Talvez eu tenha que admitir que eu recaí. De novo.

Eu tendo a dizer que é porque eu tenho tomado o homeopático com alguma negligência; que é porque interrompi o ritual noturno, primeiro porque o chá calmante acabou, depois porque a bolsa de gel se rompeu; que é porque o trabalho está difícil como nunca e tem sido uma grande fonte de stress.

Mas o que eu quero realmente dizer é que eu estou bastante irritada e desolada, porque eu consegui estabelecer uma rotina e minha casa está sempre satisfatoriamente arrumada; eu consegui negociar comigo mesmo uma dieta que tem funcionado; eu consegui não gastar quase nenhum dinheiro com inutilidades. Eu consegui controlar três processos importantes, então eu posso realmente dizer que o tratamento não tem dado certo? Mas ainda assim eu caí diante da obsessão.

Começa com um acontecimento pequeno, como se interessar por uma pessoa. E então você começa a se preocupar sobre como vai agir diante dessa pessoa. Depois você começa a se preocupar com as ações que essa pessoa vai ter com você. E a partir daí cada movimento originalmente delicioso se torna, na verdade, uma tortura e você se esquece das reais razões pelas quais está fazendo aquilo. Tudo se torna reforço: você quer que ela te responda para cessar uma preocupação a respeito do que ela pensou sobre você;  você quer respondê-la para iniciar um novo ciclo, porque estamos falando de um processo obsessivo.

Então, a coisa obviamente não dá certo.

E você se pega, num domingo à tarde, enquanto lava as louças de uma festa que deu na noite anterior, fantasiando com ocasiões corriqueiras nas quais poderá cruzar com essa pessoa, para ter a oportunidade de mostrar como você realmente não se preocupa com ela, não foi atingida pelo que aconteceu, sequer se lembra exatamente do que houve… E aí você se dá conta da farsa que constrói continuamente, com todas as situações e todas as pessoas, porque afinal de contas você está num domingo à tarde, enquanto lava louças de uma festa que deu na noite anterior, fantasiando com ocasiões corriqueiras, apenas para ter a chance de mostrar a uma pessoa que você mal conhece que você não se importa com ela. O que é óbvio e não precisa ser apontado.

O pulo do gato é que nada importam as pessoas e as situações. E o mundo te oferece mil soluções fáceis relacionadas a determinadas pessoas e determinadas situações. Mas você sabe que isso não tem nada a ver com as pessoas e as situações. Se trata apenas do seu desejo mais íntimo de que essa ocasião ocorra, e ocorra com essa precisa nulidade de emoções, porque aí você saberá que o processo obsessivo se encerrou. É uma pequena bolinha branca recheada de paz num horizonte longínquo. E é irresistível fantasiar sobre ela, ainda que seja um sofrimento quase insuportável não saber quando ela estará ao alcance das mãos.

Talvez eu tenha mesmo que admitir que eu recaí. De novo.

E que me sinto pessoalmente ofendida pelo tanta de gente sã que existe no mundo e que jamais vai saber o que é isso, a ponto de me dizerem com toda propriedade: “Esqueça isso! Siga em frente! Não se preocupe!”

Não dá pra esquecer de si própria, seguir em frente deixando si mesma pra trás e eu me preocupo com todas as coisas, e todas as suas possibilidades, e todas as suas origens e consequências 24/7.

Já não peço nem desculpa para o acaso por chamá-lo necessidade. Muito menos à necessidade se ainda assim me engano. Eu estou no caminho, ao que parece, mas às vezes dando uns passos pra trás o que é absolutamente exaustivo. E sem saber exatamente pra que lado está a felicidade, que eu espero que não ofenda quando eu puder tomá-la como minha.

Quanto a vocês que são funcionas: durmam bem, seus filhos da puta.

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