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Como eu sou uma pessoa que advoga pela responsabilização coletiva do cuidado de crianças, eu vou dizer isso de uma forma bem direta:

PAREM COM AS RECLAMAÇÕES IDIOTAS SOBRE OS INCÔMODOS CAUSADOS A VOCÊS POR MÃES E SUAS CRIANÇAS E COMECEM A NOS AGRADECER PORQUE VOCÊS NOS DEVEM.

Sim, nos devem. Primeiro porque sem nossos úteros, sequer existiria humanidade. Segundo porque as mães – aquelas que geraram seus filhos e as que não geraram – fazem, ainda quase que exclusivamente, um trabalho que a sociedade inteira deveria estar fazendo: ajudar um ser humano em formação a se tornar uma pessoa.

Infelizmente, poucas pessoas são tocadas pelo senso de comunidade, que faz com que nós nos consideremos responsáveis por outros seres humanos, apenas porque dividimos com eles uma cidade, um país, o planeta Terra. Mas eu confio que ainda vai chegar o dia em que a gente não precise mais falar em vantagens e obrigações para sermos convencidos a pensar uns nos outros. Enquanto este dia não chega, sigamos.

Eu gostaria de precisar dizer apenas que nossas crianças são seres humanos, cidadãos brasileiros, entes de uma série de direitos constitucionais e coligados, e que a sociedade inteira deve garantir que isso se efetive, também de acordo com uma série de deveres constitucionais e coligados.

Mas eu não acho que isso seja suficiente para sensibilizar as pessoas mais egoístas, nem para fazê-las enxergar que para se apoiar uma criança é preciso apoiar as mulheres ainda sem filhos que um dia pretendem tê-los, as gestantes, e as que já são efetivamente mães. E que é preciso conscientizar os homens sem filhos que um dia pretendem tê-los, e cobrar os companheiros de gestantes e aqueles que já são efetivamente pais. E que é preciso ainda demolir essa ideia de que quem deve balançar Mateus é quem o pariu, porque Mateus assim que vem ao mundo se torna parte de uma sociedade, e não conseguiremos alcançar um “todo” equilibrado, se não garantirmos, coletivamente, as condições para que as partes se desenvolvam igualitariamente.

Então eu vou pontuar algumas outras coisas:

Você que hoje tem 40 anos e odeia crianças, daqui a 30 anos terá 70, bem a tempo de topar com a minha criança sendo um adulto formado e produtivo em algum lugar do mundo. O meu filho, que você odeia simplesmente por ser uma criança, poderá ser o motorista do ônibus que você pega, o médico do seu posto de saúde, o músico que compôs seu álbum favorito, o gênio que idealizou a mais recente inovação tecnológica de impacto global, ou exercer qualquer outra atividade laboral que exista no futuro. Além disso, vai ser o trabalho do meu filho que vai bancar a sua previdência, para que você possa gozar a sua aposentadoria.

Você vai precisar do meu filho. E quem está garantindo que ele permaneça vivo e se esforçando para que ele seja uma boa pessoa até lá, sou eu. Assim como a minha existência foi garantida pela minha mãe. E eu posso dizer, sem grandes chances de erro, que a sua mãe também foi a protagonista do processo que te possibilitou chegar à vida adulta.

As crianças que nós criamos vão manter o mundo girando, quando estivermos cansados demais para isso.  E mais do que isso: vão definir que mundo será esse. Seremos mais igualitários ou iremos recrudescer nas questões humanitárias? Teremos mais justiça social ou caminharemos de vez para o individualismo meritocrático? Seremos mais democráticos ou ficaremos a mercê de déspotas? Populações ainda vão passar fome, ainda que se desperdice toneladas e toneladas de comida, simplesmente porque isso interessa à ganância capitalista?

E essas pessoas não brotarão do solo um belo dia, com ideais e modos de agir automáticos. Elas estão sendo formadas agora. Nas nossas casas! Você não acha que deveria ajudar?

Se você é realmente incapaz de cuidar de uma criança e dividir essa responsabilidade com uma mãe, ao menos não seja esse babaca, que se sente prejudicado pela gestante que toma “seu lugar” no ônibus; que se sente ofendido pela criança cansada chorando no supermercado; que se sente ultrajado pela mãe que ousa levar seus filhos a um museu.

Detestar crianças não é aceitável. Excluir crianças e seus cuidadores do convívio público não é aceitável. Pretender um ambiente público child free é uma manifestação de discriminação e ódio.

Desconstruam suas irritações mesquinhas e se isso não for possível, escondam-nas. Vocês não são as crianças aqui.

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