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Eu já tentei algumas vezes organizar os acontecimentos cronologicamente, mas foram tantos, tão impactantes e surreais, durante tantos anos, que a esse ponto se tornou impossível. Quando é preciso, eu vou contando conforme me lembro, mas sempre tem alguma coisa que eu não sei onde situar.

Por exemplo: eu costumava pensar que a primeira crise do meu pai tinha sido aquela, em que ele largou seu emprego no banco, montou uma oficina mecânica, e comprou uma kombi pra levar a gente pra praia todo fim de semana, ainda que a gente não quisesse ir. Eu estava na sexta série, portanto, tinha 11 anos.

Mas aí tem a minha festa de 9 anos, a única festa de aniversário que eu tive na infância. Minha mãe e uma das minhas tias me fizeram um bolo de morango. Minha madrinha me deu dois soutiens de presente, e eu abri escondido porque estava com vergonha de ganhar soutiens. Pra bancar uma festa de aniversário, ainda que a mais simples do mundo, é claro que ele já estava em crise. Juntando as duas coisas, eu já não sei mais em quais das duas crises essa história da kombi aconteceu. Foi na primeira, quando eu tinha nove anos, ou foi mesmo quando eu tinha 11, portanto, na segunda?

Quando eu e meus quatro irmãos estamos juntos, e o assunto aparece (meio que sempre), um ajuda a colar as lembranças do outro. “Quando foi mesmo que ele foi preso?”, “e aquela vez que ele fugiu da clínica fazendo uma tereza?”, “e que mania de fazer racha na rua!” “meu deus do céu, não sei como ele não morreu”.

Meu pai tem distúrbio bipolar. Em um nível tão crítico, que foram necessárias internações anuais, durante um tempo considerável. Via de regra, ele ganhava algum dinheiro, começava a beber, se animava com algum projeto e cabum: algumas semanas depois, tinha feito mil empréstimos, comprado carros, tentado vender a casa, montado negócios malucos, sumido no mundo, se envolvido em algumas brigas, e eventualmente, comprado uma arma, sido preso, nos ameaçado de morte, até que a gente conseguia arranjar uma vaga na clínica pública, convencer a polícia a nos ajudar, encontrá-lo em alguma cidade do Espírito Santo, imobilizá-lo e enfim, interná-lo. Um a dois meses depois, ele voltava pra casa. Dopado, quando não deprimido. E a gente vivia o segundo lado da bipolaridade.

Era sempre uma grande aventura. Mas sendo honesta, eu participei da maioria delas como espectadora, ou como vítima das suas ameaças, gritarias, xingamentos, e tentativas de violência física e “sequestro”. (Aqui, cabe um esclarecimento: meu pai sempre foi um disciplinador clássico. Nós apanhávamos de maneira “normal” na infância, mas eu não me enxergo como vítima de violência. Essa agressividade exacerbada se manifestava mesmo durante as crises).  Como eu era criança ou adolescente, não tinha sequer permissão para entrar nas clínicas, ou resolver qualquer questão. Na idade adulta, até cheguei a liderar uma dessas missões de captura, mas não obtivemos sucesso, e felizmente, há uns 5 anos, ele está estabilizado e não temos mais problemas.

Eu sempre achei injusto com o meu pai e com o restante da minha vida achar que essa experiência me definiu mais do que qualquer outra que eu vivi. Mas é inegável que eu passei  metade da minha existência às voltas com eventos dramáticos, sobre os quais ou não tinha o menor controle, bem como é irresistível relacionar essa sensação, com a necessidade urgente que eu tenho tido, na qual se baseia a minha ansiedade, de controlar. Quando isso não é possível, ao menos, antecipar.

Perdoem o pessimismo, mas telefonemas na madrugada sempre anunciam mortes. Pessoas gritando no nosso portão nunca trazem declarações de amor. Uma conversa importante sempre será a chance de alguém te dizer o que você não quer ouvir. Acontecimentos improváveis não são impossíveis e o que é inesperado sempre aparece pra me sacudir.

Pelo menos uma pessoa, pelo menos uma vez por semana, tem tentando me convencer de que o véu que cobre o futuro é feito de mágica e não de agonia. Até o momento, eu tenho respondido, com as duas mãos sobre o rosto: “eu só queria saber”.

 

 

 

 

 

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