Como tudo na minha vida, eu fantasiei esse momento. Esse, no qual eu sentaria na frente do computador, para escrever sobre o meu parto. Seria lindo, poético. Eu falaria sobre como tudo aconteceu de madrugada: a bolsa rompida, o corre-corre até chegar ao hospital. As dores, hum, as famigeradas dores, que eu não descreveria, por serem indescritíveis. Enfim, o momento crucial em que, num último esforço, ouve-se o choro: Miguel nasceu.

Quem sabe até eu faria alguém chorar. Quem sabe grávidas leriam o meu texto, como eu fiz com o de tanta mães, e se sentiriam motivadas a deixar de lado a frieza da cesárea com hora marcada. Quem sabe até eu virasse ativista pelo parto normal, o texto no blog me levaria ao sucesso, eu daria entrevista no Jo, teria quadro em algum programa da GNT… Ai, seria lindo. Seria poético.

Como tudo na minha vida não foi isso que aconteceu. Prevendo minha reação, após oito meses de convivência, a médica já chegou dizendo: “Não fica frustrada. Você tentou o quanto pôde”, ao avisar que eu teria que passar por um cesárea. Eu já estava em trabalho de parto há seis horas. Contrações fracas induzidas pelo soro. Dilatação: 1 cm. A mesma de quando eu cheguei ao hospital com a bolsa já rompida.

Era meio-dia – e não a poética meia-noite – e fazia um calor acachapante. Minutos antes eu postara no twitter: “Não importa a minha ansiedade, Miguel está proibido de nascer hoje. Fazer aniversário junto com o Golpe não dá. Prefiro o dia da mentira.” Foi só dizer.

A ansiedade naqueles dias realmente estava batendo recorde. Eu já tinha parado de trabalhar havia duas semanas, por conta de uma infecção urinária que me fez ter contrações e quase adiantou o parto, e o prazo para o bebê nascer acabava no sábado. 31 de março caiu na quinta.

Desde o início da gravidez meu plano era ter um parto normal. Desde antes de engravidar, na verdade, sempre fui entusiasta do parto normal e acho muito equivocada a cultura da cesárea que se estabeleceu no Brasil. Quase todas as mulheres que eu conheço se mostram aterrorizadas pelas dores do parto e, quando engravidam, com o incentivo de seus obstetras, acabam marcando o dia do parto desde o primeiro mês, sem nem dar-se a chance de sentir como o parto natural realmente é.

Não é estranho que durante toda a minha gravidez, a reação das pessoas sempre era de surpresa quando eu dizia que estava esperando para fazer o parto normal. Muitos tentaram, inclusive, me dissuadir, argumentando que a cesárea além de não doer, é mais “prática”: pode ser feita com hora marcada, sem sobressaltos, sem esforço e sem a “feiura” dos gritos, das pernas abertas e do bebê atravessando a vagina afora. Poucos entenderam que, para mim, a hora do parto nunca tratou-se de praticidade.

Eu lia relatos de parto humanizado na internet e esperei ansiosamente o meu momento de viver aquilo tudo. De adentrar a partolândia. De sentir as dores, sim, e também a sensação única que deve ser a de quando elas acabam. De estar ali, participando, por tantas horas quanto demorasse, ao invés de simplesmente esperar passivamente que os cortes e suturas sejam feitos.

Não deu, infelizmente. Foi com muita frustração e muito medo que eu tive que esperar passivamente que os cortes e suturas fossem feitos, enquanto os médicos conversavam animadamente sobre as pacientes tatuadas que eles tiveram, e a dificuldades em costurar a pele de uma forma que não deformasse os desenhos. E eu ali, estatelada, anestesiada, aterrorizada – e tatuada. Querendo só que tudo acabasse, que Miguel nascesse vivo, que eu continuasse viva – porque ao contrário do que muitas pessoas pensam, o risco de mãe e filho morrerem numa cesárea é muito maior do que num parto natural.

Até que num momento tudo ficou em segundo plano. Ainda sem vê-lo, eu ouvi Miguel chorar. Ele estava vivo, estava bem, estava ali do lado de fora de mim. Ele continuou chorando enquanto os enfermeiros o examinavam, mas parou na hora que um deles o colocou ao meu lado e eu pude beijá-lo e dizer: “A mamãe tá aqui.” Nesse momento não importaram cortes,  suturas, passividade. Se aconteceu como a natureza planejou, ou como as cirscuntâncias exigiram.  Todo sentimento que não era amor se dissolveu.

Eu ainda penso como gostaria de ter tido um parto normal. Como seria bom dizer para as futuras grávidas que eu conhecesse que eu passei por todas as dores e esforço e sobrevivi. E foi bom. Mas no fim das contas, parece que tudo aconteceu como tinha que acontecer e eu agradeço muito à minha médica por ter respeitado e incentivado a minha decisão de esperar pelo parto normal e, principalmente, por ter mudado os planos quando julgou necessário. Assim que abriu meu útero, ela atestou que mesmo que eu tivesse a dilatação necessária, dificilmente Miguel nasceria pelas vias naturais: estava enrolado, pelo pescoço e pelos pés, ao cordão umbilical. A natureza também tem dessas coisas.

The greatest moment. The greatest love of them all.

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