Pela Jurema (em quem eu queria – e deveria – ter dado um abraço)

Ela estava tão sozinha e tão quieta que passou despercebida quando eu cheguei. Nem cogitei que ela seria aquela. Quando descobri, não consegui tirar os olhos. Fiquei procurando a explicação praquela quietude. Especialmente praquela solidão. Todas merecem ser deixadas assim quietas, mas ninguém deveria estar tão sozinha, sentada no degrau de uma escada, aguardando o momento de poder levar o corpo de um filho até o cemitério. Olhei, talvez tempo demais, procurando me conectar com seus olhos, talvez demonstrar que eu também sentia. Ecooei num enorme vazio.

Ela se chama Jurema. Hoje, e por algum tempo, acredito, vai ser mais conhecida como a mãe do Luiz Felipe. Três anos. Morto, após levar um tiro, disparado por algum dos envolvidos num tiroteio entre policiais e acusados de algum crime. Dormia na cama da mãe, dentro de um barraco no Morro da Quitanda, zona Norte do Rio de Janeiro. Foi atingido no rosto. Não havia salvação.

Por alguma razão vi a foto. Alertaram-me para a feiura, mas olhei por poucos instantes. E sempre tão contrária a essa exposição tão desavergonhada de desgraças internet afora, me peguei pensando: será isso? Será isso o que falta? Vermos todos o grotesco desastre que um tiro que atinja bem o meio do rosto de uma criança tão pequena pode causar? Ver que ali já não sobra mais rosto, e sim um buraco? Ver que não há mais sangue, não há mais sorriso, não há mais vida e nem nada?

No segundo seguinte, como sempre, pensei: e se fosse o meu menino? Meu menino de 3 anos? Se fosse eu, acordada por um barulho em plena madrugada, olhando para o lado e encontrando, ao invés do filho, um corpo, um buraco, uma poça de sangue. A morte.

Mas dificilmente seria.

Dificilmente seria o meu menino. Tão branco e loiro. Filho de uma jornalista. Que mora dentro de um bom condomínio, num bairro de classe média. Que estuda numa boa escola particular e tem um bom parquinho à disposição pra brincar. Que vai à praia de carro. Come balas sempre que possível. Tem, não apenas um, como dois bonecos do Homem Aranha. E uma fantasia completa, com máscara e tudo. Que viaja de avião e passa férias nas avós.

Que tudo o que conhece sobre ‘tiro’ é um conceito. Armas, apenas as que empunham os bonecos de ação que passam na propaganda da tv a cabo. Policial é apenas aquele moço simpático que deu ‘boa noite’ certa vez, quando passamos. Bandido, somente uma figura abstrata do mal. Que ainda não precisou ser apresentado ao significado da morte. Nem as verdadeiramente trágicas.

Ao lado da casa onde vive o meu menino, não há tiroteios. Nunca dormimos, eu e o meu menino, com medo de que algum de repente se iniciasse. Nunca cogitamos a ideia de entrarem no nosso prédio, policiais, bandidos, ou que seja, com armas em punho, prontos para atirar.

Atormenta-me o fato de que o meu menino não é, em essência, melhor do que nenhum outro. Porque dorme, então, tão mais seguro do que tantos outros?

Do que aquele menino. Luiz Felipe. Apenas um menino. Só um menininho. Pequenininho. Atingido com um tiro no meio do rosto. Enquanto dormia. Que absurdo! No fim de semana, a gente esquece. Do filhinho da Jurema. Para sempre com três anos.

Uma tentativa de ‘obrigada’

Ser criada de acordo com os preceitos da doutrina espírita significa ser apresentada desde sempre ao conceito de ‘caridade’. Nenhuma novidade. Caridade e espiritismo é uma associação tão esperada quanto feijão e arroz. Há quem diga até que se reconhece um bom espírita, pelo tanto que ajuda os necessitados. Não é de todo irracional. Mas talvez só sendo criada de acordo com os preceitos da doutrina espírita pra saber que caridade não é bem ‘ajudar os pobres’ como é de comum definição.

O ‘tomar o todo pela parte’ da palavra acabou por criar uma abominação. Ao mesmo tempo em que todos admiram a beleza do ato, quase ninguém quer ser destino de caridade. Ninguém quer ser o desgraçado. O desfavorecido. O pobre coitado. Caridade é aquilo que a gente faz pelos outros em busca de redenção, não aquilo que a gente precisa que os outros façam com a gente.

Tolice.

Eu acabo de receber um ato lindo de caridade. De gente conhecida, o que é mais terrível: precisarei encará-las muitas vezes, e ver o algoz que me trouxe algum conforto nas mãos. E ainda venho anunciar a “desgraça” aos quatro ventos.

No Houaiss, “Caridade: substantivo feminino. Virtude teologal que conduz ao amor a Deus e ao nosso semelhante” O resto? Pura derivação por metonímia.

Caridade em sua definição primeira não é mais do que virtude. Donde concluímos que de nada vale um ato, sem intenção verdadeira. Caridade em sua definição primeira é somente e grandiosamente, aquilo que nos liga ao amor divino, e por consequência – tendo ainda o espiritismo como base e considerando que todo amor deriva do Criador – ao amor ao próximo.

Amor e caridade, quando honestos – não me perguntem como verificar tal coisa – são, portanto, irmãos siameses. Nascem unidos. E unidos por tantos órgãos que, pode-se dizer, olhando por determinado ângulo, que chegam a ser uma coisa só.

