Eu queria escrever até as digitais ficarem gastas e me brotarem sangue dos dedos. Escrever sempre me pareceu uma saída, um refúgio, um alento. Eu queria escrever até ver os viventes virarem pó, até sentir as décadas descerrarem, até me olhar no espelho e não me reconhecer.

Eu queria escrever livros, contos e poemas. Letras de música sem melodias. Bulas de remédio ou receitas de bolo.”Coloque duas gotas de ilusão – e não duzentas! – e mexa”. “Tome dois comprimidos por hora, até o fim da vida. Não adiantará”.

Eu queria escrever até que o coração acalmasse, a cabeça aquietasse. Até que eu estivesse finalmente…vazia. Eu queria escrever. Mas o quê? Sinto, preementemente, que não há nada. Ainda assim o peito – caetanamente – me parece farto: de ausência.

Eu queria escrever porque escrevo para sobreviver. Em muitos sentidos figurados. Porque a escrita me faz volátil, absorvível, intranhável. Não mesclo cores, ou moldo formas, só o que sei é juntar palavras. E, prosaicamente, somente ao teclado.

Eu queria…

 

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