era negro, chorou quando um menino branco o procurou, pedindo pra frequentar as aulas. O menino morava no morro, ué. E claro que ele frequentou as aulas. E eu não sei o que aconteceu. Mas ele deve ter tido menos chance que os colegas, por conta das cotas. Ninguém é insensível aos problemas individuais. Ninguém é insensível às desigualdades sociais. Nós estamos, todos, acho, lutando por um mundo mais justo. Essa batalha específica, é sobre racismo. E eu noto que as pessoas colocam renda nessa batalha. E não é por maldade. É porque elas querem que também isso seja resolvido. E todo mundo quer. Mas política pública tem objetivo, tem público-alvo. Sem querer, essas pessoas embolam o meio de campo. Vamos lutar, então, por outras cotas. Mas ESSAS cotas são para negros. E visam combater o racismo.”

A nossa casa

Ele ralha comigo toda vez que eu dobro o tapete do banheiro. Uma mania adquirida da minha mãe, que eu faço, automaticamente, sem qualquer razão. Na casa da minha mãe, o espaço estreito não permite que o tapete seja colocado esticado, mas na nossa casa sim. Ela é pequena, a nossa casa. Bem pequena é importante assinalar. E alugada: a mais barata que achamos com dois quartos e lugar onde pudéssemos estacionar o carro. Mas o tapete cabe inteiro dentro do banheiro, pelo menos. Ainda assim eu continuo dobrando, no automático, sem qualquer razão que justifique. E ele continua ralhando comigo, de brincadeira, e segue contando pros outros, de brincadeira, como a lavagem cerebral que a minha mãe fez em mim foi forte. O exemplo: eu dobro o tapete do banheiro, como a minha mãe faz em sua casa, mesmo que no banheiro da nossa casa caiba o tapete inteiro.

A nossa casa. Essa habitação pequenina: dois quartos interligados, uma cozinha-sala-copa-área de serviço (tudo junto e misturado), um banheiro, uma garagem e um quintal cimentado onde Miguel joga bo-bolas. A nossa casa, sempre uma bagunça. Na garagem, brinquedos de Miguel se empilham, não cabendo nas sacolas nas quais os guardamos, caixas, que não sabemos que destino dar, se empilham aqui e ali. Bo-bolas das que vendem em feiras, de tênis, de futebol, de futsal, de soprar e até de futebol americano, rolam descompromissadas pelo espaço. No quarto de casal, 1 milhão de sapatos, que eu tiro depois de usar e não guardo, tomam conta do chão. Na cozinha, pequenas tralhas sem destino certo vagam ora pela mesa, ora pelo balcão, ora pelo tampo da máquina de lavar, ora pelo topo da geladeira.

Vez ou outra a gente se olha, decide arrumar tudo, pra depois reclamar como o tudo nunca acaba. Mas, na maioria das vezes, a gente só lava as vasilhas pra sujar de novo; afasta as tralhas da mesa para poder caber as panelas e pratos, passa por cima dos sapatos todos para alcançar a cama, e se esparrama lá no fim da noite para ver algum episódio de série, algum filme, alguma bobeira que está circulando internet afora, dormir ou outras mumunhas mais.

Tem só três meses – e um dia – que a tal “nossa casa” existe, mas ela já é um barato.

Essa conversa sim é sobre vocês

O meu texto defendendo a adoção das cotas recebeu uma avalanche de comentários. De início, eu prometi responder a todos, mas nunca imaginei que seriam tantos. De modo que escrevo este texto para esclarecer pontos comuns que grande parte dos comentaristas questionou ou não entendeu.

Primeiro, a respeito da própria natureza do texto. Ao contrário do que pode parecer, não foi um texto sobre as cotas em sua totalidade, mas um texto com um recorte, a respeito do privilégio branco e classe média e o comportamento de tais privilegiados diante da política de cotas. Este não é o cerne da discussão sobre as cotas, muito menos o único argumento existente para defendê-las.

Segundo, como eu disse, costuma ser bem difícil reconhecer os próprios privilégios e a caixa de comentários não faz nada além de reafirmar isso. Privilégio, aos que não entendem, é basicamente aquilo a que alguém tem direito ou acesso, enquanto outro não tem. Parece simples, mas, na verdade, é preciso, antes, que as pessoas aceitem que não existe ninguém melhor do que ninguém, mais merecedor de nada do que ninguém, especialmente quando falamos de políticas públicas.

Pois bem, na prática, isso significa pensar que o traficante da favela, por ser tão cidadão brasileiro como eu e você, merece ser tratado pela justiça com a mesma lisura que eu e você. Ou que o casal gay, sendo eles tão pessoas como quaisquer outras, merece se beijar em público, adotar filhos e se casar, assim como um casal heterossexual. Mas nós sabemos que a realidade não é essa: o próprio Estado, ao impedir que homossexuais se casem, por exemplo, exclui um sem número de pessoas de direitos que deveriam ser acessados por todos e eu acho que eu nem preciso falar sobre o que o senso-comum diz a respeito de casos como os citados, não é? Pois bem, é nesta realidade que se calcam os privilégios.