Podemos dizer então que o que recebi, na verdade, foi amor. Um tantão de amor. Amor manifestado em intenção, multiplicado em ação, transfigurado em objeto. Amor pra mais de metro. Amor pra dar e vender. Amor daquele tipo, que enche o coração da gente. Me digam, então, em que mundo isso pode ser feio? Porque razão eu haveria de esconder?

Acontece que quem é criada de acordo com os preceitos da doutrina espírita também aprende que caridade não se alardeia. “Que sua mão esquerda não saiba o que sua mão direita fez”, disseram na Bíblia (ou algo semelhante). Portanto, fica aqui o registro do agradecimento sem que eu precise dizer pelo quê. Vocês sabem quem são ;-)

O assalto

em uma linha:

“Mãe, o moço levou sua bolsa embora e por isso você tá triste né?”

O moço chegou não era nem meio-dia. Na verdade, quem chegou fomos nós, porque o moço já estava lá: moto parada, capacete no braço, esperando a pessoa ideal passar. Passamos.

Na bolsa, tinha o celular comprado há três dias. Fui ousada e paguei 500 reais nele. Porque era lindo. Câmera boa. Um monte de memória, daria pra usar a internet na rua à vontade. Eu estava apaixonada e ele morreu. Se eu precisasse contar a história brevemente, seria isso.

Tinha o celular do trabalho. Que era velho e feio. Mas a bateria durava uma semana. E quebrava um puta galho.

Tinha a minha carteira. Com tudo que uma carteira existe pra guardar. A identidade que eu tirei quando tinha doze anos. O CPF que eu fiz no aperto, porque era indispensável pro vestibular da UFES. A carteira de doadora de sangue, nunca mais usada depois que eu engravidei. Fotos 3X4 do Bruno, de um dos meus irmãos, de um amigo de nome Paulo Ricardo. Fotos minhas, – duas, eu acho – tiradas em épocas diferentes. Cartões de crédito e de lojas. Cheques. – pro caso de- . 23 reais. Algumas moedas. Um papel com a oração de Cáritas, que a minha mãe me deu sabe Deus quando.

Tinha o gravador. Que eu comprei com duas semanas de EBC. Na primeira vez em que eu pisei na Uruguaiana na vida. Porque era difícil pra burro conseguir um estúdio disponível pra gravar entrevistas por telefone. Então eu gastei do meu bolso pra ter o aparelho que gravava no telefone da minha mesa. Porque eu podia ficar à toa, já que não tinha como gravar. Mas eu estava empolgadíssima e queria trabalhar pra caramba.

Tinha o óculos de sol Rayban aviador. Com o qual eu sonhei por muitos anos. Finalmente pude comprar quando saiu a minha rescisão da Prefeitura de Aracruz. Que eu me lembre, foi a primeira coisa cara e desejada que o meu primeiro emprego me deu. A primeira coisa que eu comprei, com o primeiro dinheiro considerável que habitou a minha conta no banco.

Tinha so óculos de grau. Que eu demorei pra caramba pra comprar. E não era o mais barato da loja, como os comprados anteriormente. Hastes vermelhas. Pra ver se assim eu lembraria de usar. Tava dando certo.

Tinha um pendrive e canetas. E um bloquinho com uma porção de telefones de gente que eu entrevistei nos últimos oito meses. Uma necessarie com maquiagens diversas. O batom vermelho, a respeito do qual, os colegas de trabalho sempre falam. O antialérgico que salva meu humor. O crachá que me identifica como repórter e me deixa chegar perto das notícias que essa cidade fabrica.

As chaves de casa. E junto das chaves, o chaveiro. Aquele, que o Bruno me deu com poucas semanas de namoro: metade de um coração, cuja outra metade está unida às chaves dele.

Normalmente, alguma dessas coisas seria esquecida em casa. Quando não os óculos de grau, usados para ver tv à noite, e deixados em cima do sofá, então os óculos de sol, que poderiam ter chegado no dia anterior ainda sobre o rosto, tendo sido abandonados na mesa da copa, tão logo eu tivesse pisado dentro de casa. Muitas vezes, foram os celulares – um ou outro, ou ambos – ainda plugados à parede da cozinha, pelo carregador. Outras tantas, um dos cartões, tirados da carteira para finalizar alguma compra feita pela internet.

Hoje, não faltava nada na bolsa. Os óculos de sol pro calor escaldante que faz no Rio de Janeiro. Os de grau, pra quando eu preciso enxergar a cara de quem fala lá na parede oposta, numa coletiva de imprensa. O cartão do banco pro caso do dinheiro do ônibus acabar. O gravador, pra quando a fonte só está acessível pelo celular.

E fora da bolsa:

A correntinha de ouro. Que estava quebrada e eu paguei 35 reais, não tem nem dois meses, pra consertar. Porque eu não conseguia mais ficar sem usar a minha correntinha, com o pingente de um menininho pendurado. O menininho: Miguel. Também presente do Bruno.

Miguel tinha sete meses quando começamos a namorar. No dia em que a gente resolveu que ia ficar junto, ele me deu o pingente. Pra representar que ‘ele sabia onde tava se metendo’. Que respeitaria minhas prioridades e restrições, como mãe de um bebê. E que tava entrando nessa história disposto a segurar essa pica comigo. Assim é. Se não fosse, o pingente estaria lá pra cobrar.

