Tem essas pessoas.

Que. Ao contrário de mim.

Não se distraem durante nenhuma atividade importante. Nem indo à cozinha para buscar a décima xícara de café no dia. Nem pensando na catástrofe no Oriente Médio. Nem encarando as pontas duplas no cabelo e calculando quando poderá ser feito um novo corte. Nem planejando a janta de mais tarde. Nem abrindo uma nova aba do navegador sabe-se Deus para quê. Nem digitando inevitavelmente o endereço http://www.facebook.com para ver as últimas notificações. Nem conferindo se aquele telefone que nem é necessário foi mesmo anotado naquela folha minutos antes só porque sim. Nem ouvindo aquela música que o cérebro cantarola de vinte em vinte minutos desde às sete da manhã. Nem comentando a última fofoca da firma com a amiga. Nem apoiando a cabeça sobre as mãos para encarar profundas questões existenciais. Nem verificando se cada unha está com o mesmo tamanho da sua equivalente da mão oposta. Nem trocando a fita crepe que segura uma pequena parte pendente ao resto do fone de ouvido do celular. Nem se entregando à propaganda da Avon que está passando na televisão. Nem se abandonando à tentativa de lembrar daquele poema lido na noite anterior. Nem pesquisando no google onde vai o “z” de Nietzsche porque a gente sempre esquece e vai que é preciso escrever. Nem planejando irrealidades pra viagem que ainda demora quinze dias para acontecer. Nem sentindo culpa por ignorar aquela ligação no celular. Nem roendo o cantinhos das unhas. Nem desejando todos os doces do mundo. Nem relendo mais ou menos quinze vezes o que se escreveu para ter certeza de que não é preciso mudar nada. Nem refletindo sobre si mesma elucubrando sobre si mesma sem entender quase nada de si mesma.

Tem essas pessoas, né.

Ao contrário de mim.

 

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