Acabo de ler a reportagem O Bolsa Família e a revolução feminista no sertão, publicada no site da revista Marie Claire. E de me emocionar com ela. O start para a reportagem é uma pesquisa elaborada por uma antropóloga da Unicamp, sobre os impactos que o Bolsa Família está causando na realidade de mulheres do sertão do Brasil. Como a maioria de nós deve saber, há uma diretriz do Governo Federal para que as titulares do Bolsa-Família sejam a mãe, a mulher responsável pela família. Vi em algum lugar que não me lembro onde – portanto, há risco de equívoco, mas arrisco-me em dizer mesmo assim – que esta decisão é para evitar que o dinheiro seja usado para outras coisas, e não para o sustento da família. É que os homens poderiam gastá-lo com bebida, por exemplo, ao invés de colocar comida na mesa dos filhos. Já com as mulheres esse risco é muito pequeno, pois a maioria delas, até por um fator cultural eu faço questão de acrescentar, coloca as necessidades dos filhos em primeiro lugar.

Eu já ouvi discussões em grupos feministas sobre o fato de essa decisão – a de colocar a mãe como responsável pelo benefício – acabar endossando o senso-comum de que a função de cuidar da família e dos filhos deve ser majoritariamente feminina. Ao fazer isso, o Governo estaria dizendo para essas mães que é papel delas, e delas exclusivamente, zelar pelo sustento de suas crias, já que o pai, naturalmente alguém que se dedica menos a elas, poderia botar o dinheiro fora com vícios e outros supérfluos somente de seu interesse. Eu discordo bastante disso, e a matéria me emocionou também por apresentar dados que vão justamente ao encontro do que eu penso.

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Como uma das mulheres que participou da pesquisa enfatiza: “Há mais liberdade no dinheiro”. E quem pode discordar? A luta feminista hoje é, na maioria dos grupos, para que todas as mulheres possam escolher que forma de vida irão levar, o que significa, num exemplo que se aplica ao assunto, que a mulher deve poder escolher se irá se dedicar a sua vida profissional apenas, se irá cuidar dos filhos apenas, ou se irá mesclar essas duas funções. E que deverá contar com o apoio do suposto parceiro, caso decida ter um parceiro e ser mãe, e este deverá dividir com ela, com a igualdade que a realidade de ambos permitir, o cuidado com a casa e com os filhos.

Mas, todos sabemos que se a realidade não é assim hoje – as mulheres ainda são responsáveis por quase todo o trabalho doméstico, mesmo quando trabalham fora -, há algumas décadas, a realidade urgia para que a luta feminista fosse para que as mulheres pudessem e optassem pelo trabalho remunerado, justamente porque a inexistência desse dinheiro era um dos principais fatores que mantinham mulheres em casamentos infelizes e abusivos, vítimas inertes da violência doméstica. Com filhos, sem trabalho e sem formação, como enfrentar a cultura que apregoava que a mulher digna era a mulher casada, e abandonar o casamento? Como sobreviver sem o marido?

Acontece que muitas vezes nós nos esquecemos que o Brasil possui rincões em que a realidade descrita acima pouco ou nada mudou. Nesses lugares, como a matéria assinala, “o mercado de trabalho é exíguo para os homens. O que esperar, então, de vagas para mulheres.”? Além disso, a estrutura ainda é mais intensamente patriarcal e religiosa. “A mulher está sempre sob o jugo do pai, do marido ou do padre/pastor.” Literalmente sob o jugo, não apenas com as amarras simbólicas que nos prendem a esses atores masculinos nos nossos centros urbanos.

Imagine, então, que diferença não faz, para essa mulher, passar a ter em suas mãos o dinheiro para o seu sustento e para o sustento de seus filhos, sem que ela precise contar com a boa vontade de seu homem. Sem que ela precise suportar agressões e maus-tratos, porque é deste homem que todo o dinheiro provém.

Para essas mulheres, o cuidado com os filhos já é sua função exclusiva. Não há escolha, não há saída à vista, nesses lugares onde “as mulheres são treinadas desde crianças não apenas para servir aos homens, maridos e pais, mas para desejar servi-los” com muito mais intensidade do que acontece nas nossas realidades urbanas. A diferença é que o dinheiro necessário para esse cuidado, agora repousa em suas mãos. Assim como o poder de decisão sobre ele e sobre sua própria vida, por consequência.  Não é mesmo uma linda revolução feminista?

Além de tudo é um tapa na cara daqueles que insistem em dizer que o Bolsa-Família não passa de um programa assistencialista e eleitoreiro que não muda realidade nenhuma e “apenas dá o peixe, ao invés de ensinar a pescar”. Esta matéria é a prova de que 200 reais por mês promovem sim revoluções não somente na vida pessoal dos beneficiários, mas em cidades inteiras. E se o fator humano não é capaz de comover, essa matéria aqui explica como o benefício transformou a economia de pequenos municípios.

Eu sempre achei o argumento de que o programa diminuiu de 12 para 4,8% a faixa da população em extrema pobreza do Brasil bastante suficiente para que eu o apoiasse incondicionalmente. Tirar gente da extrema pobreza significa evitar que pessoas morram de fome. Tirar mais de 7% da população brasileira da extrema pobreza significa, mais precisamente, evitar que uns 12 milhões de brasileiros corram o risco de morrer de fome. Pra mim, isso é mais do que bom. Agora que eu confirmei que, além disso, ele está mudando a vida de uma porção de mulheres, que antes viviam sem qualquer perspectiva de autonomia e independência, não há deus nesse mundo que me faça deixar de amá-lo.

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