Agora há pouco, tomando banho, eu passei a mão pelo pescoço, para contornar a correntinha e passar o sabonete – como todos os dias – e ela não estava lá. Não tenho pudores de dizer que eu chorei, como uma porção de outras vezes ao longo do dia. Uma mesquinharia de sofrer por objetos “que o moço levou embora”. Objetos apenas. Será?

P.S.: Nas paredes das delegacias, sempre tem cartazes com fotos de crianças desaparecidas. Além de poder ajudar na identificação de vítimas, eu acho que os cartazes servem pra dar uma perspectiva pra gente. Têm pessoas que roubam nossos celulares e bolsas. Já outras roubam nossos filhos. Não deixo de me sentir imensamente aliviada por ter sido ‘vítima’ do primeiro grupo.

P.S. 2: Tinha um bocado de gente na rua, na hora em que o assalto aconteceu. Um homem, depois de me ver abaixada consolando Miguel, chegou e disse: “Eu achei que ele era seu marido. Ele era branco, né?”

P.S. 3: O policial na delegacia me atendeu com absoluta diligência e atenção. Mas também incorreu no mesmo “erro”: “O elemento era negro?”. “Não. Era branco”. Podíamos ter dormindo sem essa.

Canção para conseguir confiar

Sinto uma dor de cabeça constante, que sobe do pescoço e vai se espalhando até chegar pungente demais nos seios da face. E só posso confiar que não seja um tumor, que vai me tirar a vida em seis semanas, nesse tempo nada sensato que eu espero até procurar um médico.

A gente confia, né, o tempo todo, que não vai morrer.

Não hoje, nem amanhã.

Confia que todos os carros conterão pessoas prudentes dentro e que nenhum deles vai te atropelar. Que todas as pessoas estarão felizes e sãs e ninguém vai entrar atirando a esmo justo no 238 que demorou vinte minutos pra passar. Confia que o coração vai seguir batendo no seu ritmo. Que as veias do cérebro seguirão íntegras e deixando passar o sangue. Que a tubulação de gás não vai explodir na hora em que se aperta o botão pra ferver a água do arroz. Que nenhum móvel do décimo andar do prédio onde se passa vai cair. Que o assaltante vai manter o dedo longe do gatilho. Que os pervertidos serão interrompidos. Que os raios passarão longe. Que o pedal do freio sempre será encontrado. Que as células se reproduzirão conforme o protocolo. Que a água que cai do céu, seguirá tubulação adentro até chegar no mar.

Que o filho vai te encontrar no fim do dia e vai pegar o livro da estrela do mar, deitar do seu lado no colchão, fazer cara de sofrimento e dizer: “ah, tadinha”. “Tadinha por quê?” “Porque o tubarão mordeu o bracinho dela”. “Mas o que acontece depois?” E aí ele vai rir, virar a página e dizer, com a cara mais sinceramente forjada de surpresa: “Ah! Cresceu de novo!”

A gente confia que vai viver, mas, only god knows why, não confia que a vida vai ser boa. Que o emprego vai sair. Que a roupa vai caber. Que a pessoa vai amar de volta. E vai te respeitar. Que as pessoas vão ler. E que vão gostar. Que vai parar de doer. Que alguém vai te entender. Que o dinheiro vai dar. Que o tempo vai abrir. Que o que tá ruim vai mudar. E o que está bom vai continuar. Que a verdade está sendo dita. Que não vai ter engarrafamento. Que o exame não vai mostrar nada. Que o paracetamol vai ajudar. Que o bracinho vai crescer de novo e nenhum tubarão mais vai arrancar. Por quê?

This is one man’s world

Imagine uma realidade em que todas as outras seis bilhões de pessoas que habitam o planeta não importam. O que vale é o que você quer, e todos se curvam diante do seu desejo. O que importa é visão que você tem sobre as coisas: o que você acha legal assim o é, assim como aquilo que você acha ofensivo. Um mundo em que você tem o direito e o poder de influenciar definitivamente a vida de cada um desses seis bilhões (e contando!).

Maravilhoso? Assustador?

Podemos perguntar ao autor deste texto. Certamente ele sabe como é viver nesse mundo imaginário.

Um cara que odiaria viver em um mundo em que ELE não pode elogiar uma mulher que passa na rua. Porque, obviamente, o mundo e as outras pessoas devem se moldar àquilo que ELE gosta de fazer.

Um cara que luta pelo direito DELE de lembrar a estranhas como elas são bonitas. Porque, para ELE, sempre que isso acontece, a Terra interrompe o seu movimento de rotação para que o momento se eternize.

Um cara que sabe que todas as mulheres que já foram tocadas por estranhos no mundo, deveriam ter ido à delegacia ao invés de reclamar na internet. Assim como tem certeza de que todas as mulheres que ouviram um ‘linda’, vindo de um estranho, na vida, se sentiram automaticamente felizes e agradecidas. Porque, em sua onisciência, ELE conhece a trajetória de vida de cada uma delas, o contexto em que a agressão ou o elogio aconteceram, e sabe o que se passa em suas cabeças. E aquela que o desmentir, está mentindo, obviamente.

Um cara que sabe que muitos homens têm dificuldade em se portar frente a uma moça desconhecida. E que, como ELE pode ser um desses caras e nada mais importa além do sentimento DELE, as moças têm mais é que ser compreensivas, caso a única forma de comunicação aprendida por ELE seja dizer um ‘gostosa’, ao invés de um ‘oi, tudo bem?’

