Ele ralha comigo toda vez que eu dobro o tapete do banheiro. Uma mania adquirida da minha mãe, que eu faço, automaticamente, sem qualquer razão. Na casa da minha mãe, o espaço estreito não permite que o tapete seja colocado esticado, mas na nossa casa sim. Ela é pequena, a nossa casa. Bem pequena é importante assinalar. E alugada: a mais barata que achamos com dois quartos e lugar onde pudéssemos estacionar o carro. Mas o tapete cabe inteiro dentro do banheiro, pelo menos. Ainda assim eu continuo dobrando, no automático, sem qualquer razão que justifique. E ele continua ralhando comigo, de brincadeira, e segue contando pros outros, de brincadeira, como a lavagem cerebral que a minha mãe fez em mim foi forte. O exemplo: eu dobro o tapete do banheiro, como a minha mãe faz em sua casa, mesmo que no banheiro da nossa casa caiba o tapete inteiro.

A nossa casa. Essa habitação pequenina: dois quartos interligados, uma cozinha-sala-copa-área de serviço (tudo junto e misturado), um banheiro, uma garagem e um quintal cimentado onde Miguel joga bo-bolas. A nossa casa, sempre uma bagunça. Na garagem, brinquedos de Miguel se empilham, não cabendo nas sacolas nas quais os guardamos, caixas, que não sabemos que destino dar, se empilham aqui e ali. Bo-bolas das que vendem em feiras, de tênis, de futebol, de futsal, de soprar e até de futebol americano, rolam descompromissadas pelo espaço. No quarto de casal, 1 milhão de sapatos, que eu tiro depois de usar e não guardo, tomam conta do chão. Na cozinha, pequenas tralhas sem destino certo vagam ora pela mesa, ora pelo balcão, ora pelo tampo da máquina de lavar, ora pelo topo da geladeira.

Vez ou outra a gente se olha, decide arrumar tudo, pra depois reclamar como o tudo nunca acaba. Mas, na maioria das vezes, a gente só lava as vasilhas pra sujar de novo; afasta as tralhas da mesa para poder caber as panelas e pratos, passa por cima dos sapatos todos para alcançar a cama, e se esparrama lá no fim da noite para ver algum episódio de série, algum filme, alguma bobeira que está circulando internet afora, dormir ou outras mumunhas mais.

Tem só três meses – e um dia – que a tal “nossa casa” existe, mas ela já é um barato.

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