Há uns quatro anos eu perdi uma pessoa muito amada.

Me lembrei dela hoje, enquanto preparava o café.

Essa pessoa muito amada tinha gastura de desorganização. Mas também tinha preguiça. Então, quando ela via uma pia com louças sujas amontoadas até o teto, ela arrumava tudo, juntando todos os copos num cantinho, colocando um prato dentro do outro, botando água dentro de uma vasilha e os talheres dentro…

Mas não lavava nada.

Virou piada lá em casa: “fulana arruma direitinho a bagunça. Ela continua lá, mas arrumadinha”

Então, já atrasada para ir ao trabalho (culpem o horário de verão), fui apenas recolhendo os pratos na bancada e os organizando dentro da pia. Quando essa memória me arrebatou.

Faz quatro anos que eu perdi essa pessoa amada. E até hoje eu não compreendo onde é que ela foi parar.

Não foi morte, mas um desaparecimento de gente presente. Que ainda se vê e com quem se mantém laços e alguma relação.

O rosto é o mesmo, mas com feições que desconheço. A capacidade de linguagem segue intacta, mas compondo mensagens que eu nunca ouvi. Estranho muitíssimo as decisões guiadas por essa nova personalidade, que eu não vi se formar, nem sei dizer a partir do quê.

E eu que conhecia tanto, amava tanto, me identificava tanto com a pessoa que eu conheci e perdi, confesso que não sei como lidar com esse novo ser humano que eu não reconheço.

Há coisas cruéis nesse mundo. E há certas doenças.

Que não escamoteiam os suspiros e nem levam nossas pessoas amadas para um outro plano ou para a inexistência.

Pelo contrário, deixam elas ali sem que consigam ser elas mesmas. Ou melhor: sendo elas mesmas mas sem que a gente consiga acompanhar esse “elas mesmas” se transformando numa outra coisa.

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