Um cara, que do alto do seu conhecimento universal sobre linguagem e socialização, sabe que um ‘gostosa’ não passa de um ‘elogio bruto’. E se um ‘elogio bruto’ é a única coisa que ELE tem a dizer, não é porque a mulher a quem o elogio se dirige pode se ofender, que ELE vai se conter, não é mesmo? Até porque não existe direito mais inviolável do que o DELE de dizer o que ELE tem vontade de dizer.

Um cara que depois de muita observação empírica sobre a formação de casais heterossexuais na atualidade, sabe que não há meio termo: ou a mulher aceita o elogio bruto e se abre para o início de uma conversação, ou o cara fica com cara de paspalho, babando pelo canto da boca. Porque, somente ELE é sujeito de ação no seu mundo. O objeto de conquista não se move, não inicia nada e é incapaz de demonstrar interesse.

Um cara que sabe que, no fundo, o que toda mulher precisa depois de um dia cansativo de trabalho, é saber o quanto um homem que ela nunca viu na vida, considera sua aparência física digna de nota. Até porque, com quê humor esta mulher chegará em casa, para cuidar do jantar e alegrar o marido, sem esse turning point definitivo, que homens como ELE tem o poder de desencadear?

Um cara que adora receber elogios, brutos ou sofisticados, de qualquer mulher com quem ELE tope pela rua (somente mulheres, claro, porque receber elogio de algum ‘viado’ não é elogio, é provocação) e que sabe que todos os homens se sentem da mesma forma. Porque ELE é a régua do mundo e o que serve para ELE, serve para todos. É até estranho que algumas mulheres se ofendam com algo que ELE considera tão maravilhoso!

Um cara tão generoso que pediu permissão à mulher que tem em casa, antes de escrever no veículo que paga suas contas. Porque, claro, apesar de magnânimo, ELE também é um cara sensato e engraçado. E todo mundo, assim como ELE, acha muito engraçada essa piada novíssima sobre o fato de mulheres serem víboras que controlam os maridos, como um dono controla seu cão se estimação.

Fica a dica pros sites feministas: da próxima vez que alguma autora tiver essa ideia inútil de consultar mulheres para saberem como elas se sentem a respeito das palavras que são dirigidas a elas, não percam seu tempo. Perguntem para o autor desse texto. ELE sabe com o que as mulheres devemos nos incomodar e o que deveríamos deixar em paz. Afinal de contas, ELE sabe tudo. O mundo é DELE.

A pessoa por trás da palmada

Eu dei um tapinha no meu filho hoje. Digo “tapinha”, sem eufemismo. Foi um tapinha mesmo, que (acredito eu, pelas evidências) não doeu, não deixou marcas, que ele nem notou no meio do próprio descontrole emocional. Corrijo: não doeu nem deixou marcas nele. Em mim, está incomodando bastante. Pelo motivo de que eu não concordo com o castigo físico de crianças. Ainda que eu tenha apanhado do meu pai e tenha sobrevivido, tenho cada vez mais convicção de que bater não educa criança alguma. De que a gente bate quando o descontrole se exacerba, depois dos argumentos não terem produzido o resultado esperado. De que a gente bate porque pode, porque tem direito, porque é mais forte.

E também porque a vida não é bolinho.

A vida – não só a minha – de forma geral, não é bolinho. Pra começo de conversa, grande parte da sociedade ainda acredita piamente que a agressão é via legítima de solução de conflitos. E dá-lhe brigas no trânsito; brigas nas escolas; brigas nas festas; violência doméstica; violência policial; xingamentos; yadda yadda. A gente nasceu nesse ambiente, cresce e se forma nele e, ainda que tenhamos uma convivência familiar ou escolar harmônica, a bolha em algum momento se rompe. Vivemos em um mundo literalmente agressivo. Se você aprendeu a “não levar desaforo para casa” ou que “se apanhar na escola, vai apanhar dobrado em casa” a coisa se complica. Se você aprendeu que uma infração leve significa puxão de orelha, e uma infração grave significa surra de cinto, então, nem se fala. E é incontestável que a maioria das pessoas que materna hoje, foi criada com o auxílio de castigos físicos. Se livrar do que fica impregnado na gente, dessa relação, é um processo e ainda que ideologicamente eu tenha me distanciado disso, ficou evidente no meu tapa, que a ‘assepsia completa’, nos meus modos e relacionamentos, ainda há de levar algum tempo. Estou tentando ser condescendente comigo mesma e aceitar que estou no caminho, mas não é fácil.

Em segundo lugar, o mundo também é um lugar simbolicamente agressivo. A maioria das pessoas trabalha muito; descansa pouco; corre demais pra resolver ‘os problemas’.  Maternadores, na maioria das vezes, fazem tudo isso e ainda maternam. Com o adendo de que, ao nos responsabilizarmos pelo cuidado de outro ser humano, é muito comum que tenhamos que trabalhar mais, descansar menos e resolver mais problemas. Isso não nos desculpa, mas talvez seja interessante voltar ao meu caso. O meu descontrole veio quando eu me vi, a dez minutos do horário de deixar Miguel na escola para que eu pudesse ir trabalhar, lidando com uma criança relutante em vestir o uniforme e deixar-se calçar os pés. Agressivamente relutante, porque ainda novo, Miguel também já percebeu o mundo em que vive e já começou a responder de acordo. Como eu disse, a rotina apressada não nos desculpa de agressões, mas certamente, se não houvesse horário de trabalho, se não houvesse horário escolar, se não houvesse eu sozinha lidando com uma criança e uma rotina, Miguel poderia ficar pelado pelo tempo que quisesse e vestir a roupa que quisesse depois. Não haveria imposição, não haveria resistência e não haveria tapa.

