em uma linha:

“Mãe, o moço levou sua bolsa embora e por isso você tá triste né?”

O moço chegou não era nem meio-dia. Na verdade, quem chegou fomos nós, porque o moço já estava lá: moto parada, capacete no braço, esperando a pessoa ideal passar. Passamos.

Na bolsa, tinha o celular comprado há três dias. Fui ousada e paguei 500 reais nele. Porque era lindo. Câmera boa. Um monte de memória, daria pra usar a internet na rua à vontade. Eu estava apaixonada e ele morreu. Se eu precisasse contar a história brevemente, seria isso.

Tinha o celular do trabalho. Que era velho e feio. Mas a bateria durava uma semana. E quebrava um puta galho.

Tinha a minha carteira. Com tudo que uma carteira existe pra guardar. A identidade que eu tirei quando tinha doze anos. O CPF que eu fiz no aperto, porque era indispensável pro vestibular da UFES. A carteira de doadora de sangue, nunca mais usada depois que eu engravidei. Fotos 3X4 do Bruno, de um dos meus irmãos, de um amigo de nome Paulo Ricardo. Fotos minhas, – duas, eu acho – tiradas em épocas diferentes. Cartões de crédito e de lojas. Cheques. – pro caso de- . 23 reais. Algumas moedas. Um papel com a oração de Cáritas, que a minha mãe me deu sabe Deus quando.

Tinha o gravador. Que eu comprei com duas semanas de EBC. Na primeira vez em que eu pisei na Uruguaiana na vida. Porque era difícil pra burro conseguir um estúdio disponível pra gravar entrevistas por telefone. Então eu gastei do meu bolso pra ter o aparelho que gravava no telefone da minha mesa. Porque eu podia ficar à toa, já que não tinha como gravar. Mas eu estava empolgadíssima e queria trabalhar pra caramba.

Tinha o óculos de sol Rayban aviador. Com o qual eu sonhei por muitos anos. Finalmente pude comprar quando saiu a minha rescisão da Prefeitura de Aracruz. Que eu me lembre, foi a primeira coisa cara e desejada que o meu primeiro emprego me deu. A primeira coisa que eu comprei, com o primeiro dinheiro considerável que habitou a minha conta no banco.

Tinha so óculos de grau. Que eu demorei pra caramba pra comprar. E não era o mais barato da loja, como os comprados anteriormente. Hastes vermelhas. Pra ver se assim eu lembraria de usar. Tava dando certo.

Tinha um pendrive e canetas. E um bloquinho com uma porção de telefones de gente que eu entrevistei nos últimos oito meses. Uma necessarie com maquiagens diversas. O batom vermelho, a respeito do qual, os colegas de trabalho sempre falam. O antialérgico que salva meu humor. O crachá que me identifica como repórter e me deixa chegar perto das notícias que essa cidade fabrica.

As chaves de casa. E junto das chaves, o chaveiro. Aquele, que o Bruno me deu com poucas semanas de namoro: metade de um coração, cuja outra metade está unida às chaves dele.

Normalmente, alguma dessas coisas seria esquecida em casa. Quando não os óculos de grau, usados para ver tv à noite, e deixados em cima do sofá, então os óculos de sol, que poderiam ter chegado no dia anterior ainda sobre o rosto, tendo sido abandonados na mesa da copa, tão logo eu tivesse pisado dentro de casa. Muitas vezes, foram os celulares – um ou outro, ou ambos – ainda plugados à parede da cozinha, pelo carregador. Outras tantas, um dos cartões, tirados da carteira para finalizar alguma compra feita pela internet.

Hoje, não faltava nada na bolsa. Os óculos de sol pro calor escaldante que faz no Rio de Janeiro. Os de grau, pra quando eu preciso enxergar a cara de quem fala lá na parede oposta, numa coletiva de imprensa. O cartão do banco pro caso do dinheiro do ônibus acabar. O gravador, pra quando a fonte só está acessível pelo celular.

E fora da bolsa:

A correntinha de ouro. Que estava quebrada e eu paguei 35 reais, não tem nem dois meses, pra consertar. Porque eu não conseguia mais ficar sem usar a minha correntinha, com o pingente de um menininho pendurado. O menininho: Miguel. Também presente do Bruno.

Miguel tinha sete meses quando começamos a namorar. No dia em que a gente resolveu que ia ficar junto, ele me deu o pingente. Pra representar que ‘ele sabia onde tava se metendo’. Que respeitaria minhas prioridades e restrições, como mãe de um bebê. E que tava entrando nessa história disposto a segurar essa pica comigo. Assim é. Se não fosse, o pingente estaria lá pra cobrar.

Agora há pouco, tomando banho, eu passei a mão pelo pescoço, para contornar a correntinha e passar o sabonete – como todos os dias – e ela não estava lá. Não tenho pudores de dizer que eu chorei, como uma porção de outras vezes ao longo do dia. Uma mesquinharia de sofrer por objetos “que o moço levou embora”. Objetos apenas. Será?

P.S.: Nas paredes das delegacias, sempre tem cartazes com fotos de crianças desaparecidas. Além de poder ajudar na identificação de vítimas, eu acho que os cartazes servem pra dar uma perspectiva pra gente. Têm pessoas que roubam nossos celulares e bolsas. Já outras roubam nossos filhos. Não deixo de me sentir imensamente aliviada por ter sido ‘vítima’ do primeiro grupo.

P.S. 2: Tinha um bocado de gente na rua, na hora em que o assalto aconteceu. Um homem, depois de me ver abaixada consolando Miguel, chegou e disse: “Eu achei que ele era seu marido. Ele era branco, né?”

P.S. 3: O policial na delegacia me atendeu com absoluta diligência e atenção. Mas também incorreu no mesmo “erro”: “O elemento era negro?”. “Não. Era branco”. Podíamos ter dormindo sem essa.

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