Eu acho que já falei o suficiente sobre cotas nesses últimos dias, mas ficou faltando uma coisa, daí eu vou pedir licença pra Mary W e fazer uma republicação de um texto que tá no blog antigo dela. E que é genial demais e explica melhor do que qualquer coisa que eu poderia dizer a diferença entre cotas sociais e cotas raciais, por que ambas devem existir e por que as cotas sociais sozinhas não resolvem o problema. E com isso eu acho que posso encerrar os trabalhos sobre esse assunto, por enquanto. Respondo nos comentários o que der, mas please, leiam o que eu disse antes de vir dar paulada, só pra garantir se eu já não expliquei  o seu ponto discordante. Comentários são sempre bem-vindos, mas você chegar aqui pra dizer que eu sou racista porque disse que os brancos são privilegiados, ou esbravejar que a classe média é que carrega este país nas costas, não vai mudar meu ponto de vista, tampouco levar ninguém a lugar nenhum. E já existe um outro espaço em que você pode se sentir mais confortável. Enjoy it.

A obra de arte em forma de texto da Mary:

“Eu sei que eu escrevi mais de um artigo sobre política de cotas, mas nunca consigo achar nada no meio dos meus blogs espalhados pela web. O que me parece central nessa discussão é algo simples, mas que fica enevoado. Que a política de cotas visa combater o racismo. É uma medida que tem como objetivo diminuir as desigualdades raciais. Tem uma economista do IPEA que escreveu um texto muito bom sobre isso, explicando um pouco a confusão. Ela diz que num país que tem tanta desigualdade social, é difícil demais que as pessoas consigam pensar políticas públicas por QUALQUER outro viés que não seja o de diminuir a desigualdade social. Então a gente usa via torta pra legitimar e fazer passar as políticas públicas que nos interessam e acabamos alimentando a lógica. É assim que nós fazemos com o aborto, quando concordamos em colocá-lo na pauta da Saúde Pública. Nós sabemos que é uma questão de autonomia do sujeito. Mas fingimos que ele tem que ser liberado porque é uma questão social e que as ricas fazem enquanto as pobres morrem. É verdade isso. Mas não deveria ser o caminho da luta. Os fins justificam os meios, mas até chegar no fim as pessoas já estão bem burras. Então o racismo brasileiro. Que está entranhado e precisa ser combatido. Daí essas propostas todas. Que a gente chama de ação afirmativa. E que envolvem desde visibilidade dos negros na publicidade e história da África até política de cotas. São ações que a gente chama de engenharia social. Recebem esse nome porque pretendem transformar a estrutura*, que seria viciada. Você precisa dar uma paulada na estrutura, pra que ela comece a fluir diferente. Uma das coisas que está na estrutura da sociedade brasileira é o racismo. Com todas as consequências psicológicas, sociais e econômicas. Se mudarmos a estrutura, mudaremos as consequências. Veja bem. Maior igualdade social é uma consequência que teremos ao combater o racismo. O que estamos discutindo é essa estrutura que foi historicamente construída para colocar um grupo sempre à margem. E sofrendo as consequências psicológicas, sociais e econômicas de estar à margem. As cotas tem a finalidade específica de aumentar a classe média negra e com isso permitir que o imaginário seja substituído. E que a diversidade tome conta. Que as pessoas no escritório e na cozinha não tenham “cor”. É uma medida que se provou eficaz para a transformação da estrutura. Tanto que ela é pensada de forma provisória. Uma vez estabelecida a classe média negra, os filhos dela estudarão e assim por diante. O que, para mim, é o fundamental é perceber isso. Que não é uma política pública voltada para o combate à pobreza. É corretiva de uma estrutura que todos nós renegamos que tem origem no colonialismo e num dos episódios de maior barbárie da história universal. Aparecem problemas? Trocentos. Na sala tem aluna branca que conta que perdeu o PROUNI pra alguém só porque não era negra. Um colega de mestrado, que morreu de infarto com 30 anos, implementou uma cotas indiretas num morro carioca. Um cursinho de alta qualidade para estudantes negros. E ele, que também era negro, chorou quando um menino branco o procurou, pedindo pra frequentar as aulas. O menino morava no morro, ué. E claro que ele frequentou as aulas. E eu não sei o que aconteceu. Mas ele deve ter tido menos chance que os colegas, por conta das cotas. Ninguém é insensível aos problemas individuais. Ninguém é insensível às desigualdades sociais. Nós estamos, todos, acho, lutando por um mundo mais justo. Essa batalha específica, é sobre racismo. E eu noto que as pessoas colocam renda nessa batalha. E não é por maldade. É porque elas querem que também isso seja resolvido. E todo mundo quer. Mas política pública tem objetivo, tem público-alvo. Sem querer, essas pessoas embolam o meio de campo. Vamos lutar, então, por outras cotas. Mas ESSAS cotas são para negros. E visam combater o racismo.”

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