Esse raciocínio me leva a um inegável recorte de classe que, ao meu ver, precisa ser considerado quando discutimos Lei da Palmada, por exemplo. Parece, para mim, muito claro, que se apenas a Lei vier, as chances de que ela só puna maternadores pobres seja grande. Pra começo de conversa porque pobres são conhecidamente mais vulneráveis a se encontrarem com o lado punitivo das leios. E, em segundo lugar, pelo simples fato de que as chances são muitos maiores de você se descontrolar com uma criança quando se é pobre e trabalhar é uma imposição; num horário que não permite flexibilizações; tendo pouca ou nenhuma opção de cuidado alternativo, além da única creche ou do único cuidador auxiliar possíveis; precisando fazer longos trajetos casa-escola-trabalho em um tempo curto; e muitas, muitas vezes, como mãe, sendo a única responsável pela criança.

Isso não chega a inviabilizar a aprovação da lei para mim. Mas, infelizmente, parece que as discussões andam girando apenas em torno dos direitos dos pais de ‘educarem’ os filhos com os métodos que bem entenderem. Eu, particularmente, acredito que crianças sejam cidadãos merecedores de direito, e devam ter esses direitos garantidos, para além do julgamento de seus genitores, o que significa dizer, que eles devem ter a integridade física e emocional garantida, ainda que os pais não concordem. Mas acho que precisamos realmente discutir como a lei será aplicada e como facilitar a rotina de quem cuida dessas crianças, para que ela não precise ser aplicada. Senão, estaremos colocando apenas mais uma bola nesse malabarismo que os maternadores pobres fazem diariamente – não raras vezes, mães sozinhas – e ainda por cima, com uma pistola apontada para a cabeça.

Blog parado para uma vida idem. SQN.

Às vezes, quando eu voltava pra casa do trabalho de carro, e parava em algum lugar, ou o trânsito estava lento, dava sete horas. Eu ficava ouvindo A Voz do Brasil e pensando: “eu podia ter passado nesse concurso”. E falando: “eu podia ter passado nesse concurso, Bruno. Ia resolver uma parte da nossa vida”.

Eu tinha plena certeza que eu não tinha passado nesse concurso, portanto. Quer dizer, passado eu até tinha. Na posição 206, quando a necessidade inicial da empresa era de 88 jornalistas. Era a mesma coisa que não passar.

Nada que houvesse me desesperado, no entanto. Foi o primeiro concurso que eu fiz na vida. Quando ele foi anunciado, Miguel tinha acabado de nascer e a licença-maternidade, se servia para o propósito, porque me deixava tempo para estudar, também não servia para o propósito, porque no tempo que eu tinha, eu precisava cuidar de um bebê que não dormia muito; dormir o que desse; e estudar. No dia da prova – que eu precisei fazer no Rio de Janeiro – meus peitos estavam quase estourando de tanto leite retido. Eu tinha amamentado Miguel na tarde do dia anterior; tinha esquecido de levar a bombinha de extração; e era uma produtora de leite de fazer inveja em algumas vacas. E leite retido dói um monte, para quem não sabe. Eu saía da sala de meia em meia-hora para tirar o que dava com massagem manual e sofria durante todo o tempo. Considerei 206 uma posição muito digna diante de tudo, portanto, porque às vezes a gente precisa ser compreensivo com a gente mesmo. Ainda que essa ‘vitória’ não tenha me dado coisa alguma.

Até que.

As coisas não estavam boas. Eu estava frustrada por não realizar nenhum mísero sonho profissional. Eu ainda tenho 25 anos, mas sou uma pessoa ansiosa. – Não julguem – E acabara de passar por um mega stress no trabalho da época, por causa da minha grande boca facebookiana, sempre pronta para críticas certeiras,  que nem sempre agradam todo mundo. Eram quase cinco da tarde e eu olhava meu e-mail, como quem olha para o vazio, enquanto falava com o Bruno pelo celular. A mensagem explodiu na minha cara: Convocação do Concurso EBC.

CON-VO-CA-ÇÃO DO CON-CUR-SO E-B-C.

Eu ia narrando pro Bruno, enquanto eu lia, porque alguém precisava me certificar de que eu estava vendo o que eu estava vendo.

Era isso. E isso era tudo.

Ser convocada nesse concurso significava que eu tinha grandes chances de voltar a ser repórter. E que eu poderia trabalhar em veículos bem legais como a Agência Brasil, a Tv Brasil,  ou a Rádio Nacional. E que eu iria morar numa cidade grande. Essa cidade ficou definida alguns dias depois: eu ia morar no Rio de Janeiro. Rio fucking de Janeiro. Eu seria incapaz de contar quantas vezes eu sonhei que algum dia eu moraria no Rio de Janeiro. Desde o dia 1º de abril, eu moro. E se deixassem, talvez eu mudaria meu nome para Tâmara Freire Mora no Rio de Janeiro Cardoso, de tanto que essa realidade me felicita, ainda que me surpreenda.

