Noite de reveillon. Eu passo maquiagem no quarto, enquanto Miguel brinca com alguma coisa qualquer, ao meu redor. De repente, ele acha sua pomada contra assaduras, abre e começa a enfiar seu dedinho gordinho na abertura e passar o conteúdo pela cara.

– Miguel, pelo amor de Deus, o que você tá fazendo? Vai irritar seu olho! Pára com isso!

E daí eu observo que ele estava tentando passar a pomada na pálpebra, imitando exatamente o que eu estava fazendo: passando sombra nas minhas pálpebras. Ele estava brincando de passar maquiagem.

Vejam bem: Miguel não recebeu este nome à toa. Assim como praticamente todos os integrantes da raça humana dotados de pênis, ele foi designado arbitrariamente, antes mesmo de nascer, como um exemplar masculino da raça. Um menino. E, desta maneira, passou a ser identificado com um nome correspondente. Um nome de homem, de menino: Miguel.

Além de ter um pênis, Miguel não sofre de qualquer alteração genética ou nos seus órgãos internos. Ele também tem saco escrotal, testículos o que indica uma enorme probabilidade de que ele tenha mesmo a configuração XY no seu DNA. Por que, então, ele, um menino, um menino legítimo, estava brincando de passar maquiagem? Esta ação exclusiva das integrantes femininas da raça, adorada, inclusive, por todas nós mulheres (quem não gosta tem que ter algum problema!)? Será que o meu filho não é um homem, assim, com H maiúsculo? Será que a sua sexualidade desviada está mostrando indícios desde a mais tenra idade? Será meu filho UM GAY? (Ouço as cornetas do apocalipse).

Respondo com a continuação da história: ao perceber qual era a sua brincadeira, eu tirei a pomada das suas mãos, limpei seu rosto (acho que foi o Bruno que limpou, na verdade) e dei, então, um pincel limpo, igual ao que eu estava usando, para que ele pudesse brincar sem o risco de passar algum produto nos olhos, ou de ter alguma irritação na pele. Não, eu não briguei com ele. Não fiz questão de frisar que essa era uma brincadeira de menina, nem substituí a pomada por um carrinho ou bonequinho de luta. Eu não ensinei, assim como não pretendo ensinar nunca, que a nossa sociedade possui papéis de gênero imutáveis, aos quais ele precisa se adequar desde bem novo, a fim de levar uma vida normal e correta.

E ele, apesar de ser um legítimo exemplar masculino da raça, brincou com o pincel alegremente (por cinco segundos, porque aí ele cansou e foi procurar outra coisa, daí em cinco segundos ele cansou também e foi procurar outra coisa, e assim por diante). Mas a aversão dos homens por coisas de mulheres não deveria ser natural? O cromossomo Y não deveria fazer com que Miguel automaticamente rejeitasse tudo o que não é másculo e viril? Os papéis de gênero não são parte integrante da nossa natureza, uma coisa intuitiva, à qual todos as pessoas normais se encaixam sem maiores percalços, exceto os degenerados?

Pois bem, pleno 2013 (Feliz ano novo pra todo mundo, a propósito) e a gente tendo que dizer que não. Que isso tudo é CULTURAL, não natural. E usar os nossos próprios filhos como exemplo. O que vocês acham que aconteceria se Miguel pudesse crescer, sem que ninguém dissesse para ele de que forma ele deve se comportar, para que suas ações sejam condizentes com o órgão sexual que ele traz entre as pernas? Pois muitas pessoas, ao ver Miguel brincando de passar maquiagem nos olhos, prontamente o reprimiriam, dizendo que isso não é coisa de menino. Diferentemente, é claro, se Miguel fosse Maria. Aí, essa minha filha hipotética, ao me imitar passando maquiagem, seria encorajada, como a minha sobrinha é, por exemplo, e, aos 3 anos, já adora passar esmaltes nas unhas.

É possível que mesmo sem essa repressão, Miguel, ao perceber que os outros humanos com pênis ao seu redor agem diferente dos humanos com vagina, “aprenda”, por identificação, que essa atividade “não é para ele”. Apesar de eu ainda sonhar com um dia em que essas influências não sejam tão uniformes, é preciso encarar a realidade e reconhecer que a sociedade ainda é bastante binária e nós reproduzimos esse padrão diariamente, ainda que, muitas vezes, sem nem perceber. Mas, justamente por sonhar com esse mundo, é que eu faço questão de não reproduzir esse binarismo, pelo menos não no meu discurso oficial com o meu filho. Ele pode até querer só brincar com carrinhos, ao ver que esse é o brinquedo preferido de todos os seus amiguinhos. Mas ao entrar em uma loja de brinquedos, jamais será repreendido se quiser comprar uma barbie. Ou brincar de passar maquiagem, ou colocar uma roupa rosa. O mundo já repreende tantos dos nossos desejos, ninguém precisa de uma mãe que também faça isso.

Em tempo: o que define se uma pessoa é homossexual é o desejo sexual/afetivo por outra pessoa que tem a mesma identidade sexual. Resumindo: se alguém que se identifica com o gênero masculino sente atração somente por pessoas que também se identificam com o mesmo gênero, ela será homossexual. Nada além disso. “Ser homem” e ter a voz fina não configura. “Ser mulher” e não gostar de maquiagem não configura. É um conceito muito simples pra tantas pessoas escorregarem tanto, né. Além disso, somente a própria pessoa tem o direito de se identificar como qualquer coisa. Como homossexual, inclusive. Fazer isso por ela já é uma agressão.

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