Essa fresta na parede. Vê? Eu fui fazendo para o sol poder entrar. Primeiro eu fiz um furo, tão pequeno que ninguém além de mim podia ver. Mas cada dia eu me levanto, passo um café, ando até a parede e cutuco pra arrancar mais um pedacinho. Agora olha só: já passa um dedo inteiro e nem precisa ser um dos mindinhos.

Hoje, eu futuquei um pouco mais do que nos outros dias, confesso. Eu tentava trocar olhares com o sol e consegui. Nossas íris se eriçaram diante de telas. Cada par de um lado. E ele, claro, nem sabia que era visto por mim, porque mentir?

Mas que importa? Foram dois segundos – se tanto! – e três movimentos de suas chamas – belíssimos – e meu coração se aqueceu. Agora ele repousa morno – suponho -, ali, do outro lado da fresta – é o lógico -, e eu aumento, cada dia um pouquinho – religiosamente! – essa fresta, porque a vontade é de andar pra fora da casa, comprar um balão, e voar até ele.

Pra não me consumir em fogo, eu olho. Eu o sei. E me basto.

 

 

 

 

 

 

Anúncios