O tamanho único não cabe mais em mim. Eu já desconfiava disso há algum tempo, mas foi no sábado, quando precisei trocar um presente que eu ganhei, que a realidade bateu com força na minha cara. A loja tinha dezenas de opções de um estilo de roupa na qual, até alguns anos, eu sempre me senti super confortável: decotadas, curtas, justas, coloridas, com brilhos etc. Um combo piriguete glam que sempre me vestiu como uma luva.

Mas a moda diz que você não pode celebrar o seu corpo se não estiver dentro do peso. Não pode exibir as pernas, o espaço entre os seios, marcar as curvas, atrair os olhares. E ela faz isso nas suas inúmeras propagandas povoadas por sílfides. E, claro, vendendo roupas “chamativas” num tamanho único, que obviamente não chega nem perto do G. Até porque, qual a gorda que vai querer evidenciar sua feiura? O certo é se esconder atrás de roupas largas, pretas, sem modelagem. Sem vida, sem graça.

Eu olhava para as roupas na arara e mesmo sem vestir já sabia que elas não passariam nesse quadrilizinho que mamãe, papai, e anos de junk food me deram de presente. Por um momendo, senti vontade de não existir. E hoje eu posso dizer: era mais fácil ser contra o padrão de beleza, quando eu estava dentro dele. Era mais fácil me solidarizar do que viver com essa voz interna que praticamente te acusa de um crime, quando bate a vontade de repetir o prato.

Ainda estou tentando lidar com esse sentimento. Não me lembro, nunca, na minha vida, de viver qualquer problema de auto-estima. Sempre me achei linda, divina, sensacional. Até quando eu estava grávida, e com uma penca de questões emocionais para resolver, eu cultuava a minha barriga, me achava poderosa. Mesmo naquelas exaustivas primeiras semanas depois de parir, assim que eu consegui ganhar as ruas portando a minha calça jeans, me senti sambando com toda a minha beleza na cara da sociedade. Agora, não sei mais.

Olho para as fotos e vejo um braço roliço que não deveria estar ali. Olho no espelho e me deparo com uma barriga que eu não sei daonde surgiu. Meu quadril está deixando o manequim 42 para trá e eu tenho medo de experimentar roupas novas e ter que admitir que 44 é o meu número agora e não tem choro nem vela. Tenho medo do sutien que marca no ombro. Da dobrinha que salta por cima do cós. Das assaduras no meio das coxas quando se usa vestidos. Essas coisas que as mulheres “tamanho único” não têm. Mas eu sim.

Só que hoje eu resolvi parte do problema de uma forma que eu não recomendo. Entrei numa loja para passar o tempo. Só que a tal loja tinha tamanho G. E tinha brilhos no tamanho G, e decotes, e transparências. Eu não precisava comprar roupas, precisava sim era amar meu próprio corpo, mas isso não tinha, só tinha roupas para vender. E daí eu comprei, gastei os tubos, mandei parcelar e vou passar o reveillon de piriguete-glam-mãe de família. Quando voltei, ainda mandei para dentro uns salgadinhos de camarão que estavam dando sopa na cozinha do trabalho. Porque eram salgadinhos de camarão, e minha religião determina que eu não rejeite nunca. E enquanto eu comia, e me desesperava, pensando em como eu vou fazer para pagar as benditas das roupas, eu resolvi assumir que agora eu sou gorda e que essa porcaria desse padrão que vá pro inferno. Eu ainda não amo essa moça gorda que resolveu aparecer na minha vida. Mas tem amores que são assim: precisa de tempo pra apurar.

P.S.: Justamente quando eu estava pensando nesses assuntos, alguém na minha timeline me indicou essa matéria excelente da TPM: Eu não visto 38. E daí? Vale a pena.

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