Na encruzilhada, cruzei com um despacho. Enquanto seguia para o trabalho. Era um coração de boi, eu suponho, dentro de uma pequena tigela, completamente amarrado em fitas vermelhas.

Confesso ter fitado diretamente por muito pouco tempo o despacho. E senti como se abrisse secretíssimo diário.

Por alguns segundos eu vi não somente o desejo mais profundo de alguém, como uma das coisas que ela é capaz de fazer para saciá-lo. E não se trata apenas de matar um boi ou comprar o coração de um no açougue mais próximo. Tampouco de procurar alguém que aceite dinheiro, presentes ou gratidão, para amarrá-lo em feitiços. Esta pessoa desconhecida, dona do despacho na encruzilhada com o qual eu cruzei, está disposta a produzir submissão.

Que fardo!

Quão desesperador deve ser esse desejo!

Para que essa pessoa tenha saído de casa; matado um boi ou comprado o coração de um no açougue mais próximo; procurado alguém que aceite dinheiro, presentes ou gratidão para amarrá-lo em feitiços; caminhado pelas ruas da Lapa durante a madrugada alta, levando seu coração cruzado em muitas voltas por fita vermelha; despachado na encruzilhada por onde eu passei enquanto ia para o trabalho. E depois tenha voltado para casa para cumprir com o restante de seu ritual e esperar. Não que o objeto de seu desejo se apresente por vontade própria com intenções de amá-la para o resto da vida, mas que chegue trazido à mão pelo inexplicável. Talvez, quem sabe, atordoado. Sem entender de onde saiu vontade tão irresoluta e irracional.

Como há beleza nas coincidências, o amor que essa pessoa espera conquistar, caso adentre sua vida, irá fazê-lo… como gado.

 

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