Eu sei que você não quer a minha solidariedade. Você quer me chamar de puta e fazer escrutínio da minha vida nas redes sociais, e me culpar pela fome na África. Mas eu te dou a minha solidariedade assim mesmo, porque antes de estar aqui e ser a puta que entrou no seu caminho, eu já estive aí no lugar que você está e eu já chamei alguém de puta. Mas foi só porque eu ainda não tinha me tocado que isso só valida um sistema que uma hora ou outra vai engolir a gente. Tipo agora, que a puta sou eu. Então, eu nem ligo de você me chamar de puta. Se isso te faz bem, pode chamar. Eu não vou chamar você de puta de volta, nem de coisa alguma só pra te ofender, porque eu tô na paz.

Não me interessa te ofender. Não quero que você se machuque mais, porque antes de tudo você é mulher, e eu tenho uma solidariedade infinita com você só por causa disso, porque eu acho mesmo que a gente já nasce com a prerrogativa da opressão. Com tudo mais difícil pela frente, então, não vou ser eu a te dificultar as coisas ainda mais. Eu só espero que você não faça isso comigo. Pelo menos não faça por um tempo muito longo.

Porque é clássico a gente precisar desse momento de mirar em alguém e atirar. E a gente aprende por imitação que a culpa é sempre da puta, né. Não importa se ela apareceu depois que tudo acabou. Não importa se você nem conhecia a puta. Mesmo que a puta tenha sido a outra parte de uma adultério, não importa que o traidor tenha sido ele e não a puta. E a gente aprende a olhar pra frente e ficar ali contemplando “a culpada” por toda a desgraça. E chamando de puta e descobrindo os podres pra sair contando… Bla bla bla. Eu tenho montes deles e não faço questão de esconder, então você pode chafurdar na minha lama se você quiser. Mas é lama do mesmo jeito, então, mesmo sendo dos outros, a gente se suja quando mexe. E do mesmo jeito que você pode chafurdar na minha lama, qualquer pessoa pode, então não há podre meu que vai fazer a situação mudar. Porque bom, eles já foram expostos e nada mudou.

É provável que eu não deveria ter escrito esse texto, muito menos publicado. Porque quem sou eu para falar com você? Que ousadia! Eu nem te conheço, pra começo de conversa! Mas esse espaço aqui é meu e eu que mando. E talvez nessa missão de escrutínio você chegue até aqui e leia. E eu não espero que isso mude a sua vontade de me chamar de puta, pode ser até que a sua vontade aumente. Mas eu só queria que você visse que eu não sou nenhuma puta de revista. Nenhuma “ladra”, dessas que as publicações femininas ensinam como identificar e neutralizar. Eu sou só uma mulher querendo ser feliz. Igual a você.

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