Sinto uma dor de cabeça constante, que sobe do pescoço e vai se espalhando até chegar pungente demais nos seios da face. E só posso confiar que não seja um tumor, que vai me tirar a vida em seis semanas, nesse tempo nada sensato que eu espero até procurar um médico.

A gente confia, né, o tempo todo, que não vai morrer.

Não hoje, nem amanhã.

Confia que todos os carros conterão pessoas prudentes dentro e que nenhum deles vai te atropelar. Que todas as pessoas estarão felizes e sãs e ninguém vai entrar atirando a esmo justo no 238 que demorou vinte minutos pra passar. Confia que o coração vai seguir batendo no seu ritmo. Que as veias do cérebro seguirão íntegras e deixando passar o sangue. Que a tubulação de gás não vai explodir na hora em que se aperta o botão pra ferver a água do arroz. Que nenhum móvel do décimo andar do prédio onde se passa vai cair. Que o assaltante vai manter o dedo longe do gatilho. Que os pervertidos serão interrompidos. Que os raios passarão longe. Que o pedal do freio sempre será encontrado. Que as células se reproduzirão conforme o protocolo. Que a água que cai do céu, seguirá tubulação adentro até chegar no mar.

Que o filho vai te encontrar no fim do dia e vai pegar o livro da estrela do mar, deitar do seu lado no colchão, fazer cara de sofrimento e dizer: “ah, tadinha”. “Tadinha por quê?” “Porque o tubarão mordeu o bracinho dela”. “Mas o que acontece depois?” E aí ele vai rir, virar a página e dizer, com a cara mais sinceramente forjada de surpresa: “Ah! Cresceu de novo!”

A gente confia que vai viver, mas, only god knows why, não confia que a vida vai ser boa. Que o emprego vai sair. Que a roupa vai caber. Que a pessoa vai amar de volta. E vai te respeitar. Que as pessoas vão ler. E que vão gostar. Que vai parar de doer. Que alguém vai te entender. Que o dinheiro vai dar. Que o tempo vai abrir. Que o que tá ruim vai mudar. E o que está bom vai continuar. Que a verdade está sendo dita. Que não vai ter engarrafamento. Que o exame não vai mostrar nada. Que o paracetamol vai ajudar. Que o bracinho vai crescer de novo e nenhum tubarão mais vai arrancar. Por quê?

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