O caso é que eu andava absolutamente descrente de que qualquer revolução poderia acontecer na minha vida. Pode parecer dramático, exagerado, mimizento. Mas era exatamente o que eu sentia. Eu considerava que todas as coisas haviam passado. Estavam perdidas. Que eu talvez conseguisse voltar pra Vitória e só. Porque o salário de jornalista era ruim. E eu era mãe solteira. E eu tinha um filho pra criar. E eu não podia ficar me arriscando por aí com menino a tira-colo. Porque é perigoso. Porque vai que eu fico sem dinheiro para sustentar a criança. E essas noias absolutamente loucas que a responsabilização materna produz na cabeça da gente.

Mas eu passei na p* do concurso. E vim pro Rio de Janeiro. E trouxe menino à tira-colo ainda que sozinha. E, óbvio, que o fato de ser um funcionária concursada de uma empresa do Governo Federal resolve uma enorme parte da coisas. Porque o medo de não poder prover o básico não tem mais razão de existir, mas os outros eu ainda estou enxotando inch-by-inch. E a gente tem se virado, ainda que sozinhos, na maior parte do tempo. Acreditando na imprevisibilidade da vida. E que ela acontece para o bem também. Não só pra sacudir a gente de cabeça pra baixo. Ainda falta uma parte bem importante para que se complete a coisa toda. Mas a vida vai muito bem, obrigada.

Só não me sobra tempo pra postar :/

Então, aí fica o meu informe, para alguém que, por ventura, ainda me lê.

A revolução do sertão

Acabo de ler a reportagem O Bolsa Família e a revolução feminista no sertão, publicada no site da revista Marie Claire. E de me emocionar com ela. O start para a reportagem é uma pesquisa elaborada por uma antropóloga da Unicamp, sobre os impactos que o Bolsa Família está causando na realidade de mulheres do sertão do Brasil. Como a maioria de nós deve saber, há uma diretriz do Governo Federal para que as titulares do Bolsa-Família sejam a mãe, a mulher responsável pela família. Vi em algum lugar que não me lembro onde – portanto, há risco de equívoco, mas arrisco-me em dizer mesmo assim – que esta decisão é para evitar que o dinheiro seja usado para outras coisas, e não para o sustento da família. É que os homens poderiam gastá-lo com bebida, por exemplo, ao invés de colocar comida na mesa dos filhos. Já com as mulheres esse risco é muito pequeno, pois a maioria delas, até por um fator cultural eu faço questão de acrescentar, coloca as necessidades dos filhos em primeiro lugar.

Eu já ouvi discussões em grupos feministas sobre o fato de essa decisão – a de colocar a mãe como responsável pelo benefício – acabar endossando o senso-comum de que a função de cuidar da família e dos filhos deve ser majoritariamente feminina. Ao fazer isso, o Governo estaria dizendo para essas mães que é papel delas, e delas exclusivamente, zelar pelo sustento de suas crias, já que o pai, naturalmente alguém que se dedica menos a elas, poderia botar o dinheiro fora com vícios e outros supérfluos somente de seu interesse. Eu discordo bastante disso, e a matéria me emocionou também por apresentar dados que vão justamente ao encontro do que eu penso.

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Como uma das mulheres que participou da pesquisa enfatiza: “Há mais liberdade no dinheiro”. E quem pode discordar? A luta feminista hoje é, na maioria dos grupos, para que todas as mulheres possam escolher que forma de vida irão levar, o que significa, num exemplo que se aplica ao assunto, que a mulher deve poder escolher se irá se dedicar a sua vida profissional apenas, se irá cuidar dos filhos apenas, ou se irá mesclar essas duas funções. E que deverá contar com o apoio do suposto parceiro, caso decida ter um parceiro e ser mãe, e este deverá dividir com ela, com a igualdade que a realidade de ambos permitir, o cuidado com a casa e com os filhos.

Mas, todos sabemos que se a realidade não é assim hoje - as mulheres ainda são responsáveis por quase todo o trabalho doméstico, mesmo quando trabalham fora -, há algumas décadas, a realidade urgia para que a luta feminista fosse para que as mulheres pudessem e optassem pelo trabalho remunerado, justamente porque a inexistência desse dinheiro era um dos principais fatores que mantinham mulheres em casamentos infelizes e abusivos, vítimas inertes da violência doméstica. Com filhos, sem trabalho e sem formação, como enfrentar a cultura que apregoava que a mulher digna era a mulher casada, e abandonar o casamento? Como sobreviver sem o marido?

Acontece que muitas vezes nós nos esquecemos que o Brasil possui rincões em que a realidade descrita acima pouco ou nada mudou. Nesses lugares, como a matéria assinala, “o mercado de trabalho é exíguo para os homens. O que esperar, então, de vagas para mulheres.”? Além disso, a estrutura ainda é mais intensamente patriarcal e religiosa. “A mulher está sempre sob o jugo do pai, do marido ou do padre/pastor.” Literalmente sob o jugo, não apenas com as amarras simbólicas que nos prendem a esses atores masculinos nos nossos centros urbanos.

Imagine, então, que diferença não faz, para essa mulher, passar a ter em suas mãos o dinheiro para o seu sustento e para o sustento de seus filhos, sem que ela precise contar com a boa vontade de seu homem. Sem que ela precise suportar agressões e maus-tratos, porque é deste homem que todo o dinheiro provém.

