Eu queria ter sido aquela que não dançou ao seu embalo;

se dançou, somente o fez para sua própria satisfação;

quando satisfeita, foi embora sem olhar pra trás;

passada a euforia, só teria lembranças muito ocasionais e algo divertidas.

Eu queria ter sido aquela inabalável. Aquela dos filmes, de bota, sobretudo e cigarro na boca. Drink de assinatura, carreira meteórica. Humor cortante e conhecimentos triviais fascinantes. Eu queria ser aquela, que se mantém distante por inevitabilidade. Porque não é preciso esforço para se afastar do que não atrai. Porque mal se lembra.”Faz uma semana? Parecem anos!” “Ricardo ou Rodrigo? Com certeza começa com R”.

Eu queria não precisar do seu reforço. E nem do dele. E nem daquele outro. Muito menos daquele que não ficou sequer um dia. O que importa qual personagem escreveria pra mim se escritor fosse? A inesquecível ou a banal pouco lembrada? Que importa ser esquecível posto que de tanta gente se esquece? Que importa ser uma apenas entre tanta gente?

Eu queria me bastar do muito que já sei sobre o que sou. E me bastar do muito mais que faço no espaço-tempo que você não habita. Eu queria me sentir absolutamente e despropositalmente preenchida. Ao invés de buscar confirmações, como quem caça borboletas. Avança em seu habitat, como quem batalha, não como quem flana. Até que as encontra e se admira. Apenas para capturá-las e organizá-las em um quadro. Mortas. Despidas de toda e qualquer utilidade prática ou lírica.

E então para sempre polindo o vidro do quadro. Vigiando a integridade de sua madeira. Acompanhando a mudança de cor das asas das borboletas. E torcendo, de maneira inconfessa, que alguma tenha sobrevivido: à caça, ao cárcere, à vigília. E se apodere. E de uma forma estranha, improvável, certamente inexplicável, revele que sempre foi, na verdade, celacanto. Nunca borboleta.

 

 

 

 

 

 

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