Eu me desesperei por dois minutos. Chorei por dois segundos. Quando a razão e um pouquinho do ridículo bateram na porta e pediram para entrar.

Eram onze da noite. Eu havia trabalhado o dia inteiro, ido para o outro lado da cidade buscar Miguel, me permitido tomar um chope e comer num restaurante, pegado um ônibus e então um taxi. Quando, ao chegar em casa, criança ao colo sonolenta, ombros ardendo de tensão e cansaço, desejo pulsando pela água quente do chuveiro descendo pelo corpo:

A mão à bolsa não encontra a chave. A mão vasculha a bolsa do menino. A mão pega o celular e disca. A mão vai à cabeça pela incredulidade. A mão bate com força no portão pelo desespero. A mão se envergonha pelo menino olhando. Então  cessa.

O menino tem 3 anos. Já sabe que sem chave não se entra. Já sabe que os carros com luz em cima levam a gente nos lugares que queremos. Então sugere que entremos num taxi para ir buscar a salvação. Penso que melhor seria pedir a amiga que viesse. Minutos mais tarde, estão sentados num dos bancos do pátio do hospital ao lado de casa. No escuro, protegidos da chuva por uma sombrinha preta salpicada por desenhos de cerejas, ele pergunta se são maçãs. Nunca viu cerejas. Ele pede uma bala e come quieto. Ele mostra a língua para me fazer sorrir. Me pergunta se a língua está verde da cor da bala. Minto e digo que sim: “igual à língua do Hulk”. Ele sorri satisfeito e depois me pergunta muito calmo: “E agora? O que vamos fazer sem a chave?” A pronuncia de cada palavra dita com perfeição.

Onze da noite, num banco duro, no escuro e na chuva, o menino é um gentleman.

Normalmente eu me lembraria de como eu sou azarada.

Mas olhando o menino, na verdade eu pensei que tenho é muita sorte.

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