Eu dei um tapinha no meu filho hoje. Digo “tapinha”, sem eufemismo. Foi um tapinha mesmo, que (acredito eu, pelas evidências) não doeu, não deixou marcas, que ele nem notou no meio do próprio descontrole emocional. Corrijo: não doeu nem deixou marcas nele. Em mim, está incomodando bastante. Pelo motivo de que eu não concordo com o castigo físico de crianças. Ainda que eu tenha apanhado do meu pai e tenha sobrevivido, tenho cada vez mais convicção de que bater não educa criança alguma. De que a gente bate quando o descontrole se exacerba, depois dos argumentos não terem produzido o resultado esperado. De que a gente bate porque pode, porque tem direito, porque é mais forte.

E também porque a vida não é bolinho.

A vida – não só a minha – de forma geral, não é bolinho. Pra começo de conversa, grande parte da sociedade ainda acredita piamente que a agressão é via legítima de solução de conflitos. E dá-lhe brigas no trânsito; brigas nas escolas; brigas nas festas; violência doméstica; violência policial; xingamentos; yadda yadda. A gente nasceu nesse ambiente, cresce e se forma nele e, ainda que tenhamos uma convivência familiar ou escolar harmônica, a bolha em algum momento se rompe. Vivemos em um mundo literalmente agressivo. Se você aprendeu a “não levar desaforo para casa” ou que “se apanhar na escola, vai apanhar dobrado em casa” a coisa se complica. Se você aprendeu que uma infração leve significa puxão de orelha, e uma infração grave significa surra de cinto, então, nem se fala. E é incontestável que a maioria das pessoas que materna hoje, foi criada com o auxílio de castigos físicos. Se livrar do que fica impregnado na gente, dessa relação, é um processo e ainda que ideologicamente eu tenha me distanciado disso, ficou evidente no meu tapa, que a ‘assepsia completa’, nos meus modos e relacionamentos, ainda há de levar algum tempo. Estou tentando ser condescendente comigo mesma e aceitar que estou no caminho, mas não é fácil.

Em segundo lugar, o mundo também é um lugar simbolicamente agressivo. A maioria das pessoas trabalha muito; descansa pouco; corre demais pra resolver ‘os problemas’.  Maternadores, na maioria das vezes, fazem tudo isso e ainda maternam. Com o adendo de que, ao nos responsabilizarmos pelo cuidado de outro ser humano, é muito comum que tenhamos que trabalhar mais, descansar menos e resolver mais problemas. Isso não nos desculpa, mas talvez seja interessante voltar ao meu caso. O meu descontrole veio quando eu me vi, a dez minutos do horário de deixar Miguel na escola para que eu pudesse ir trabalhar, lidando com uma criança relutante em vestir o uniforme e deixar-se calçar os pés. Agressivamente relutante, porque ainda novo, Miguel também já percebeu o mundo em que vive e já começou a responder de acordo. Como eu disse, a rotina apressada não nos desculpa de agressões, mas certamente, se não houvesse horário de trabalho, se não houvesse horário escolar, se não houvesse eu sozinha lidando com uma criança e uma rotina, Miguel poderia ficar pelado pelo tempo que quisesse e vestir a roupa que quisesse depois. Não haveria imposição, não haveria resistência e não haveria tapa.

Esse raciocínio me leva a um inegável recorte de classe que, ao meu ver, precisa ser considerado quando discutimos Lei da Palmada, por exemplo. Parece, para mim, muito claro, que se apenas a Lei vier, as chances de que ela só puna maternadores pobres seja grande. Pra começo de conversa porque pobres são conhecidamente mais vulneráveis a se encontrarem com o lado punitivo das leios. E, em segundo lugar, pelo simples fato de que as chances são muitos maiores de você se descontrolar com uma criança quando se é pobre e trabalhar é uma imposição; num horário que não permite flexibilizações; tendo pouca ou nenhuma opção de cuidado alternativo, além da única creche ou do único cuidador auxiliar possíveis; precisando fazer longos trajetos casa-escola-trabalho em um tempo curto; e muitas, muitas vezes, como mãe, sendo a única responsável pela criança.

Isso não chega a inviabilizar a aprovação da lei para mim. Mas, infelizmente, parece que as discussões andam girando apenas em torno dos direitos dos pais de ‘educarem’ os filhos com os métodos que bem entenderem. Eu, particularmente, acredito que crianças sejam cidadãos merecedores de direito, e devam ter esses direitos garantidos, para além do julgamento de seus genitores, o que significa dizer, que eles devem ter a integridade física e emocional garantida, ainda que os pais não concordem. Mas acho que precisamos realmente discutir como a lei será aplicada e como facilitar a rotina de quem cuida dessas crianças, para que ela não precise ser aplicada. Senão, estaremos colocando apenas mais uma bola nesse malabarismo que os maternadores pobres fazem diariamente – não raras vezes, mães sozinhas – e ainda por cima, com uma pistola apontada para a cabeça.

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