Existe um lema feminista: “toda mulher tem uma história de horror para contar”. É um alerta sobre a universalidade dos danos causados pela misoginia a mulheres de diversas classes sociais, culturas e locais. E também uma mão solidária àquelas atormentadas por alguma violência sofrida.

Há quem se diga, no entanto, uma exceção a essa regra. Se vê em situação tamanha de privilégio em outros níveis, e de condição pessoal tão igualitária, que diz não se lembrar, de fato, de nenhuma história de horror vivida. Diante de milhões de mulheres estupradas, espancadas e mortas cotidianamente, talvez não classifiquem mesmo o assédio diuturno nos espaços públicos como horror; tampouco o medo de andar sozinha pelas ruas à noite; ou o desconforto causado por um homem que não sabe diferenciar constrangimento de flerte.

Pois eu classifico o que vivi como horror. Mais um na minha curta vida, toda ela vivida na condição de mulher. E não pretendo desrespeitar todas as milhões de mulheres estupradas, espancadas e mortas ao dar o mesmo nome para as situações que vivemos, mas sim enfatizar que situações como a que eu vivi nos desrespeitam, amedrontam e horrorizam e não podem ser minimizadas.

Vamos aos fatos, portanto:

Resolvi aproveitar meus primeiros dias de férias revendo amigas em São Paulo. Com uma delas, fui para uma festa no Centro do cidade. Um casal nos acompanhou e enquanto estávamos em 4, o programa transcorria tranquilamente. Mas, tão logo o único homem do grupo se foi, um rapaz apareceu me oferecendo sua cerveja. Eu disse que estava bem com a minha água e voltei a dançar com a minha amiga. Ele insistiu com algumas cantadas e depois de receber o silêncio como resposta, pediu que eu dissesse meu nome, para que ele pudesse se despedir e me deixar em paz. Preferi mentir para ver se a contenda desconfortável se encerrava: Gabriela.

Primeira observação: Me impressiona como é corrente que toda mulher desacompanhada por um homem seja vista como disponível. Não importa se ela está de costas para o público da festa, completamente entretida enquanto dança com outra mulher. E como tantos homens pouco se importam em esperar que a mulher ao menos demonstre algum interesse, com um olhar, ou uma postura mais aberta, antes de fazer as aproximações mais invasivas.

Passados poucos minutos, o mesmo rapaz me interpela novamente. Minha amiga, numa tentativa de cessar de vez o assédio também mente: Diz que nós somos namoradas. E pela primeira vez, acontece comigo uma das coisas mais corriqueiras e constrangedoras que acontecem com casais de lésbicas: O rapaz pergunta se nós não queremos fazer uma coisa diferente com ele essa noite. Tamanho nojo, ambas apenas nos afastamos.

Segunda observação: O desrespeito pela autonomia da mulher que está sozinha é tão grande que é comum mentirmos e dizermos que somos lésbicas ou que temos namorado para interromper uma aproximação indesejada. Seja porque é mais fácil que o homem respeite essa outra pessoa a quem “pertence” a mulher sozinha; seja porque aprendemos que é indelicado dizer simplesmente “não” a um homem. O machismos é tão escancarado que, todas as vezes em que usei essa saída, ouvi como resposta: “e seu namorado deixa você sair sozinha?”. Curiosamente também, nas anedotas sobre a questão, o homem figura como o pobre coitado enganado pela mentira de uma mulher covarde.

Passados alguns minutos, o mesmo cara me interpela novamente, dessa vez quando estou no balcão pegando outra garrafa de água. Resolvo usar um tom mais assertivo e pedir que ele pare com as investidas porque está me constrangendo. Ele retruca e diz que não é a sua intenção, que ele apenas está interessado, que eu apenas sou muito bonita, e eu apenas, novamente, me afasto.

Terceira observação: Não deixo de pensar em como os espaços públicos ainda são naturalmente dados aos homens. Mulheres frequentemente precisam se afastar, ficar em casa, evitar ambientes por causa do comportamento agressivo, naturalizado, de homens. Somos nós que nos detemos, nos afastamos, nos restringimos para não sermos assediadas. E não eles que são ensinados a respeitar o direito à convivência social de outras pessoas, de mulheres.

Minutos depois, vem a quarta aproximação. Ele chega por trás da minha amiga, encosta em sua cintura e pede que ela deixe ele “colar” em mim. Ela responde rispidamente e um amigo dele resolve interferir. Exaltada com a insistência, ela pega o copo da mão desse amigo e joga seu conteúdo na roupa do assediador. O amigo, alto, forte e homem resolve enfrentá-la. Estufa o peito e se aproxima dizendo que ela não pode jogar fora a bebida dele “só porque é mulher”. O que ele queria dizer? Que o fato de ela ser mulher não impediria que ele reagisse? Que não evitaria que ele começasse uma briga? Eu intervenho e peço para que ele retire seu amigo de perto, porque é ele quem está nos assediando há muito tempo e essa é a razão do nosso nervosismo. Ele parece entender e promete contê-lo.

