Ser criada de acordo com os preceitos da doutrina espírita significa ser apresentada desde sempre ao conceito de ‘caridade’. Nenhuma novidade. Caridade e espiritismo é uma associação tão esperada quanto feijão e arroz. Há quem diga até que se reconhece um bom espírita, pelo tanto que ajuda os necessitados. Não é de todo irracional. Mas talvez só sendo criada de acordo com os preceitos da doutrina espírita pra saber que caridade não é bem ‘ajudar os pobres’ como é de comum definição.

O ‘tomar o todo pela parte’ da palavra acabou por criar uma abominação. Ao mesmo tempo em que todos admiram a beleza do ato, quase ninguém quer ser destino de caridade. Ninguém quer ser o desgraçado. O desfavorecido. O pobre coitado. Caridade é aquilo que a gente faz pelos outros em busca de redenção, não aquilo que a gente precisa que os outros façam com a gente.

Tolice.

Eu acabo de receber um ato lindo de caridade. De gente conhecida, o que é mais terrível: precisarei encará-las muitas vezes, e ver o algoz que me trouxe algum conforto nas mãos. E ainda venho anunciar a “desgraça” aos quatro ventos.

No Houaiss, “Caridade: substantivo feminino. Virtude teologal que conduz ao amor a Deus e ao nosso semelhante” O resto? Pura derivação por metonímia.

Caridade em sua definição primeira não é mais do que virtude. Donde concluímos que de nada vale um ato, sem intenção verdadeira. Caridade em sua definição primeira é somente e grandiosamente, aquilo que nos liga ao amor divino, e por consequência – tendo ainda o espiritismo como base e considerando que todo amor deriva do Criador – ao amor ao próximo.

Amor e caridade, quando honestos – não me perguntem como verificar tal coisa – são, portanto, irmãos siameses. Nascem unidos. E unidos por tantos órgãos que, pode-se dizer, olhando por determinado ângulo, que chegam a ser uma coisa só.

Podemos dizer então que o que recebi, na verdade, foi amor. Um tantão de amor. Amor manifestado em intenção, multiplicado em ação, transfigurado em objeto. Amor pra mais de metro. Amor pra dar e vender. Amor daquele tipo, que enche o coração da gente. Me digam, então, em que mundo isso pode ser feio? Porque razão eu haveria de esconder?

Acontece que quem é criada de acordo com os preceitos da doutrina espírita também aprende que caridade não se alardeia. “Que sua mão esquerda não saiba o que sua mão direita fez”, disseram na Bíblia (ou algo semelhante). Portanto, fica aqui o registro do agradecimento sem que eu precise dizer pelo quê. Vocês sabem quem são 😉

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