Eu estou numa casa e as paredes dessa casa são de tijolos, porém não há reboco.

A casa tem seis cômodos bem medidos, mas não há móveis em nenhum deles.

Não há esquadrias nas janelas e as portas são apenas vãos.

Olhando para fora, há um quintal que se perde de vista, com mato alto e abundante e algumas bananeiras.

Esta casa tem o céu como teto. Não porque as telhas acabaram por ser destruídas pelo tempo ou por intempéries, mas porque falta a base e elas sequer foram postas.

Quando faço silêncio, escuto longe um rio que corre. Mas não o vejo nem sei orientar pra onde.

É uma casa de tijolos, sem reboco, pintura ou telhado, solta em um quintal tão grande quanto o próprio mundo. Ela própria é grande, a casa. Fresca e iluminada.

Dito assim, percebe-se a tentativa da superfície de ignorar a verdade profunda: é uma casa inegavelmente espaçosa e agradável. Inegável também é o fato de que nela não se pode morar.

Na sala me encontro sozinha e aos meus pés há um grande contraste.

Sobre o chão que não tem sequer cobertura, mas apenas cimento áspero e cinza, depositei uma toalha finamente bordada.

Sobre a toalha, no centro, pus dois castiçais de prata e um grande vaso de cristal com orquídeas recém cortadas.

Ao redor espalhei travessas, cheias com os mais vistosos e perfumados tipos de comida. Pratos de porcelana fina aguardam para serem usados, juntamente a um conjunto completo de talheres e taças. Uma champagne repousa em gelo. Sobre uma outra pequena toalha contígua idêntica, há doces fartos em suntuosidade e promessas de satisfação.

Sei que fiz o banquete com as minhas próprias mãos. Sei também que bordei as toalhas, colhi as orquídeas, moldei a porcelana e talhei o cristal.

E sei que aguardo…

Mas nenhum comensal virá.

Ou deveria ser esperado.

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