Imagine uma realidade em que todas as outras seis bilhões de pessoas que habitam o planeta não importam. O que vale é o que você quer, e todos se curvam diante do seu desejo. O que importa é visão que você tem sobre as coisas: o que você acha legal assim o é, assim como aquilo que você acha ofensivo. Um mundo em que você tem o direito e o poder de influenciar definitivamente a vida de cada um desses seis bilhões (e contando!).

Maravilhoso? Assustador?

Podemos perguntar ao autor deste texto. Certamente ele sabe como é viver nesse mundo imaginário.

Um cara que odiaria viver em um mundo em que ELE não pode elogiar uma mulher que passa na rua. Porque, obviamente, o mundo e as outras pessoas devem se moldar àquilo que ELE gosta de fazer.

Um cara que luta pelo direito DELE de lembrar a estranhas como elas são bonitas. Porque, para ELE, sempre que isso acontece, a Terra interrompe o seu movimento de rotação para que o momento se eternize.

Um cara que sabe que todas as mulheres que já foram tocadas por estranhos no mundo, deveriam ter ido à delegacia ao invés de reclamar na internet. Assim como tem certeza de que todas as mulheres que ouviram um ‘linda’, vindo de um estranho, na vida, se sentiram automaticamente felizes e agradecidas. Porque, em sua onisciência, ELE conhece a trajetória de vida de cada uma delas, o contexto em que a agressão ou o elogio aconteceram, e sabe o que se passa em suas cabeças. E aquela que o desmentir, está mentindo, obviamente.

Um cara que sabe que muitos homens têm dificuldade em se portar frente a uma moça desconhecida. E que, como ELE pode ser um desses caras e nada mais importa além do sentimento DELE, as moças têm mais é que ser compreensivas, caso a única forma de comunicação aprendida por ELE seja dizer um ‘gostosa’, ao invés de um ‘oi, tudo bem?’

Um cara, que do alto do seu conhecimento universal sobre linguagem e socialização, sabe que um ‘gostosa’ não passa de um ‘elogio bruto’. E se um ‘elogio bruto’ é a única coisa que ELE tem a dizer, não é porque a mulher a quem o elogio se dirige pode se ofender, que ELE vai se conter, não é mesmo? Até porque não existe direito mais inviolável do que o DELE de dizer o que ELE tem vontade de dizer.

Um cara que depois de muita observação empírica sobre a formação de casais heterossexuais na atualidade, sabe que não há meio termo: ou a mulher aceita o elogio bruto e se abre para o início de uma conversação, ou o cara fica com cara de paspalho, babando pelo canto da boca. Porque, somente ELE é sujeito de ação no seu mundo. O objeto de conquista não se move, não inicia nada e é incapaz de demonstrar interesse.

Um cara que sabe que, no fundo, o que toda mulher precisa depois de um dia cansativo de trabalho, é saber o quanto um homem que ela nunca viu na vida, considera sua aparência física digna de nota. Até porque, com quê humor esta mulher chegará em casa, para cuidar do jantar e alegrar o marido, sem esse turning point definitivo, que homens como ELE tem o poder de desencadear?

Um cara que adora receber elogios, brutos ou sofisticados, de qualquer mulher com quem ELE tope pela rua (somente mulheres, claro, porque receber elogio de algum ‘viado’ não é elogio, é provocação) e que sabe que todos os homens se sentem da mesma forma. Porque ELE é a régua do mundo e o que serve para ELE, serve para todos. É até estranho que algumas mulheres se ofendam com algo que ELE considera tão maravilhoso!

Um cara tão generoso que pediu permissão à mulher que tem em casa, antes de escrever no veículo que paga suas contas. Porque, claro, apesar de magnânimo, ELE também é um cara sensato e engraçado. E todo mundo, assim como ELE, acha muito engraçada essa piada novíssima sobre o fato de mulheres serem víboras que controlam os maridos, como um dono controla seu cão se estimação.

Fica a dica pros sites feministas: da próxima vez que alguma autora tiver essa ideia inútil de consultar mulheres para saberem como elas se sentem a respeito das palavras que são dirigidas a elas, não percam seu tempo. Perguntem para o autor desse texto. ELE sabe com o que as mulheres devemos nos incomodar e o que deveríamos deixar em paz. Afinal de contas, ELE sabe tudo. O mundo é DELE.

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