Teu endereço não recebe mais cartas. Jogo este recado no vento, talvez um passarinho lhe assopre. Sequer abri o Mia Couto. A pílula que me deste fez efeito imediato. Mas a cabeça rodopia, bem sabes. Sonhos, preocupações e tolices me acordaram tantas vezes. As luzes das cidades diversas por que passei também. O pescoço pesa de culpa, saudade, ansiedade e da cadeira que não foi feita para pessoas da minha altura. Sabes a razão para todos esses sentimentos: Um amor do passado, dois amores infinitos e um amor que tem me tirado do prumo. E a qualidade do transporte provido pelo pássaro nada gentil. Ao acordar estive pensando como os anos vividos e o amor mútuo nos tornaram pessoas dadas a gentilezas. Ainda, no fundo, egoístas, mas profundamente mais amáveis um com o outro e com os demais. Teu remédio, o Mia Couto e a pintura em início. Minhas culinárias, minhas palavras e a perdularidade de subir num ônibus para dar-te um abraço não entregue pela tecnologia. E para festar! Que festar, de maneira entregue e sem restrições, com outro alguém também é generosidade, cá penso eu. Tornamo-nos boas pessoas, eu acredito. Tua mãe, boa pessoa em absoluto, nos gosta. E de ti não somente por obrigação. Fique em paz. Venha ser acolhido e me acolha novamente, na próxima. Ainda nos divertiremos muitíssimo, como é natural. E a sorte há de prover que moremos juntos. Se não no próximo ano, ainda no outro. Ou no outro depois desse, ou noutra vida. Ou nestes breves finais de semana, em que os dias duram quarenta e sete horas, pelo tanto de boas conversas, bons momentos e intimidades amalucadas que partilhamos.

Com amor, (um final kitsch, porém sincero)

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