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Esse post deveria ter sido publicado no dia 25 de novembro, integrando a Blogagem Coletiva do dia Internacional pelo Fim da Violência contra a Mulher das Blogueiras Feministas. Mas não deu. Eu comecei a escrever no dia 25 e não consegui terminar. Mas enquanto existir uma mulher no mundo que seja agredida, a informação e o protesto continuarão sendo necessários, então fica o meu post, ainda que atrasado.

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Si, en Europa también. Diz essa matéria do El País sobre a violência contra a mulher. Sabe a Europa, aquele lugar cheio de países desenvolvidos e pessoas pretensamente idem? Lá também se bate em mulher. Mesmo na Noruega, que a exemplo dos outros países nórdicos, 0rgulha-se de sua igualdade entre gêneros, lá também se bate em mulher. E também na Ásia, e na Oceania, na África e na América. E aqui no Brasil. Ali na casa ao lado. Até aí na sua casa, talvez.

Algumas vezes, a gente até vê essa violência nos jornais. O marido que bebeu demais. O fulano que tinha ciúmes da namorada. O estranho que não suportou ser rejeitado. Os tais crimes passionais. Só no Brasil, 50 mil mulheres são assassinadas a cada ano. Sem contar as estupradas, surradas e humilhadas que não morrem. Pelo menos não fisiologicamente. Quanta paixão, não é mesmo? Só que não.

Imaginem que existisse um país habitado por todas as mulheres do Brasil. E um outro país, habitado por todos os homens. E que na divisa entre eles, moradores desse segundo país matassem por ano 50 mil habitantes do primeiro. Ainda seriam crimes passionais ou genocídio? Os habitantes do segundo país – os restantes, que não mataram ninguém – ainda continuariam achando que não precisam fazer nada a respeito? Continuariam pensando que é um problema individual que nada tem a ver com a cultura na qual foram criados? Porque tantos homens acham que têm o direito de matar tantas mulheres?

Ainda há quem diga que é exagero afirmar que a violência contra a mulher se trata, na verdade, de um feminicídio. Essas pessoas preferem focar no ciúme que o fulano sentiu, ao invés de pensar no porquê de ele achar que o ciúme justifica um assassinato. Ao meu ver, há uma explicação muito simples para isso: se você considera o crime como passional, automaticamente culpa-se o autor do crime apenas, mas a partir do momento em que se assume que o problema é a sociedade patriarcal em que vivemos, que dá o direito de um homem matar sua companheira tão banalmente, em defesa da honra, faz-se preciso que todos assumam uma parcela da culpa.

Todo carinha que numa balada não respeita o direito da mulher sobre o seu próprio corpo, e tenta beijá-la a força, é um assassino de mulher em potencial. E se a sua esposa um dia te negar uma relação sexual? Se você aí, homem-de-bem-que-jamais-mataria-uma-mulher faz isso, você é parte do problema. Todo homem que divide as mulheres entre “piranhas” e “direitas”, com base em com quantos homens ela já transou, e acha que é válido humilhar e destratar as primeiras, é um assassino de mulheres em potencial. E se um dia você descobrir que foi traído? Se você aí, homem-de-bem-que-jamais-mataria-uma-mulher faz isso, você é parte do problema. Todo homem que acha que é uma obrigação feminina cuidar da casa é um assassino de mulheres em potencial. E se um dia você chegar meio nervoso e tudo estiver uma bagunça e a janta não estiver feita? Se você aí, homem-de-bem-que-jamais-mataria-uma-mulher faz isso, você é parte do problema.

Feminicídio: guarde essa palavra.

Ironicamente, a comparação com o estado nazista é feita contra as feministas. Nós mesmas, as feminazi, que vemos pêlo em ovo, que queremos acabar com a família e com a ordem natural do mundo que ia muito bem sem a nossa interferência. Porque claro, os problemas não existem, é a gente que os inventa.

A gente que, sem qualquer justificativa, quer acabar com o sagrado direito à liberdade de expressão de uma empresa de propaganda (!), ao criticar um anúncio que diz que as mulheres devem usar o seu charme sexual para evitar a ira de seus parceiros. A gente que inventa, logicamente, os milhares de casos de mulheres que são humilhadas e espancadas diariamente por seus companheiros por terem feito “algo errado” como gastar demais ou bater o carro. A gente que vive nessa realidade alternativa em que mulheres têm empregos e carros próprios e devem fazer sexo única e exclusivamente para satisfação do próprio desejo e não para se livrarem de um safanão do marido. Ai, essas feminázis.

P.S: No Blogueiras Feministas tá rolando 16 dias de ativismo pelo Fim da Violência contra a Mulher, cada dia com uma abordagem diferente do tema. Daí veio a imagem logo acima. Não esqueçam de passar por lá também! 

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