A secretária me ligou numa quarta-feira, dizendo que o chefão do lugar queria me entrevistar no dia seguinte. Eu estava de viagem marcada. Iria exatamente no dia seguinte, no primeiro voo, umas cinco da manhã. Tremi. Eu estava esperando essa ligação desde sempre, eu acho. Mais do que isso, eu sabia que ela iria chegar. Rearrumei minha vida, mudei de cidade, mas eu estava só esperando ela chegar para rearrumar de novo, mudar de cidade de novo. Respirei e disse: – É que eu tenho uma viagem marcada para amanhã, mas remarco meu voo se for preciso. Ela disse que iria verificar a possibilidade e me ligou minutos depois dizendo que eu podia fazer a entrevista na próxima segunda. – Você tem certeza que não vai pegar mal pra mim?, eu perguntei. – Eu mudo meu voo, quero muito essa entrevista, não tem problema. – Nada, ela disse, fica tranquila.

E daí eu viajei no outro dia: fui para o Rio de Janeiro, pela primeira vez. Vi o Cristo, tirei foto, me embebedei na Lapa. Me diverti um bocado. Um mês e meio depois chega um e-mail: “Você foi recomendada de Vitória. Pode passar aqui essa semana pra gente conversar?” O e-mail que eu estava esperando, desde sempre eu acho. Pelo menos desde os seis anos, quando meu pai perguntou o que eu queria ser quando crescesse e eu respondi de pronto: “Repórter de televisão.”

Mas eu não podia. Alguns dias antes eu tinha feito o exame definitivo. Estava grávida de cinco semanas, mais ou menos. Não dava nem pra ver o embrião pela ultrassonografia, ainda assim eu estava grávida, não havia dúvidas. E quem contrata grávida? E qual grávida, mãe solteira, sairia da casa da mãe, deixaria um emprego certo, para rearrumar a vida, mudar de cidade? Eu não podia. Mesmo que me aceitassem daquele jeito, grávida, eu estava tão quebrada pela notícia da gravidez indesejada, que não teria forças para rearrumar minha vida, mudar de cidade, e realizar um dos meus grandes sonhos. Aquele eu estava esperando se realizar desde sempre, eu acho. Desde os seis anos, pelo menos.

E daí eu não quero que me entendam mal. Não é inveja, cobiça, ou seja lá qual nome quiserem dar. Mas é que eu fico triste quando vejo outra pessoa fazendo aquilo que eu quis fazer desde sempre, eu acho. Desde os seis anos, pelo menos. Aquela penosa sensação de quase, de ver a coisa longe, se esticar em direção a ela, tocá-la e ser puxada de volta, sem conseguir agarrá-la. Ainda porque eu sei, desde sempre, eu acho, que eu sou muito boa nisso. Ou era.

Anúncios