No banho, o menino canta uma música que ele próprio compôs, alternando um tom de voz mais grave, com outro super agudo, e intercalando palavras existentes e outras que ele inventou. Ri da própria palhaçada. Se diverte consigo mesmo.

Então eu penso que ele só pode ser feliz.

Eu fico atenta aos sinais. Quando o busco na escola, primeiro fico olhando do lado de fora, antes de chamar. Ele sempre está brincando entretido. Quando me vê, sorri de felicidade, grita ‘mamãe’, busca sua mochila correndo. Quando sai para a rua, anda dando alguns pulos, sempre me conta a última de algum amiguinho.

Então eu penso que ele passou dez horas na escola mas, ainda assim, só pode ser feliz.

Eu posso enumerar para qualquer pessoa: o quanto ele sorri, inventa histórias, representa personagens, aprende novas palavras, faz perguntas complexas, define preferências, retruca meus comandos. O quanto parece feliz. E eu acredito. Mas talvez vai ser pra sempre mais uma crença do que uma certeza. Ele é mesmo feliz, feliz? E se algum dia ele não for mais feliz? Isso vai fazer de mim uma mãe ruim?

Eu não queria engravidar. Chorei dois meses inteiros. Rezava para a gravidez se perder. Isso faz de mim uma mãe ruim?

Eu me mudei. Eu me casei e me separei. Eu o deixei com outros cuidadores inúmeras vezes, para trabalhar ou para me divertir. E houve mesmo quem dissesse que eu não o estava criando direito, assim, com todas as letras. Eu fui mesmo uma mãe ruim?

Eu me pergunto para me responder que não. Uma resposta que não é só convicta como também política. Afinal de contas o menino é visivelmente feliz e demasiadamente me gosta. Seria isso possível se eu fosse uma mãe ruim?

Afinal de contas, apesar de tudo, eu tanto o gosto, e tanto gosto do que ambos viramos no momento em que ele nasceu, que pretendo ter outro.

Hoje mesmo disse isso a uma amiga, que disse – quase como profecia, mas mais como afago – que isso vai acontecer.

Mas não me entendam mal se eu disser que não quero mais assim.
É que ser mãe solteira multiplica na mesma medida o cansaço e as dúvidas.

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Eu tinha medo de nunca morar numa cidade grande e cá estou. Eu tinha medo de nunca mais poder trabalhar como repórter e cá estou. Eu tinha medo de nunca mais voltar a estudar e cá estou. Ocorre que ainda assim eu tenho medo.

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Botei manjericão na comida, ainda que não combinasse. Liguei as lanterninhas chinesas, ainda que não houvesse nenhuma outra pessoa para ver. Dancei Cajuína, de calcinha, sozinha no meio da sala (e agora torço para que nenhum vizinho tenha filmado).

Eu costumava ter um caminho certo, para quando era preciso alguma dose de felicidade instantânea. Agora que você se foi, experimento substitutos. Cajuína de calcinha no meio da sala está ganhando. Afinal de contas, Caetano faz com os outros compositores brasileiros, o que Nietzsche faz com os outros filósofos, segundo Deleuze. Você não vai concordar mas vai entender. No ponto em que estamos, já basta, não é?

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