Voltando ao assunto do texto anterior. Hoje, estudar em uma universidade pública ainda é um privilégio. Não há vagas para todos, ao contrário: para apenas uma ínfima parte da nossa população. É um privilégio, ao passo que a educação é, na verdade, um direito que deveria ser garantido pelo Estado a todos os seus cidadãos. Quando chegamos a uma universidade (acreditem, senhores comentaristas, eu não sou uma estudante negra de ensino médio que estou defendendo as cotas apenas por que quero uma vaga. Eu já sou graduada em uma universidade federal, inclusive) nós percebemos que esse privilégio, o de estudar em uma universidade PÚBLICA, é da população branca e classe média. Usarei o meu exemplo: quando eu entrei na UFES, fui acompanhada por uma estudante negra e, creio que, por não mais de 15 estudantes pardos. Numa sala de 50 alunos. Entre nós, certamente, não havia nem 5 estudantes provenientes de escolas públicas. As consequências disso, eu não preciso dizer; o IBGE, muito mais gabaritado, faz isso por mim:

“No grupo de pessoas de 15 a 24 anos que frequentava estabelecimento de ensino, houve forte diferença no acesso a níveis de ensino pela população segmentada por cor ou raça. No nível superior, encontravam-se 31,1% dos brancos nesse grupo etário, enquanto apenas 12,8% dos pretos e 13,4% dos pardos.

Ao se observar a posição na ocupação entre brancos, pretos e pardos, observou-se uma maior representação das pessoas que se declararam brancos entre os grupos com proteção da previdência social (empregados com carteira de trabalho assinada, militares e funcionários públicos estatutários), assim como entre os empregadores (3,0% entre brancos, enquanto 0,6% entre pretos e 0,9% entre pardos).”

E isso é o que a gente quer dizer, quando diz que a pobreza tem cara e tem cor. Apesar de eu realmente achar que não há um brasileiro vivo, que não saiba, por vivência, que há mais negros e pardos entres os pobres e mais brancos entre os ricos, parecem que existem sim – entre os comentaristas do último post, por exemplo – ignorantes da realidade brasileira nesta medida, então é sempre bom ter uma estatística da manga ;-) E, por favor, não me venham com essa ladainha de “riqueza e pobreza é uma categoria que depende do referencial” ou “como definir quem é negro e quem é branco num país miscigenado como o nosso?”, porque, bom, por favor, eu não vou nem responder.

E é aí que chegamos a vocês, os tais brancos, classe-média, estudantes de cursinho particular. Vocês, vejam bem, são os privilegiados de hoje, pelo sistema absolutamente perverso do vestibular. E, ao que podemos notar pelos depoimentos dados em jornais, na internet, e na caixa de comentários deste humilde blog, não fazem a menor ideia de que estudar em uma universidade pública é um privilégio, não um direito natural da “classe” de vocês. Educação é um direito que deveria ser garantido a todos e o Estado brasileiro falha, há muitos anos, ao não conseguir empreender isso. E, ao instituir o vestibular como porta de entrada para as universidades, falha novamente, ao permitir que, por tal sistema, um recorte de classe e de renda tão grotesco se construa dentro das universidades. E o Estado, meus queridos, tem a obrigação de corrigir esses erros. O mais rápido possível. Ao contrário do que muitos de vocês pensam, os negros e pobres não podem mais esperar.

Aos que vaticinam que, então, o Estado deveria melhorar o ensino básico para que esses estudantes pudessem chegar em pé de igualdade com os de escola particular ao vestibular, eu pergunto: porque tanto apego ao maldito do vestibular? Se alguém ainda acredita que a prova de vestibular e seus montes de “conhecimentos” decorados é baliza do conhecimento de alguém, eu tenho alguns educadores muito sérios prontinhos para discordar de você. A educação no mundo inteiro está se adaptando para ser mais inclusiva, mais reflexiva, menos avaliativa e você ainda está aí achando que o bom mesmo é fechar a prova de física? Será que você não reparou que até o vestibular brasileiro está mudando, e abraçando mais o formato de prova do Enem, por exemplo, que valoriza mais o raciocínio e a interpretação e menos o decoreba? De resto, é óbvio que o Estado precisa melhorar o ensino básico, o curioso é vocês estarem batalhando tanto por isso ultimamente, justamente no momento em que sentem suas preciosas vaguinhas sendo ameaçadas por esses “coitadinhos” que estão é com preguiça de estudar as mesmas 10 horas diárias que vocês.

Pra concluir, um esclarecimento: não sei quem disse para vocês que a função primordial da universidade é formar eficientes “engenheiros, médicos e advogados” (curiosamente só são citadas essas profissões, as tais “úteis” para a nossa sociedade). E não sei também quem disse que o requisito indispensável para que isso aconteça é tirar boas notas numa prova de vestibular. A função da universidade é fomentar o conhecimento, é contribuir para a formação plena do cidadão, portanto, caso alguém chegue “despreparado” até suas cadeiras (defina despreparado) não é mais do que obrigação dos profissionais ali lotados, prepará-lo! E não é mais do que obrigação da universidade se abrir de todas as formas possíveis para todas as parcelas da população, com ênfase nos que estão hoje excluídos dela, senão, eu me pergunto: para quem está se fomentando o conhecimento? Que cidadãos, nesse universo excludente, estão sendo formados?

Engana-se quem pensa que a política de cotas trata-se, exclusivamente, de dar oportunidades aos que não têm. É também sobre oportunizar às próprias universidades que reescrevam sua história, que representem, de fato, a sociedade brasileira como ela é e que ajudem, assim, a mudá-la para melhor. Afinal de contas, para que serve o conhecimento, senão para nos levar adiante?

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