Às vezes, quando eu voltava pra casa do trabalho de carro, e parava em algum lugar, ou o trânsito estava lento, dava sete horas. Eu ficava ouvindo A Voz do Brasil e pensando: “eu podia ter passado nesse concurso”. E falando: “eu podia ter passado nesse concurso, Bruno. Ia resolver uma parte da nossa vida”.

Eu tinha plena certeza que eu não tinha passado nesse concurso, portanto. Quer dizer, passado eu até tinha. Na posição 206, quando a necessidade inicial da empresa era de 88 jornalistas. Era a mesma coisa que não passar.

Nada que houvesse me desesperado, no entanto. Foi o primeiro concurso que eu fiz na vida. Quando ele foi anunciado, Miguel tinha acabado de nascer e a licença-maternidade, se servia para o propósito, porque me deixava tempo para estudar, também não servia para o propósito, porque no tempo que eu tinha, eu precisava cuidar de um bebê que não dormia muito; dormir o que desse; e estudar. No dia da prova – que eu precisei fazer no Rio de Janeiro – meus peitos estavam quase estourando de tanto leite retido. Eu tinha amamentado Miguel na tarde do dia anterior; tinha esquecido de levar a bombinha de extração; e era uma produtora de leite de fazer inveja em algumas vacas. E leite retido dói um monte, para quem não sabe. Eu saía da sala de meia em meia-hora para tirar o que dava com massagem manual e sofria durante todo o tempo. Considerei 206 uma posição muito digna diante de tudo, portanto, porque às vezes a gente precisa ser compreensivo com a gente mesmo. Ainda que essa ‘vitória’ não tenha me dado coisa alguma.

Até que.

As coisas não estavam boas. Eu estava frustrada por não realizar nenhum mísero sonho profissional. Eu ainda tenho 25 anos, mas sou uma pessoa ansiosa. – Não julguem – E acabara de passar por um mega stress no trabalho da época, por causa da minha grande boca facebookiana, sempre pronta para críticas certeiras,  que nem sempre agradam todo mundo. Eram quase cinco da tarde e eu olhava meu e-mail, como quem olha para o vazio, enquanto falava com o Bruno pelo celular. A mensagem explodiu na minha cara: Convocação do Concurso EBC.

CON-VO-CA-ÇÃO DO CON-CUR-SO E-B-C.

Eu ia narrando pro Bruno, enquanto eu lia, porque alguém precisava me certificar de que eu estava vendo o que eu estava vendo.

Era isso. E isso era tudo.

Ser convocada nesse concurso significava que eu tinha grandes chances de voltar a ser repórter. E que eu poderia trabalhar em veículos bem legais como a Agência Brasil, a Tv Brasil,  ou a Rádio Nacional. E que eu iria morar numa cidade grande. Essa cidade ficou definida alguns dias depois: eu ia morar no Rio de Janeiro. Rio fucking de Janeiro. Eu seria incapaz de contar quantas vezes eu sonhei que algum dia eu moraria no Rio de Janeiro. Desde o dia 1º de abril, eu moro. E se deixassem, talvez eu mudaria meu nome para Tâmara Freire Mora no Rio de Janeiro Cardoso, de tanto que essa realidade me felicita, ainda que me surpreenda.

O caso é que eu andava absolutamente descrente de que qualquer revolução poderia acontecer na minha vida. Pode parecer dramático, exagerado, mimizento. Mas era exatamente o que eu sentia. Eu considerava que todas as coisas haviam passado. Estavam perdidas. Que eu talvez conseguisse voltar pra Vitória e só. Porque o salário de jornalista era ruim. E eu era mãe solteira. E eu tinha um filho pra criar. E eu não podia ficar me arriscando por aí com menino a tira-colo. Porque é perigoso. Porque vai que eu fico sem dinheiro para sustentar a criança. E essas noias absolutamente loucas que a responsabilização materna produz na cabeça da gente.

Mas eu passei na p* do concurso. E vim pro Rio de Janeiro. E trouxe menino à tira-colo ainda que sozinha. E, óbvio, que o fato de ser um funcionária concursada de uma empresa do Governo Federal resolve uma enorme parte da coisas. Porque o medo de não poder prover o básico não tem mais razão de existir, mas os outros eu ainda estou enxotando inch-by-inch. E a gente tem se virado, ainda que sozinhos, na maior parte do tempo. Acreditando na imprevisibilidade da vida. E que ela acontece para o bem também. Não só pra sacudir a gente de cabeça pra baixo. Ainda falta uma parte bem importante para que se complete a coisa toda. Mas a vida vai muito bem, obrigada.

Só não me sobra tempo pra postar :/

Então, aí fica o meu informe, para alguém que, por ventura, ainda me lê.

Anúncios