O resto da noite nós passamos indo de um canto a outro do local, conforme a movimentação do indivíduo. Não queríamos ser novamente importunadas e, pra isso, NÓS precisamos modificar a NOSSA atividade, enquanto ele se movimentava livremente, assediando praticamente todas as mulheres que encontrava pelo caminho.

Até que ele nos avista e começa a vir em nossa direção. Finalmente, resolvo procurar um segurança, que promete ficar de olho e, de fato, fica por perto.

No entanto, durante o curto trajeto que faço entre nosso lugar na pista e o bar, sinto meu cabelo sendo puxado com alguma força. Eu nem precisava olhar para saber de quem se tratava. Ele finalmente estava na fila do caixa, o que não impediu que fizesse um ultimo movimento de demarcação da sua superioridade masculina. Me exalto e digo, aos berros, que ele não tem o direito de tocar em nenhuma parte do meu corpo. Ele ri.

Quarta observação: Eu nem me lembro quantas vezes tive meu cabelo puxado em festas. Ou minha mão. Ou a cintura. Ou senti mãos tocarem minha bunda e meus seios. Ou mesmo a minha vagina. É exatamente o que parece: Eu não me lembro quantas vezes fui sexualmente violentada, em público. Uma violência “menor”, mas a principal razão para que eu nunca mais fosse a uma “micareta”,  quando mais nova, por exemplo, depois da primeira vez. Em ambientes lotados assim, nos quais tantas pessoas vão com o claro objetivo de pegar outras pessoas, é praticamente impossível uma simples ida ao banheiro, sem agressão. Quantos casos policiais já vimos de mulheres que tomam socos, tapas, ao reagir quando um homem as agarra em alguma festa? Você é uma mulher sozinha, você está numa festa, logo você está disponível para o desfrute de qualquer um interessado, certo? A exceção é se você fizer o trajeto de mãos dadas com um homem. Porque eles não te respeitam como indivíduo, mas respeitam o outro homem a quem você “pertence”.

Enfim, o segurança intervém, mas apenas pede que o agressor não cause problemas, pague sua comanda e saia da festa. Ele paga, mas ainda se demora algum tempo antes de sair. Quando finalmente não os vemos mais, nos sentimos seguras para ir embora também. Ledo engano. Ao sair da boate, nos deparamos com os dois do lado de fora, nos encarando. Nos esperando? Com qual objetivo?

Explicamos a situação para os seguranças. Um deles se oferece para nos acompanhar até o metrô. Enquanto esperamos, a conversa atinge o seguinte ponto: Alguns babacas perdem a cabeça quando bebe. “Ele é só um babaca”. “Ele está bêbado”. “Ele escolheu a festa errada”. “Ele não vai fazer nada”. Quase posso ouvir: “releve”. E nenhuma reprimenda é dirigida – por nenhum dos seguranças! – ao causador de todos os problemas, que continua do outro lado da rua nos encarando, nos esperando, e rindo. Seu amigo ao lado, agora também ri. De repente, eu me sinto parte de um joguinho, em que a diversão é garantida quando você faz uma mulher ter medo de  voltar pra casa sozinha. Quando saímos, acompanhadas pelo segurança – que escolta também outras duas meninas, que também estavam com medo dos dois – eles riem às gargalhadas. Deve ser a vitória final: “Elas precisaram pedir a proteção de um homem, tamanho medo sentiram de nós!”

Não contente, ele ainda profere, em alto e bom som: “Eu sei que você me quer”.

Fui embora indignada, consternada, ameaçada e pensando: “E se eles tivessem se escondido? E se nós tivéssemos ido para o metrô sozinhas? De que forma ele iria me mostrar como ele sabe que, no fundo, eu o queria? Quantas mulheres são estupradas e ouvem exatamente essa mesma frase de seus estupradores? O que ele já não fez com outras mulheres em outras ocasiões? Eu deveria ter feito alguma coisa? Ter chamado a polícia, ou ao menos pedido uma reação mais enérgica dos gerentes do lugar? Adiantaria? Alguém daria crédito, encararia como uma ameaça, como uma violência, ou apenas me diriam que ele estava bêbado, que foi apenas uma brincadeira de mau gosto, “releve”?

Isso aconteceu há um mês e, desde então, eu venho escrevendo esse texto, pouquinho a pouquinho. A minha intenção com ele não é parecer vitimista, mas reclamar, sim, a posição de vítima, para mim e para todas as mulheres que passam por igual constrangimento em tantos espaços, diversas vezes durante a sua vida. Numa frequência tão absurda, ao ponto de isso ter virado o modus operandi padrão de muitos homens. E o dano colateral esperado pelas mulheres que querem simplesmente sair para se divertir. Quando a gente nomeia uma vítima, a gente afirma que ali houve uma violência. E, por isso, eu não tenho medo de me colocar nessa posição, nesse momento. Não é certo assediar e amedrontar mulheres. E não deveria ser normal.

Como diz a campanha: “Hoje eu quero voltar sozinha”. E quero ir sozinha. E dançar. E beber. E não ser assediada. E não ter medo de ser estuprada. E todas essas coisas que existem como direito natural de muitas pessoas. Que nunca precisaram reivindicá-los. Ao contrário de nós que somos mulheres.

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