Na primeira dentada na fatia de mamão, veio junto um pedaço de casca e eu quis estraçalhar a fatia toda e escrever SATÃ ESTEVE AQUI com o sumo na parede do elevador.

Na próxima dentada, houve um pequeno espirro que acertou bem a minha bochecha esquerda e eu quis dar uma de Hannibal e cortar a bochecha fora e dar pro cachorro comer.

Nos primeiros passos que eu dei na calçada, um toc-toc diferente anunciava que o salto do sapato perdeu a proteção, e eu quis tirar o sapato, colocar uma bomba atômica dentro e jogar pro alto, extinguindo a humanidade.

Ao chegar ao banco, três pessoas aguardavam para usar o caixa eletrônico e eu quis comprar um enorme despertador, que não apenas produz um barulho ensurdecedor, mas também ativa um taco de beisebol que acerta bem em cheio a cabeça do indivíduo adormecido, e instalar na casa de cada uma delas, acordando-as no susto às cinco da manhã, pra garantir que elas cheguem bem antes de mim no banco, ao invés de me obrigar a esperar.

Quando chegou a minha vez, a máquina não leu o meu cartão imediatamente, e eu fiquei na dúvida se gostaria primeiro de chutar a máquina por duas horas seguidas, ou até quebrar o pé, o que acontecesse primeiro, ou quebrar o cartão em mil pedacinhos e comer.

Então a máquina pediu a senha de letras e números e eu precisei fazer um mini exercício de respiração para controle da ansiedade, para conter o impulso de escrever A PuTa QuE PaRiU Te LeVe PaRa O InFeRNo.

Ao subir no ônibus, o motorista andou dez metros e brecou, andou dez metros e brecou, e eu fui pra frente e para trás, antes de conseguir sentar, enquanto me imaginava voltando para estapeá-lo cinco vezes em cada lado da cara.

Cheguei ao trabalho sã, salva, sem agredir nem ao menos verbalmente ninguém, e se vocês estão aqui lendo isso é porque eu tampouco extingui a humanidade (peço desculpas por isso).

Mas eu não posso mentir pros meus três leitores e meio: como eu quis…

 

 

 

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