Ela estava tão sozinha e tão quieta que passou despercebida quando eu cheguei. Nem cogitei que ela seria aquela. Quando descobri, não consegui tirar os olhos. Fiquei procurando a explicação praquela quietude. Especialmente praquela solidão. Todas merecem ser deixadas assim quietas, mas ninguém deveria estar tão sozinha, sentada no degrau de uma escada, aguardando o momento de poder levar o corpo de um filho até o cemitério. Olhei, talvez tempo demais, procurando me conectar com seus olhos, talvez demonstrar que eu também sentia. Ecooei num enorme vazio.

Ela se chama Jurema. Hoje, e por algum tempo, acredito, vai ser mais conhecida como a mãe do Luiz Felipe. Três anos. Morto, após levar um tiro, disparado por algum dos envolvidos num tiroteio entre policiais e acusados de algum crime. Dormia na cama da mãe, dentro de um barraco no Morro da Quitanda, zona Norte do Rio de Janeiro. Foi atingido no rosto. Não havia salvação.

Por alguma razão vi a foto. Alertaram-me para a feiura, mas olhei por poucos instantes. E sempre tão contrária a essa exposição tão desavergonhada de desgraças internet afora, me peguei pensando: será isso? Será isso o que falta? Vermos todos o grotesco desastre que um tiro que atinja bem o meio do rosto de uma criança tão pequena pode causar? Ver que ali já não sobra mais rosto, e sim um buraco? Ver que não há mais sangue, não há mais sorriso, não há mais vida e nem nada?

No segundo seguinte, como sempre, pensei: e se fosse o meu menino? Meu menino de 3 anos? Se fosse eu, acordada por um barulho em plena madrugada, olhando para o lado e encontrando, ao invés do filho, um corpo, um buraco, uma poça de sangue. A morte.

Mas dificilmente seria.

Dificilmente seria o meu menino. Tão branco e loiro. Filho de uma jornalista. Que mora dentro de um bom condomínio, num bairro de classe média. Que estuda numa boa escola particular e tem um bom parquinho à disposição pra brincar. Que vai à praia de carro. Come balas sempre que possível. Tem, não apenas um, como dois bonecos do Homem Aranha. E uma fantasia completa, com máscara e tudo. Que viaja de avião e passa férias nas avós.

Que tudo o que conhece sobre ‘tiro’ é um conceito. Armas, apenas as que empunham os bonecos de ação que passam na propaganda da tv a cabo. Policial é apenas aquele moço simpático que deu ‘boa noite’ certa vez, quando passamos. Bandido, somente uma figura abstrata do mal. Que ainda não precisou ser apresentado ao significado da morte. Nem as verdadeiramente trágicas.

Ao lado da casa onde vive o meu menino, não há tiroteios. Nunca dormimos, eu e o meu menino, com medo de que algum de repente se iniciasse. Nunca cogitamos a ideia de entrarem no nosso prédio, policiais, bandidos, ou que seja, com armas em punho, prontos para atirar.

Atormenta-me o fato de que o meu menino não é, em essência, melhor do que nenhum outro. Porque dorme, então, tão mais seguro do que tantos outros?

Do que aquele menino. Luiz Felipe. Apenas um menino. Só um menininho. Pequenininho. Atingido com um tiro no meio do rosto. Enquanto dormia. Que absurdo! No fim de semana, a gente esquece. Do filhinho da Jurema. Para sempre com três anos.

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