A Rosie que me olha da parede oposta, presente de um ex-amor, me lembra que eu já me permiti.

A Frida em relógio, ainda que parado, me lembra que eu não deixei de tentar.

O Almodóvar em trio me lembra que eu nunca me esqueci.

A estante muito boa de longe, nem tão boa de perto, me lembra que eu arrisquei e não me importei de falhar.

O porta retrato com quatro fotos da criança ainda em bebê me lembra que tudo passa. Seja bom ou ruim.

A planta já morta me lembra que muita coisa, ainda que muito importe, um dia acaba.

E aquela que ainda vive me lembra que muito do que importa, ainda que em condições adversas, resiste.

O cigarro me lembra que certos crimes compensam.

O rosé me lembra que a gente precisa, às vezes, que ao menos uma coisa seja doce.

O vizinho pendurando roupas me lembra que o mundo existe a despeito de mim.

A almofada bordada me lembra que as pessoas também existem a despeito de mim, mas algumas delas existem também para mim. Voluntariamente.

O sofá outrora muito bege me lembra que há desejo; a vitrola, que há ousadia; o disco dos Doces Bárbaros, inconsequência. E tudo se paga.

Caetano me lembra de tudo. Sempre. Neste momento: que é doce também morrer… nesse mar de lembrar.

A Casa me lembra que é minha. Assim como eu também sou.

 

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