Eu costumo participar da campanha de Natal dos Correios, e sempre ouvi pessoas reclamarem na hora de buscar suas cartas, sobre como as crianças cada vez mais pediam coisas caras, como bicicletas e computadores, e muitas vezes, por isso, acabavam sem presentes. Era perceptível o tom de acusação: “como crianças tão pobres ousam pedir coisas tão inatingíveis, ao invés de se contentarem com aquilo que lhes é permitido sonhar?”

Eu nunca cheguei a dizer algo assim publicamente, mas confesso que me programava para ir até alguma agência tão logo a campanha começasse, e não correr o risco de encontrar apenas cartinhas pedindo coisas mais caras e acabar no meio de uma berlinda.

Até que eu tornei mãe.

E me lembrei que em meio ao frenesi da descoberta do gênero de Miguel, me permiti gastar 150 reais na sua primeira roupinha, verde água, toda de veludo, que foi usada na maternidade e está guardada comigo até hoje. À época, 150 reais era 10% do meu orçamento mensal. Nem pensei: “parcela aí em três vezes”.

Hoje, Miguel com cinco anos, eu não saberia nem dizer quantas vezes estiquei a corda do meu orçamento, para comprá-lo algo mais caro, mas muito desejado; para levá-lo em algum passeio mais sofisticado; para atender a um pedido fora de hora. A gente faz concessões o tempo todo para os nossos filhos queridos e merecedores, mas achamos um absurdo quando a mesma inocência do desejo acomete crianças de classe sociais menos abastadas que a nossa. Como ousam querer o mesmo que nossos filhos querem?

Lembrei dessa história de novo, ao ver no perfil de amigos do Facebook, que a Rede Record estava transmitindo uma matéria sobre uma menina de 11 anos, que fazia unhas em troca de sete reais para ajudar a família. Um explícito exemplo de trabalho infantil, que já havia sido romantizado nas redes sociais, e estava sendo romantizado novamente. Segundo o programa, a história “emocionou a internet”.

Na época em que a história da menina foi postada no Facebook, por uma pessoa “bem intencionada” que queria apenas divulgar o trabalho dela, para que ela tivesse mais serviço e pudesse ganhar mais dinheiro, houve uma enxurrada de comentários parabenizando-a pela iniciativa de ajudar a família. Houve quem lembrou que aquilo era trabalho infantil, mas as críticas logo foram abafadas por novos comentários a favor: o que a gente preferiria? Que a criança, ao invés de trabalhar, estivesse passando fome, se prostituindo ou roubando?

Taí um dilema que jamais será imposto ao meu filho, quando ele completar seus onze anos. Miguel naturalmente estará na escola, possivelmente fazendo alguma atividade extraclasse de sua escolha, certamente começará a pedir privacidade para curtir a vida com seus amigos, e é esperado também que comece a estabelecer algumas barreiras na nossa relação, já que, com um pé na adolescência, iniciará seu caminho como indivíduo plenamente autônomo. Trabalho, para o Miguel, será o que é hoje: ajudar com as tarefas domésticas, de acordo com suas capacidades, cuidar do seu próprio espaço e rotina.

Como é possível que a gente naturalize tanto que as únicas escolhas para uma criança pobre sejam: 1) trabalhar 2) se prostituir 3) entrar para a criminalidade? Mas que ousadia pensar que ela deveria apenas estudar e brincar, como qualquer outra criança de onze anos, como a minha criança! Ela é pobre! Não pode sonhar tão alto assim!

Entre as milhares de pessoas emocionadas com a doçura da menina, que aceita deixar de brincar porque sabe que a família precisa de ajuda financeira, não houve ninguém que pensasse em ajudar a família; não houve ninguém que questionasse que situação de trabalho é essa a qual está submetida esta mãe, que ainda que se esforce, não consegue prover o básico; mas foram muitas as possíveis clientes, algumas, inclusive, cogitando pagar mais do que os sete reais cobrados, e se disponibilizando a doar materiais de manicure para que ela pudesse continuar trabalhando.

Não por acaso, muitas pessoas que são contra políticas que promovem igualdade social, são pessoas caridosas, que adoram ajudar alguém em necessidade. Não é que elas gostem que crianças trabalhem para não morrer de fome, mas é que é bom saber que a diferença existe: nós aqui, bem nascidos e generosos, eles lá, desgraçados e necessitados das migalhas que a gente quiser oferecer.

 

 

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