Para essas mulheres, o cuidado com os filhos já é sua função exclusiva. Não há escolha, não há saída à vista, nesses lugares onde “as mulheres são treinadas desde crianças não apenas para servir aos homens, maridos e pais, mas para desejar servi-los” com muito mais intensidade do que acontece nas nossas realidades urbanas. A diferença é que o dinheiro necessário para esse cuidado, agora repousa em suas mãos. Assim como o poder de decisão sobre ele e sobre sua própria vida, por consequência.  Não é mesmo uma linda revolução feminista?

Além de tudo é um tapa na cara daqueles que insistem em dizer que o Bolsa-Família não passa de um programa assistencialista e eleitoreiro que não muda realidade nenhuma e “apenas dá o peixe, ao invés de ensinar a pescar”. Esta matéria é a prova de que 200 reais por mês promovem sim revoluções não somente na vida pessoal dos beneficiários, mas em cidades inteiras. E se o fator humano não é capaz de comover, essa matéria aqui explica como o benefício transformou a economia de pequenos municípios.

Eu sempre achei o argumento de que o programa diminuiu de 12 para 4,8% a faixa da população em extrema pobreza do Brasil bastante suficiente para que eu o apoiasse incondicionalmente. Tirar gente da extrema pobreza significa evitar que pessoas morram de fome. Tirar mais de 7% da população brasileira da extrema pobreza significa, mais precisamente, evitar que uns 12 milhões de brasileiros corram o risco de morrer de fome. Pra mim, isso é mais do que bom. Agora que eu confirmei que, além disso, ele está mudando a vida de uma porção de mulheres, que antes viviam sem qualquer perspectiva de autonomia e independência, não há deus nesse mundo que me faça deixar de amá-lo.

Deseducando meninos

Noite de reveillon. Eu passo maquiagem no quarto, enquanto Miguel brinca com alguma coisa qualquer, ao meu redor. De repente, ele acha sua pomada contra assaduras, abre e começa a enfiar seu dedinho gordinho na abertura e passar o conteúdo pela cara.

- Miguel, pelo amor de Deus, o que você tá fazendo? Vai irritar seu olho! Pára com isso!

E daí eu observo que ele estava tentando passar a pomada na pálpebra, imitando exatamente o que eu estava fazendo: passando sombra nas minhas pálpebras. Ele estava brincando de passar maquiagem.

Vejam bem: Miguel não recebeu este nome à toa. Assim como praticamente todos os integrantes da raça humana dotados de pênis, ele foi designado arbitrariamente, antes mesmo de nascer, como um exemplar masculino da raça. Um menino. E, desta maneira, passou a ser identificado com um nome correspondente. Um nome de homem, de menino: Miguel.

Além de ter um pênis, Miguel não sofre de qualquer alteração genética ou nos seus órgãos internos. Ele também tem saco escrotal, testículos o que indica uma enorme probabilidade de que ele tenha mesmo a configuração XY no seu DNA. Por que, então, ele, um menino, um menino legítimo, estava brincando de passar maquiagem? Esta ação exclusiva das integrantes femininas da raça, adorada, inclusive, por todas nós mulheres (quem não gosta tem que ter algum problema!)? Será que o meu filho não é um homem, assim, com H maiúsculo? Será que a sua sexualidade desviada está mostrando indícios desde a mais tenra idade? Será meu filho UM GAY? (Ouço as cornetas do apocalipse).

Respondo com a continuação da história: ao perceber qual era a sua brincadeira, eu tirei a pomada das suas mãos, limpei seu rosto (acho que foi o Bruno que limpou, na verdade) e dei, então, um pincel limpo, igual ao que eu estava usando, para que ele pudesse brincar sem o risco de passar algum produto nos olhos, ou de ter alguma irritação na pele. Não, eu não briguei com ele. Não fiz questão de frisar que essa era uma brincadeira de menina, nem substituí a pomada por um carrinho ou bonequinho de luta. Eu não ensinei, assim como não pretendo ensinar nunca, que a nossa sociedade possui papéis de gênero imutáveis, aos quais ele precisa se adequar desde bem novo, a fim de levar uma vida normal e correta.

E ele, apesar de ser um legítimo exemplar masculino da raça, brincou com o pincel alegremente (por cinco segundos, porque aí ele cansou e foi procurar outra coisa, daí em cinco segundos ele cansou também e foi procurar outra coisa, e assim por diante). Mas a aversão dos homens por coisas de mulheres não deveria ser natural? O cromossomo Y não deveria fazer com que Miguel automaticamente rejeitasse tudo o que não é másculo e viril? Os papéis de gênero não são parte integrante da nossa natureza, uma coisa intuitiva, à qual todos as pessoas normais se encaixam sem maiores percalços, exceto os degenerados?

Pois bem, pleno 2013 (Feliz ano novo pra todo mundo, a propósito) e a gente tendo que dizer que não. Que isso tudo é CULTURAL, não natural. E usar os nossos próprios filhos como exemplo. O que vocês acham que aconteceria se Miguel pudesse crescer, sem que ninguém dissesse para ele de que forma ele deve se comportar, para que suas ações sejam condizentes com o órgão sexual que ele traz entre as pernas? Pois muitas pessoas, ao ver Miguel brincando de passar maquiagem nos olhos, prontamente o reprimiriam, dizendo que isso não é coisa de menino. Diferentemente, é claro, se Miguel fosse Maria. Aí, essa minha filha hipotética, ao me imitar passando maquiagem, seria encorajada, como a minha sobrinha é, por exemplo, e, aos 3 anos, já adora passar esmaltes nas unhas.

