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Então, o médico. Ele fez uma piada com Ruy Barbosa na hora de me cobrar a consulta. Eu teria achado mais divertido se não fosse 400 reais. Ele me passou lenços de papel no instante em que os meus olhos começaram a marejar. Achei tão automático que não me senti consolada de nenhuma maneira. Ele me perguntou coisas e 45 minutos depois, eu saí de lá com três receitas do tipo que precisam ficar retidas, remédio pra um mês. “Daí, em quatro semanas você volta” e eu já sabia que não.

E nem é por ele. Não quero voltar em médico nenhum.

“Semana passada, doutor, eu já tinha passado do meu horário no trabalho, e já tinha feito o que eu podia fazer. Mas logo depois, apareceu uma novidade. Na hora eu pensei: ‘vou comunicar a minha chefe né, que aí se for preciso ela pede pra alguém que ainda está trabalhando fazer’. E aí eu não consegui parar de pensar nisso. Véspera de feriado, mil outras coisas pra fazer e eu acordei umas cinco vezes durante a noite me perguntando: “será que eu devia ter feito?”

Foi isso e mais algumas histórias. Ganhei um CID pra chamar de meu: transtorno de ansiedade generalizada. A minha sorte é que eu tenho amigos muito inteligentes: “não deixa essa definição te sequestrar”.

Não deixo. Eu digo que tenho essa “cabeça louca”. Não tem CID pra isso. Desde que eu contei pra algumas pessoas que estava a ponto de surtar de ansiedade, elas têm me dito muitas coisas, me recomendado muitas leituras, que parecem definir o que eu sinto muito melhor do que eu sou capaz de concatenar. O que eu sei é que a minha cabeça não para. Que cada pequena coisa a ser resolvida inicia uma construção ininterrupta de cenários possíveis ou pouquíssimos prováveis. Às vezes tantos que eu não consigo sair do lugar.  Sei que eu repasso mentalmente cada coisa que eu disse, releio mais de uma vez cada conversa, penso em quais palavras eu deveria ter suprimido ou substituído, tento calcular quais efeitos elas tiveram. Sei que o meu pescoço vive constantemente tenso, minha cabeça constantemente dolorida, meu apetite constantemente alto, uma vontade de sumir constantemente constantemente.

Se eu fechar os olhos e tentar imaginar a minha mais doce fantasia, eu me verei parada, em algum lugar que é uma não-existência. E nada acontece. A terapeuta nem precisava me dizer que é uma fantasia impossível, porque eu sei muito bem que a vida acontece. E a gente anda pra frente porque não há muito o que se fazer.

De todo modo, o médico. Eu não queria tomar nenhuma pílula. Nem a que não vicia, nem a que não resolve. Muito menos a que resolve e vicia. E ele não conseguiu me convencer. Continuo não tomando e a receita no meu armário ao invés de me tranquilizar, me oprime. Era só o que faltava acontecer na minha vida: perder o controle até mesmo da minha própria cabeça e precisar que uma pílula diga a ela o que ela tem que fazer. Me recuso, simplesmente. Mas não é uma birra infantil.

Eu resolvi ouvir uma homeopata. E também uma amiga que trabalha com ayurveda. E tentar racionalizar como a minha terapeuta me im-plo-ra pra fazer. Dias desses, pensamentos a mil, liguei prum amigo que me disse: “você percebe que quando você me fala, você vê como os seus receios não fazem sentido?” Eu percebo.

Então, aí está esse diário. Porque eu percebo. Mas não custa lembrar.

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