Hoje é Dia do Rock e o título do meu texto tem Michel Teló no meio. Só isso deve dar vontade de vomitar em um bocado de gente né, não? E olha que eu gosto de rock. Gosto bastante de rock. Já tive épocas na minha vida de só ouvir rock, inclusive. Sou herege? É que existe uma linha clara – mas que deve ser tênue para alguns – que divide gosto e preconceito.
Tudo bem você gostar de Metallica e torcer a língua pra Michel Teló. Eu mesma danço Michel Teló nas festas; ouço sem – muitas – reclamações se alguém ao meu lado estiver ouvindo; até conheci o famigerado cantor, que acariciou minha barriga de grávida e comentou sobre a coincidência do meu filho e do sobrinho dele terem nomes bastante idênticos, Miguel Luiz (o meu) e Luiz Miguel (o dele) – sim, se cortem de inveja; mas não tenho uma música sequer do dito cujo no meu computador, e provavelmente não gastaria dinheiro para assisti-lo cantar.
O que não quer dizer que eu vá no meu perfil do facebook dizer como Michel Teló é escória, como o Brasil só exporta coisa ruim, como as pessoas que gostam de Michel Teló são mal educadas musicalmente. Aliás, que educação musical é essa tão aclamada? Porque é provável que a galera que só ouve Schubert também considere Ramones uma grande bosta.
Eu digo de Michel Teló pela popularidade do cantor mundo afora, mas dá pra substituir por qualquer outro cantor popular. Percebem o impressionante padrão? Curiosamente, só aquilo que o “povo” gosta é que é ruim. Só aquilo que o povo pobre gosta, mais especificamente, recebe tamanhas e tão ferozes críticas.
Não gostar de alguma coisa e ter o ímpeto de criticá-la é algo perfeitamente normal e saudável. Até porque um produto cultural que não incite reações ou seja unânime perde um bocado do seu valor primeiro de produto cultural que é, justamente, mexer com o espectador. Mas há uma linha clara – mas como eu gosto de confiar na boa índole das pessoas, acredito que seja tênue para alguns – entre dizer que “Ai se eu te pego” é ruim, na falta de adjetivos mais específicos para designar o seu desagrado pela música, e dizer que ela é ruim, “assim como tudo o que o Brasil” produz. Entre dizer que a letra da música “não tem profundidade” e dizer que a culpa disso é da “burrice do povão brasileiro”.
Em última instância, é possível questionar até porque considera-se a música de Michel Teló “sem valor musical”, enquanto tantas músicas de outros ritmos, ou menos populares também apresentam letras igualmente “rasas”, ou arranjos “poucos complexos”, sem receber a mesma crítica. Não é difícil perceber o juízo de valor que se faz a priori, só pelo fato da música ser brasileira, na voz de um cantor sertanejo, que faz muito sucesso entre as camadas mais populares. Mas em algum momento isso nos levaria a uma discussão sobre as características que definem o que é um boa música, algo que eu não tenho capacidade de fazer e considero inútil para esse espaço. Porque, no fim das contas, para mim, essa questão nunca vai deixar de ser uma inferência de valores absolutamente pessoal.
Para considerar tal música “boa” ou “ruim”, cada pessoa lança mão de quesitos que não necessariamente são importantes para ou outros. A qualidade fotográfica de um filme, por exemplo, não necessariamente interessa a todos os que assistem. Há os que valorizam apenas a história contada e não vejo porque desmerecê-los enquanto espectadores. Assim como não vejo porque a crítica contra a má fotografia não possa ser feita. Desde que a coisa não descambe para “esse povo burro que não vê como a fotografia é ruim”, como tem acontecido muito quando o assunto é a música de Michel Teló, e outros.
Uma coisa engraçada é ver como o classismo se contorce diante do sucesso que Michel Teló tem feito no exterior. Nossa classe média tão acostumada a importar músicas de fora, que mostram à música atual brasileira o que é qualidade, não entende como algo considerado por ela como tão ruim, possa ser considerado bom pelos verdadeiros povos educados deste mundo. Igualmente engraçada é a esquizofrenia desses mesmo críticos ferozes que, ao mesmo tempo em que questionam como o povo pode gostar de coisas tão ruins, reclama quando suas músicas boas se tornam sucesso na boca do povo.
É que o ponto principal do classismo não é, de fato, mostrar qual a classe iluminada que precisa ser seguida, mas sim como diferenciar-se da classe que está “abaixo”. Quem critica Michel Teló, se apoiando em argumentos classistas, quer, na verdade, mostrar como é diferente, como não se junta com essa “gentinha”, como conhece coisas incríveis que o “povão” nem sonha em conhecer, e que não teria ouvido apurado o suficiente para gostar, de qualquer forma.
O meu desejo para o Dia do Rock (#alocka) é que todas as pessoas tenham acesso a tudo, ouçam o que puderem, e gostem do que quiserem gostar. De Michel Teló ou de Beatles. Ou de ambos. Afinal de contas, o rock é revolução e não status quo. Quem é rockeiro mesmo não permite que ele se preste a mantê-lo.

Até Raul já foi cowboy, ó

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