É possível que mesmo sem essa repressão, Miguel, ao perceber que os outros humanos com pênis ao seu redor agem diferente dos humanos com vagina, “aprenda”, por identificação, que essa atividade “não é para ele”. Apesar de eu ainda sonhar com um dia em que essas influências não sejam tão uniformes, é preciso encarar a realidade e reconhecer que a sociedade ainda é bastante binária e nós reproduzimos esse padrão diariamente, ainda que, muitas vezes, sem nem perceber. Mas, justamente por sonhar com esse mundo, é que eu faço questão de não reproduzir esse binarismo, pelo menos não no meu discurso oficial com o meu filho. Ele pode até querer só brincar com carrinhos, ao ver que esse é o brinquedo preferido de todos os seus amiguinhos. Mas ao entrar em uma loja de brinquedos, jamais será repreendido se quiser comprar uma barbie. Ou brincar de passar maquiagem, ou colocar uma roupa rosa. O mundo já repreende tantos dos nossos desejos, ninguém precisa de uma mãe que também faça isso.

Em tempo: o que define se uma pessoa é homossexual é o desejo sexual/afetivo por outra pessoa que tem a mesma identidade sexual. Resumindo: se alguém que se identifica com o gênero masculino sente atração somente por pessoas que também se identificam com o mesmo gênero, ela será homossexual. Nada além disso. “Ser homem” e ter a voz fina não configura. “Ser mulher” e não gostar de maquiagem não configura. É um conceito muito simples pra tantas pessoas escorregarem tanto, né. Além disso, somente a própria pessoa tem o direito de se identificar como qualquer coisa. Como homossexual, inclusive. Fazer isso por ela já é uma agressão.

“Amar o próprio corpo.” Tem pra vender?

O tamanho único não cabe mais em mim. Eu já desconfiava disso há algum tempo, mas foi no sábado, quando precisei trocar um presente que eu ganhei, que a realidade bateu com força na minha cara. A loja tinha dezenas de opções de um estilo de roupa na qual, até alguns anos, eu sempre me senti super confortável: decotadas, curtas, justas, coloridas, com brilhos etc. Um combo piriguete glam que sempre me vestiu como uma luva.

Mas a moda diz que você não pode celebrar o seu corpo se não estiver dentro do peso. Não pode exibir as pernas, o espaço entre os seios, marcar as curvas, atrair os olhares. E ela faz isso nas suas inúmeras propagandas povoadas por sílfides. E, claro, vendendo roupas “chamativas” num tamanho único, que obviamente não chega nem perto do G. Até porque, qual a gorda que vai querer evidenciar sua feiura? O certo é se esconder atrás de roupas largas, pretas, sem modelagem. Sem vida, sem graça.

Eu olhava para as roupas na arara e mesmo sem vestir já sabia que elas não passariam nesse quadrilizinho que mamãe, papai, e anos de junk food me deram de presente. Por um momendo, senti vontade de não existir. E hoje eu posso dizer: era mais fácil ser contra o padrão de beleza, quando eu estava dentro dele. Era mais fácil me solidarizar do que viver com essa voz interna que praticamente te acusa de um crime, quando bate a vontade de repetir o prato.

Ainda estou tentando lidar com esse sentimento. Não me lembro, nunca, na minha vida, de viver qualquer problema de auto-estima. Sempre me achei linda, divina, sensacional. Até quando eu estava grávida, e com uma penca de questões emocionais para resolver, eu cultuava a minha barriga, me achava poderosa. Mesmo naquelas exaustivas primeiras semanas depois de parir, assim que eu consegui ganhar as ruas portando a minha calça jeans, me senti sambando com toda a minha beleza na cara da sociedade. Agora, não sei mais.

Olho para as fotos e vejo um braço roliço que não deveria estar ali. Olho no espelho e me deparo com uma barriga que eu não sei daonde surgiu. Meu quadril está deixando o manequim 42 para trá e eu tenho medo de experimentar roupas novas e ter que admitir que 44 é o meu número agora e não tem choro nem vela. Tenho medo do sutien que marca no ombro. Da dobrinha que salta por cima do cós. Das assaduras no meio das coxas quando se usa vestidos. Essas coisas que as mulheres “tamanho único” não têm. Mas eu sim.

Só que hoje eu resolvi parte do problema de uma forma que eu não recomendo. Entrei numa loja para passar o tempo. Só que a tal loja tinha tamanho G. E tinha brilhos no tamanho G, e decotes, e transparências. Eu não precisava comprar roupas, precisava sim era amar meu próprio corpo, mas isso não tinha, só tinha roupas para vender. E daí eu comprei, gastei os tubos, mandei parcelar e vou passar o reveillon de piriguete-glam-mãe de família. Quando voltei, ainda mandei para dentro uns salgadinhos de camarão que estavam dando sopa na cozinha do trabalho. Porque eram salgadinhos de camarão, e minha religião determina que eu não rejeite nunca. E enquanto eu comia, e me desesperava, pensando em como eu vou fazer para pagar as benditas das roupas, eu resolvi assumir que agora eu sou gorda e que essa porcaria desse padrão que vá pro inferno. Eu ainda não amo essa moça gorda que resolveu aparecer na minha vida. Mas tem amores que são assim: precisa de tempo pra apurar.

P.S.: Justamente quando eu estava pensando nesses assuntos, alguém na minha timeline me indicou essa matéria excelente da TPM: Eu não visto 38. E daí? Vale a pena.

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