Quando eu vi a notícia de que a Denise Leitão Rocha – a assessora do Senado que teve um vídeo íntimo divulgado sem o seu consentimento e perdeu o emprego por causa disso  – vai ser capa da Playboy, senti um arrepio percorrer pela espinha.

É que, quando o caso todo estourou, eu escrevi sobre ela no Blogueiras Feministas, então imaginei, pelos comentários chegados na época, que muitos estariam se regozijando com a informação: seria a prova definitiva de que ela não era vítima coisa alguma, e estava, na verdade, muito feliz com a “fama” conquistada, até mesmo prolongando-a,  se é que não foi a própria que divulgou o vídeo por aí, começando com a história.

Acontece que não é de hoje que os fatos são torcidos, relativizados, quando temos uma mulher como vítima. Existe um fato que é a agressão sofrida por Denise, ao ter um vídeo íntimo seu divulgado sem o seu conhecimento. Mas até a validade da palavra da vítima é contestada, como é comum vermos em casos de estupro, por exemplo, e até mesmo de pedofilia. Levante a mão, quem nunca leu, ao abrir a caixa de comentários de uma notícia sobre estupro num grande portal, alguém aventar a possibilidade de que a mulher está mentindo, ou provocou o estupro de alguma forma. Isso é relativizar os fatos. Considerar que, pelas razões que sejam – normalmente ser mulher basta – a pessoa é considerada suspeita a priori. Isso é negar o que os fatos, em si, dizem: que aconteceu um estupro, um abuso, uma agressão.

Outra forma de relativizar os fatos é diminuir sua importância, devido a uma característica qualquer da vítima. Se uma mulher que for estuprada trabalhar como prostituta, por exemplo, grande parte das pessoas coloca a violência sofrida por ela em segunda instância, e passa a considerar que, por trabalhar com o sexo, o trauma sofrido não deve ser grande, afinal de contas se ela recebe para fazer sexo com desconhecidos, porque reclamar de uma relação sexual? Como se ali não houvesse um fato: o de que uma mulher foi obrigada, em determinado momento, a ter uma relação sexual com alguém. Como se sexo consensual tivesse algum ponto de encontro com o estupro. Como se a prostituição – ou estar bêbada, ou usar roupas curtas, ou estar sozinha em casa, ou ir a uma festa sem um homem do lado, a lista é imensa – tornasse alguma mulher menos cidadã, portanto, menos merecedora do direito inviolável à segurança do próprio corpo.

Voltando ao caso de Denise, desde o princípio sua agressão foi relativizada: questionavam o porquê de uma mulher se deixar ser filmada; questionavam se ela não estaria gostando da repercussão, visto que divulgava com frequência fotos sensuais na internet; questionavam até o porquê de ela “esculpir” tanto o seu corpo, se não objetivava ficar famosa com ele de alguma forma; e claro, aventavam a possibilidade de ela se aproveitar do caso para ganhar algum dinheiro com um ensaio para a Playboy, se é, é claro, que não foi a própria quem divulgou o vídeo, justamente para se beneficiar da repercussão que ele teve.

Na resposta a todos os comentários desse tipo que chegavam eu fazia questão de frisar – e quero repetir agora – que nada disso interessa, ou melhor, nada disso, deveria interessar. Porque esses questionamentos apenas jogam fumaça sobre o fato inegável de que um vídeo íntimo de Denise foi divulgado sem o seu consentimento, o que é uma agressão, um crime que precisa ter punição. Não interessa o que Denise fez ou fará da sua vida, qual a sua índole, sua intenção, ou quanto dinheiro ela pode ganhar agora que está “famosa”. Há um crime, há um vítima e, portanto, precisa haver um agressor, e precisa haver justiça, essa tal entidade que dinheiro nenhum ganho com ensaio na Playboy substitui.

Denise há de ter suas razões para posar na Playboy – podemos discutir o quanto a revista contribui para o reforço da mesma cultura machista que designa Denise como puta, só por deixar-se filmar fazendo sexo, mas isso já são outros 500 – e definitivamente tem o seu direito: posar nua não é crime no Brasil, e sendo ela maior de idade, de posse de suas capacidades mentais, não vejo porque condená-la por usar sua liberdade sobre o seu próprio corpo da forma como bem entende. Ganhar dinheiro? Que seja. O que não pode é outra pessoas usar seu corpo seu permissão, usar sua imagem permissão, e isso ser colocado em segundo plano por causa de coisas que nem deveriam ser discutias. Divulgar imagens íntimas de outra pessoa sem o consentimento dela é crime e ponto final. Eu luto para que o agressor de Denise seja punido. O resto? Não é da minha conta. E nem da sua.

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