Miguel vai para a creche no ano que vem. Uma mistura de necessidade com escolha. Necessidade porque eu preciso trabalhar e, consequentemente, preciso ter onde deixá-lo. Escolha porque ainda que eu não precisasse, é provável que eu estaria trabalhando mesmo assim, e porque diante das opções que tenho, eu escolhi a creche pública. Me parece a mais adequada.

Mas não há vagas para todas as crianças. Você sabia disso? No meu caso, precisei inscrevê-lo em quatro escolinhas diferentes, que colocaram o nome dele numa urna, e encaminharam para o sorteio. Isso mesmo: sorteio. A escola convoca os responsáveis pela criança para comparecerem em tal dia e tal horário, e vai tirando os nomes da urna, um a um, definindo assim quais os sortudos que terão vaga, e quais os menos sortudos que precisarão aguardar o ocasional surgimento de uma na lista de espera.

No primeiro sorteio que fui, Miguel ficou na 89ª posição da lista de espera. Na segunda escola demos sorte: depois que a diretora reservou um determinado número de vagas para as crianças que moram no bairro em que a escola está localizada, ainda sobraram algumas e, desta vez, o nome de Miguel foi chamado logo. Ainda assim, fui a um terceiro sorteio, no meu bairro. E nesta, apesar do papelzinho que me entregaram trazer o número 62, nem a posição na lista de espera sei ao certo. Da quarta eu desisti, pela dificuldade que teria ao levá-lo e porque ele já tinha uma vaga garantida.

Ainda que existam esses ajustes – muitos pais como eu, para ter mais chances, inscrevem os filhos nas escolas do seu bairro e na de bairros vizinhos, mas querem apenas uma vaga -, obviamente, se existe sorteio é porque não há vagas para todo mundo. E porque, num passado recente, muitas mães dormiam nas portas das escolas por vários dias, antes da data marcada para a matrícula, para garantir a vaga, já que o sistema privilegiava quem chegasse primeiro. Digo mães, porque é esta a lembrança que tenho: mulheres – mães, tias ou avós – dormindo em barracas, às vezes até acompanhadas das crianças, por noites e noites seguidas.

Nos sorteios, a realidade também não foi tão diferentes. Nos dois que fui durante a semana – um logo no início da manhã, outro no final da tarde – a presença de mulheres era avassaladora. Em nenhum dos dois havia menos de 100 pessoas e, dentre essas, não era possível contar nem 10 homens. Já no sábado, dia do último sorteio, a situação era completamente diferente: mesmo sem contar, poderíamos dizer com segurança que a proporção estava perto do 50-50. É que no sábado, suponho eu, muitas pessoas não trabalham. Já nos outros sorteios, certamente houve quem precisou chegar atrasada ao trabalho, ou sair mais cedo, ou mesmo perder um dia de serviço, para garantir a creche do filho. E se sacrificar pelas crias é uma obrigação materna, correto? Não é a gente que padece no paraíso?

Até porque esse negócio de precisar de creche começou com essa ideia mutcho loca que algumas mulheres tiveram de que o seu espaço produtivo não deveria ser somente o doméstico. Que nós deveríamos ter condições de escolher, e que, por necessidade financeira ou por prazer, se decidíssemos trabalhar, deveríamos ter suporte do Estado, com políticas que incluem locais onde deixar nossos filhos, mesmo que eles ainda não estejam em idade escolar.

Ainda que, hoje, o trabalho feminino seja uma realidade consolidada na maioria das famílias (falo aqui de famílias “tradicionais”, casal heterossexual com filhos, não porque as considero um modelo, mas porque é nessa realidade que a crítica cabe, ok?), mostrando que as mulheres atuam em outros espaços, além do doméstico, isso não significa dizer que houve a mesma caminhada no outro sentido: a gente ainda usa o termo “ajudar” para descrever a contribuição dos homens nas tarefas de casa, o que significa que eles definitivamente não ocuparam com a mesma intensidade o ambiente doméstico. E, se os cuidados com esse ambiente incluem os cuidados básicos com os filhos, incluem obviamente os cuidados com sua rotina na escola ou na creche. Exemplos paupáveis: qual a proporção de pais e mães nas reuniões de escola do seu filho? Quem normalmente confere para saber se a professora mandou algum recado? Quem passa o estresse de perambular papelarias em busca de materiais no início de cada ano?

Não há vagas porque como diz a minha mãe: “nenhuma mulher hoje quer mais depender de marido e ficar em casa cuidando das crianças” (Inshalá!). Mas não há vagas, realmente, porque o Estado não se adequou na mesma velocidade para atender a nós, essas mulheres. Até porque também não são somente as famílias miseráveis que desejam uma vaga numa creche pública. Além da economia que isso representa (peguei, por curiosidade, um panfleto de uma creche particular com algumas atividades mais diferentes e o custo mensal é de absurdos 980,00 por meio período), todas as escolas mantidas pela Prefeitura que visitei parecem excelentes. A escola na qual matriculei Miguel oferece, inclusive, aula de libras aos alunos – uma diferença que me fez torcer duplamente para que ele fosse sorteado justamente ali.

Confesso que por algum tempo eu ponderei se não seria mais “justo”, eu, que com alguns ajustes teria condições de contratar uma babá ou até matriculá-lo em uma escola particular, desistir dos sorteios, deixar a vaga para alguma família que necessite mais. Só que eu estudei em escola pública toda a minha vida. E desde sempre me imaginei enviando meus filhos para as mesmas instituições. Convivendo com as diferenças, com realidades menos abastadas, aprendendo a brigar por um direito, e não apenas pela entrega eficaz de um serviço. Acho, inclusive, as escolas particulares uma aberração, no meu modo socialista de ver a vida. Aberrações necessárias num determinado contexto atual, mas, ainda assim, aberrações que não teriam o porquê de existir em tão larga escala no meu mundo ideal, em que as escolas públicas têm boa estrutura, os professores são valorizados, a comunidade se empenha em discutir evoluções no currículo escolar e, claro, há vagas para todos. Enquanto esse mundo ideal ainda não chega, a gente se degladia civilizadamente nos sorteios.

Ou nem tão civilizadamente assim: quando uma criança que tem irmãos é sorteada, conquista a vaga para si e para os outros também, automaticamente. Uma decisão muito sensata para impedir que mães tenham que deixar filhos em várias escolas diferentes. Num dos sorteios, a diretora pegou o nome de uma criança, que tinha outros dois irmãos gêmeos, totalizando três vagas. Não foram poucos os gritos para que a vaga fosse dada para apenas um deles (o que não aconteceu, claro.) É horrível, eu sei, mas é o que o desespero faz com as pessoas às vezes.

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