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São quatro e quinze da manhã e eu já estou acordada. Mas não posso dizer realmente que eu dormi. Deitei às nove e meia da noite, exausta, depois de uma jornada de trabalho de nove horas, e depois de: banhar criança, dar de comer, ler historinha, cobrar a escovação dos dentes, botar pra dormir. Banhar a mim mesma, jantar uma coisinha, camisola, cremes no rosto e nos pés, checar as mensagens no celular, botar o alarme. Eu tinha uma coisa pra fazer antes de ir trabalhar, iria acordar às cinco e essa expectativa já foi o suficiente.

Eu sequer sei dizer as mil e uma coisas que passaram pela minha cabeça e que me despertavam, logo depois do cansaço me levar pela mão ao mundo do sono. Chegaram a ser sonhos ou só uma sucessão de imagens mentais simbólicas porém desprovidas de significado quando vistas de maneira isolada? Só sei que em determinado momento, muitas dessas imagens traziam a minha mãe como figura principal, e aí, nessa ânsia enlouquecida de saber, saber, saber, eu comecei a me perguntar quais as razões mentais, espirituais ou mesmo esotéricas para isso.

Nesses momentos, costuma ocorrer o pensamento mais dramático e estúpido entre todos os pensamentos dramáticos e estúpidos que podem ocorrer.

“E se… Não, não é possível, para de pensar bobeira. Mas e se?.. Peloamor de Deus, Tâmara, você precisa dormir, essa é a última coisa que você precisa pensar agora. Mas é sério, isso pode acontecer, com todo mundo, a qualquer momento. E se for comigo? E se for agora?”

E aí a minha mente veio me lembrar, lá pras três e meia de uma manhã de segunda, sem qualquer razão que justifique, apenas de palhaçadinha, se posso ainda dizer, que o meu Top 3 de medos absolutamente paralisantes é: perder Miguel, perder minha mãe, enlouquecer. E eu parto do pressuposto de que a terceira coisa é um destino certo pra mim, caso as duas primeiras aconteçam.

Eu vi tudo: o momento em que alguém me ligaria para dar a notícia, minha ida ao Espírito Santo, o velório na mesma sala em que minha avó foi velada, o enterro no mesmo cemitério. Eu conseguiria voltar ao Rio pra trabalhar? Como iria dar a notícia ao Miguel? Como ficariam meus irmãos? Pra quem eu ligaria pra pedir socorro? Eu posso ligar pra terapeuta em momentos assim, não posso? E se eu ficasse muito ruim, quem cuidaria de mim? Mas eu não posso ficar muito ruim, porque, e o Miguel? Será que eu perderia até a vontade de comer? Será que eu ficaria fisicamente doente de tanto sofrer? Eu teria que procurar uma psicóloga pro Miguel. Quem será que teria uma boa indicação?

Então eu levantei. Bebi água, fui ao banheiro. Repassei algumas coisas que, essas sim, certamente vão acontecer amanhã. Beijinhos na criança adormecida. Beijinhos demais, ele está se mexendo e reclamando. Liguei o computador, fiz o que eu tinha que fazer e agora estou aqui.

Desculpa atrapalhar o sono de vocês.

 

 

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