Quando eu leio uma notícia dessas, quase choro de tão lindo que eu acho. Em resumo, Ercília, 41 anos, uma catadora de material reciclado da Serra, agora é a nova aluna do curso de Artes Plásticas da UFES. Como que por um melindre do destino, Ercília concluiu o Ensino Médio depois de ver em uma parede em frente a um lugar de onde recolhia materiais, um anúncio de vagas no curso de Educação de Jovens e Adultos. Passou no vestibular, estudando livros achados no lixo. Precisava pedalar mais de uma hora para chegar ao curso, e ainda levava o filho na garupa, porque não tinha com quem o deixar. Tempo para os estudos? Só de madrugada. E mesmo assim ela passou e agora estuda de graça em um universidade federal. Não é lindo?

Eu estudei na UFES, nesse mesmo Centro de Artes onde Ercília estudará, mas entrei antes de existir uma política de cotas. Pobre, que eu saiba, não existiu nenhum na minha sala. Negro, idem. Tínhamos alguns classe média baixa, é claro, que até estudaram em escolas públicas, mas poucos. E acredito que todos no fim das contas podíamos tomar nossas cervejas em algum bar da Rua da Lama (uma cerveja, rachada em três cabeças, às vezes) e comprar nossos cigarros subversivos a varejo na cantina do Metrópolis. Mesmo para quem tinha que trabalhar como garçonete para pagar o aluguel, como eu, a sobrevivência jamais foi suada como imagino que tenha sido para Ercília.

Ercília deve ganhar muitíssimo com sua experiência em um lugar de disseminação do conhecimento, com seus aprendizados, com sua formação acadêmica, mas a universidade ganhará muito mais tendo Ercília em uma de suas salas. Ganhará, antes de mais nada, a diversidade que lhe deveria ser obrigatória e, ainda, um tantinho de justiça social, que ainda tanto falta. Taí outra coisa que eu acho linda.

Mas tem gente que lê matérias como essas e não acha lindo. Até reconhece os esforços de Ercília, mas se aproveita de seu caso para bradar contra esse “esquerdopetismo” alucinado, que anda promovendo esse novo tipo de discriminação, travestida dessas políticas desnecessárias de cotas. Dizem, essas pessoas, que Ercília é mais uma prova de que vencem na vida todos os que têm garra e só permanecem pobres, analfabetos, à mercê de seus direitos, os preguiçosos. “Pra quê ficar dando Bolsa Família pra essa gente, se eu preciso trabalhar para ganhar meu dinheiro?”, se perguntam estupefatos, os comentadores de notícias dos grandes portais (deve haver uma associação deles). Você pode vencer na vida, basta correr atrás, é o mote do pensamento.

Então, poder, até pode, mas quem disse que isso é obrigatório? Quem você pensa que é, querido comentador do G1 para dizer quais as possibilidades, capacidades e sofrimentos, que a vida de cada um oferece? Ercília pôde, Lula pôde, muitos outros puderam, e isso não quer dizer absolutamente nada sobre os outros milhões de brasileiros miseráveis. Quer dizer apenas que o estado brasileiro falhou, absolutamente, com ela. Como ainda falha, infelizmente, com todos esses miseráveis. Ercília precisou passar pelo EJA apenas porque o Estado foi falho quando deveria ter oferecido a educação de qualidade em sua juventude e condições plenas de sobrevivência para que ela não precisasse abandonar a escola. Ercília só teve que estudar de madrugada com livros achados no lixo, porque o Estado é falho em não oferecer vagas gratuitas para todos os que quiserem estudar em uma universidade. O Estado falha com todos nós, na verdade, mas quem estuda nas melhores escolas particulares, pode se dar ao luxo de ser apenas estudante durante toda a adolescência e passa por um vestibular sem sustos, graças ao “conhecimento” (com muitas aspas, por favor) adquirido nos melhores cursinhos nem sente isso. A conta cai todo nos miseráveis.

E quando o Estado tenta consertar da maneira mais rápida e eficiente possível (a matéria não cita se Ercília ganhou uma das vagas de cotas, mas eu aposto, justamente pela omissão, que sim ), você, querido comentador do G1, ainda vem encher o saco? Ah, tenha santa paciência. É óbvio, que o ideal seria que a educação básica fosse exemplar em todo o país, que todo mundo tivesse condições de manter os filhos na escola, que houvessem vagas para todos na universidade. Eu já disse isso logo acima, não disse? Mas apesar de termos avançado muito nos últimos anos, ainda estamos longe do ideal. E enquanto o mundo ideal não chega, a gente faz o quê com pessoas com a Ercília? Deixa elas estudando de madrugada com livros achados no lixo, enquanto os nossos filhos sonham com o carro que vão ganhar junto com o bom resultado na prova. Quem a gente pensa que é pra dizer que os nossos pobres não devem ser beneficiados pelas cotas?

Apesar dos comentaristas do grandes portais me tirarem dos eixos, eu prefiro terminar esse post com fofurices, que combinam mais com a boa notícia que é a Ercília ter entrado na UFES. Como disse um ex-professor meu: seja bem-vinda ao Centro de Artes, Ercília. É uma pena que eu não tenho tido a chance de ser sua contemporânea. Certamente a diversidade e justiça social que você representa, teriam tornado a minha experiência na universidade ainda mais enriquecedora.

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