Eu te amo.

Mas eu preciso me afastar de você.

Por uma noite. Talvez dois dias, talvez três semanas inteiras. Sentindo a ausência e o desejo, mas nenhum sofrimento. E você talvez não entenda, mas eu consigo ver… Você também precisa se afastar de mim. Você precisa de uma noite, dois dias, três semanas para ser todas as coisas que você não é na minha presença. Porque juntos somos aquela entidade impalpável. Imutável. Inescapável. Juntos a gente se engole. Você e eu, tornados elementos de uma mesma oração, viramos aquela coisa que se supõe acima de todas as outras, antes mesmo que eu ou você tivéssemos nascido. Para muito além do dia em que eu e você tivermos desaparecido.

Juntos a gente se excede.

Dia desses você olhou para mim e falou mais alto, ríspido. Olhos crispando, daquela raiva e incompreensão pueril. Outro dia, fui eu que gritei e você se encolheu com medo. Embolado no canto do sofá, como se eu tivesse dois metros e meio, além dos meus um metro e sessenta. Mas isso, posto que é fagulha e não chama, em um momento mais breve do que se possa supor, passa. E a gente volta reconfortados pra nossa existência de pedra sob o fogo, tranquila e morna.

É quase um rigor ritualístico. Nos últimos instantes do dia, lado a lado na cama que fica encostada na última parede do ultimo quarto, do nosso apartamento que é o último no canto direito do primeiro andar, a gente põe os pingos sobre os “is” e todas as outras letras. Eu no canto do meu travesseiro mais próximo ao seu, você no canto do seu travesseiro mais próximo ao meu, falamos sobre as expectativas frustradas – não são, de alguma maneira, todas? -, e sentimentos sufocantes – há algum, sob algum prisma, que não é? -. Amalgamados, tanto pressionam até espocar num estampido. Viram gritos, que eu não queria e você não pôde evitar. Com bem quereres e carícias, colocamos o indesejado em sua caixa, pronto para ser arquivado no armário de todas as coisas que não deveriam ter acontecido. Mas isso, posto que é clique em meio a ruído, também passa. E decorridas algumas horas, a gente volta a se exasperar.

Basta um pó de coisas, um copo, uma veste, um olhar. Basta que eu tenha chegado com disposição melancólica. Tenha te encontrado repleto de mimos não satisfeitos. Que estejamos ambos assim-assim ou assado-assado. No instante anterior à ação é quase possível tocar o fluido do que ainda está para acontecer. Premente. Crescendo nesse encrispando raivoso. Até que…

A onda que passa deixa na areia essa figura metade tomada pela culpa, metade pela confirmação da clarividência. Dividida como um círculo: um terço de segurança, um terço de abominação, um terço de indecisão: não sei se escondo ou não uma das partes anteriores com a outra. E qual das duas faz o papel de faca. E quando.

Argumentos à mesa, me diga: a gente não precisa se afastar um tantinho que seja?

E voltar com as nossas almas aradas e férteis. Aguardando a semeadura de novos embalos. Regados com o re-conhecimento sem esses ressaltos de agora. Uma novidade aqui, uma permanência acolá… Fluindo como seiva em dia quente. Porque, você sabe: eu te amo numa medida que minha colher medidora, ou régua ou trena não são capazes de mensurar. E ainda que impreciso em sua gigantesa, isso é o suficiente para eu vaticinar que a gente volta. A gente sempre volta. Porque a gente sabe antes mesmo de desconfiar que somos as rodas. E amores intermináveis, posto que ciclos, precisam de suas rodas pra recomeçar.

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